quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Há sempre uma nova história começando depois da última página.

Quando tudo faz lembrar. Quando tudo faz ficar. Aí vem a sensação de que os caminhos não se cruzam ou entrecruzam por acaso. Algumas fantasias se romperam. Outras fantasias se farão. E é disso que é feita a vida. De eternos retornos.

Último dia de 2008, um ano de muitas dores e alguns amores. O que fica é a vontade de amanhecer junto com o sol de manhã. Renascer com um desejo novo e nenhum peso no peito.

Amigos juntos há anos, outros nem tanto, tantas vezes tão juntos, mas tão separados ao mesmo tempo. Mas dessa vez espero estarmos acertando a mão na tal abertura de sentimentos pro mundo, pra vida. Não, não, nossa história não terminou (seja ao som do mar ou do violão). Ela se refaz, como cada ano, um após o outro.

Como 2008 acaba para dar lugar a 2009, um ano indecifrável para mim. Um ano que promete ser de recomeço, amores lançados (de outras bases) para espaços siderais. Adoro a idéia de saturno ter anéis, de termos iniciado a vida no fundo dos oceanos. Adoro acordar de noite com medo e sentir que tem alguém ao lado. No escuro e vendo.

Não sei, meus amigos, o que nos espera dobrando a esquina do tempo. Espero que seja mais aceitação, mais paz por dentro, mais amor para os olhos, corpo e alma. Não quero hoje fazer balanços ou planos. Quero continuar tentando. Quero não ter medo de gritar quando sentir vontade, de beijar quando tiver desejo, de desistir quando tudo mais já não valer a pena. Afinal, desistir é também uma forma de começar tudo de novo.

Que venha 2009... Vou deixar a porta aberta!


Ei! Você, aí, que finge que dorme e não vive a vida que tem. Está mudando o ano, e você, vai escolher permanecer?

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Só o teu riso dura.

Há um mês atrás ela transformou-se em anjo. Um anjo alvo e risonho. De cabelos lisos e grisalhos.

Ela estava linda.

Descansou da vida de dependência. E de sofrimento, acredito, embora sempre tão bem disfarçado. De passar, num instante, da tranqüilidade a uma convulsão. De saber que sua capacidade encoberta pelas mãos trêmulas não a levariam mais a lugar algum. Lugar algum além da cadeira de balanço em que ficava em sua casa confortável, vendo tevê em silêncio. Ou a cadeira posta no seu quarto, onde passava a maior parte do dia, rezando, estagnada. Sempre em silêncio, até chegar um parente e o sorriso se abrir, e a língua se soltar.

Como ela gostava de conversar... Era consciente, esperta, embora passasse boa parte do dia quietinha, só observando as coisas e as pessoas. Pessoas que temiam deixá-la a sós, que a amparavam, que preparavam seu banho e sua comida, que lhe davam os remédios sempre à hora certa. E a escutava dizer, constantemente, que estava tudo bem, diante daqueles olhos presos nela o dia inteiro; não queria que deixassem de viver suas vidas para ficarem ali, olhando-a, com receio de que algo pudesse acontecer. E eu estava sempre dentre essas pessoas, essas poucas pessoas, sem nenhum empecilho, com todo o amor que sempre lhe tive.

Ter tudo e ter nada.

Muito se chorou, muito se vai chorar por ela ainda. Mas acho que, passado o baque, ainda que com choro, vai ficar a lembrança daquele riso imenso, do sorriso cristalino como o de uma criança. Eu, pelo menos, quero guardar esse riso enquanto a lucidez me permitir.

Descanse em paz, minha avó, minha flor, meu amor.



[baseado em texto do blog menina gauche]
[http://meninagauche.blogger.com.br]

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Ho ho ho!

"...Oh, meu bom Jesus, que a todos conduz, olhai as crianças do nosso Brasil..."

Quando criança, sempre forçava as pálpebras a ficarem abertas à espreita da entrada sorrateira do Papai Noel em meu quarto. Como eu sabia que ele atendia a milhares de crianças no mundo inteiro, eu compreendia sua demora. E todo ano, eu adormecia antes da visita do bom velhinho. Na manhã seguinte, estavam lá os presentes aos pés da cama.

E foi assim durante anos e anos. Até que numa véspera de natal, encontrei, no carro do papai, pacotes de presente verde e laranja com laços de fita em volta e pirulitos coloridos colados nas embalagens. Ao acordar no dia seguinte, olhei os pés da cama e lá estavam os mesmos pacotes com laços e pirulitos. Parei, fiquei olhando aquilo! Liguei o nome à pessoa! Eureca!! Me senti a garota mais sortuda do mundo!

Não contem pra ninguém, mas eu sou a filha do Papai Noel!!

domingo, 21 de dezembro de 2008

Fazes-me falta.

Só o teu riso dura.

Estou sozinha. Sozinha e com o coração em bocados espalhados pelas tuas imagens. Já não posso oferecer-te o meu coração numa salva de prata.

Olho para o mar, para essas ondas frias e violentas em que tanto gostavas, e sinto-me também eu meio morta, meio fria. Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas. A tua morte alivia-me do medo de morrer. Contigo fora de jogo, diminui o interesse da parada. E se tu morreste, também eu serei capaz de morrer, sem que as ondas nem o céu nem o silêncio se transtornem.

Há tantas coisas que nunca te disse – e tu dizias que eu falava demais.
Se ao menos te tivesse dito "Obrigada".
Deus da minha imperfeição, entorna um mililitro da minha voz no sono eterno da minha avó, deixa-me dizer-lhe esse obrigada que tanta falta me faz.

E dizia eu que tu falavas demais. É verdade que não paravas de falar. Mesmo ou sobretudo sem palavras, com a força dos teus abraços em carne viva.
Quando tu vivias, eu podia acreditar na alma, lama, mala interestelar, o que tu quisesses. Porque a gente olhava para ti e via essa coisa transparente e firme, esse nó de sangue, secreções e luz a pulsar como um farol. Agora, tudo e todos me falam do "espírito que prevalece", e eu não consigo acreditar nas almas abstratas, bolhas de ar discretas arrotadas entre um chá e dois suspiros.

Fazes-me falta. Já te disse?

Tanto que eu queria agora dar-te o amor total e infantil que tinha pra te dar. Racionei-o a vida inteira como a porra de um chocolate de leite – Por que vivemos como se o tempo nos pertencesse infinitamente, como se pudéssemos repetir tudo de novo, como se pudéssemos alguma coisa?

Uma fotografia tua sobre a cômoda do meu quarto.

Amavas simplesmente a minha terra como uma criança ama uma pedra, um bocado de boneco, um urso sem olhos. É esse amor que agora me falta – o sujo, quotidiano amor dos momentos maus, das frases adversas, das ausências.

Agora que os teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Copacabana.

...é que eu não sei falar muito de mim, habituei a essa vida de barulho por dentro e silêncio por fora, moço, desaprendi de me descrever e agora é assim, só o que o olho do outro alcançar e o que a isca da mente alheia fisgar de mim, aí meio que leva um pedaço e deixa outro, ou meio que quando fisga e leva tudo vai machucado, assim meio de beiço rasgado do anzol. É falta do costume de entrega, moço, mas não, não sou de tirar nada de ninguém também não, só aceito o que me dão, muita vez é pouco, de verdade mesmo há ocasião de eu nem querer, ou querer e dizer não. Pois é, moço, me ser é uma coisa meio que vai na contramão de mim mesma e às vezes bate, mas eu não chamo a polícia, assumo o prejuízo que sou de declarar meu ruim e meu bom, sim, com um certo embaraço, que não ser tudo que se pode é caso de chorar no travesseiro de noite e olhar pro chão quando se cruza com quem é até o que não deve ser, mas eu sou assim, bastante pouca mesmo, e contentada de ser descontente, nem só estou, que tem caso de vida bem menos vivida que essa que me coube, que sina é coisa na qual me fio, mesmo sendo desse fio o nó. Não, moço, melhor não dizer mais nada, quem quiser que me adivinhe, que assim faço graça da desgraça, disfarço e fica assim, o dito pelo não dito, e de outra feita levanto mais a ponta da saia, quem sabe mostro até o joelho, e de pedaço em pedaço vão me montando, é, às vezes encaixando na ordem errada, mas eu sei, a culpa é desse meu silêncio que fala mais alto que tudo que eu tento dizer. É moço, eu disse que eu não era de se entender na primeira leitura, ainda mais com tanta página em branco, mas em algumas eu arrisco uns garranchos, já inventei até umas histórias de meus desenredos, mas só um pouco que não dou conta de mentir muito que minhas verdades me agarram pelos cabelos, é moço, não sou de feitos, nem de ditos, mas sou de ser, assim bem inteira, mesmo com os pedaços que faltam, sou um toco inteiro, admitida e assumida de todo na minha pequeneza. Ai, chega, moço, que já expliquei demais o que nem eu entendo, fica assim por hoje, outro dia eu mostro mais, quem sabe até um pouco da coxa, até lá o senhor tenta esquecer meu desatino, que eu sou assim, fraca pra taças e vinho é coisa que me abre à força, fico assim exposta, vinho é coisa assim que me arranca as casquinhas das feridas da alma, viu só, pronto, o rímel já ta borrando, não, não, vou sujar seu lenço, vinho sempre me vaza assim pelos olhos, me amolece a firmeza, não moço, um táxi e pronto, amanhã nem lembro mais que essa noite lembrei quem eu sou, estou acostumada a tentar esquecer, já vai no automático assim que me olho no espelho de manhã, o dia começa e eu me acabo logo, o eu real, esse que me cutuca, táxi, táxi, táxi, seu lenço moço, táxi, o senhor conhece a rua...

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Carta ao meu coração.

Amado,

Apostamos na delicadeza, mas tudo que é delicado quebra fácil. Aí vêm as perguntas que nos inundam, mas nem todas valem a pena. Algumas têm respostas impossíveis ou inúteis. Aqui e agora, e o melhor que se possa fazer disso, com dignidade. Ainda somos dignos. Pássaros coloridos de origami fingem que voam, carregando desejos. Mas somos de sangue e vísceras, e doem, eventualmente, mas mesmo assim portamos desejos e intenções também. Se ficarem tão pesados a ponto de nos ancorarem, que os abandonemos, para que não nos tirem o vôo. Há um céu, e ele é azul, te digo, mas essa tinta é nossa, e já a temos. Sons, palavras e sabores são tons diversos desse azul. Blues? Sim, outra nuance. Respeitar a lágrima também é um ato digno. A estrada, independente do nome, mais cedo ou mais tarde fica sinuosa, íngreme, mas vamos parar no meio do caminho por causa disso? Não adianta. Outros passarão, o tempo passará, e, como o poeta, nós passarinhos. Vamos continuar voando, amado. Outro alguém me disse que não adianta tentar entender tudo, "Clarice já tinha avisado". Esse abandonou um desejo que estava pesando demais porque "ele não mereceu um poema". Ouço Ana Cristina César sussurrar "tantos poemas que perdi". Ela disse: "não quero mais pôr poemas no papel nem dar a conhecer minha ternura; é inútil ficar à escuta ou manobrar a lupa da adivinhação". Mas ela já não vê o sol, e eu gosto de calor, talvez movida pela paisagem que habito, talvez por pura insistência. Por isso te digo, vamos insistir - não nos outros, mas em nós.

Os bem intencionados costumam mandar beijos no coração, mas, aqui e agora, é meu coração que me beija.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Intensamente dedicado.

"A gente não percebe o amor que se perde aos poucos sem virar carinho, guardar lá dentro o amor não impede que ele empedre, mesmo crendo-se infinito..."

Tinha que sair por algum lugar. Às vezes era pelos poros, outras escorria pelos olhos, havia tempos em que fugia em gritos, outras saía em silêncio duro e pesado. Mas nada disso era bom, eram passagens que doíam quando eram abertas. Ela queria outra via de escape para aquilo que a preenchia a ponto de sufocar. Tinha tanto de si por dentro, era tão intensamente ela mesma em suas entranhas, que não era possível continuar sendo outra pessoa no mundo exterior. Um dia ela teria que se livrar daquele estranho que caminhava por aí carregando sua alma escondida por dentro, pois já não se entendiam mais, o acordo inicial de convivência já não bastava para que coabitassem. Precisava de uma porta nova antes que começasse a achar que a saída era a janela. Frustração é faca cega que insiste no corte. Machuca e não abre. Ela já tinha os dedos feridos, mas foi justo daí que saiu a primeira cor. Vermelho de sangue, daquele corte vindo direto do coração, que esvaía, esvaía, mas então ali aberto começou a deixar escapar outras coisas, muitas outras. Pedaços do seu mundo começaram a escorrer pelos dedos, em rabiscos, depois em palavras, depois em formas, depois em cores. Os dedos eram a chave. A porta estava em toda parte. No papel, no barro, na tela, ela ia deixando o que lhe sobrava sem se perder de si. A porta estava em toda parte. Ela ia abrindo e atravessando, sem parar, e o mundo ganhou movimento, e ela ganhou leveza, e um dia criou asas e nunca mais parou de voar. Passou a passarinhar pelo mundo, se fingindo de gente quando convinha. Tudo veio da ferida, a cicatriz era a assinatura tatuada, mas agora ela tinha por onde sair. A porta está em toda parte.

Viver é escolha intransferível, nascimento diário que se dá enquanto o destino vai arrancando a esmo mato e flor e o jardim rebrota ou não - vai de esperar e aceitar as estações.

Ela espera, aceita e rebrota. É outono que primavera, inverno que verão florir, faz sol e derrama chuva, é flor que abre e folha que cai. Morre também. Mas não carrega mortos consigo. É insistência do que é intenso e vivo. Vive da insistência do intenso que é.

"...Somos, se pudermos ser ainda, fomos donos do que hoje não há mais, houve o que houve e o que escondem em vão, os pensamentos que preferem calar, se não irá nos ferir o não, mas que não quer dizer tchau."

domingo, 16 de novembro de 2008

Fazendo as pazes comigo.

"Você não é um rio cheio que eu não possa atravessar".


Não lembro mais o dia da semana. Lembro ter sentido uma dor enorme. Mas não era no peito. Era uma dor difusa, que nascia na ponta dos dedos e se espalhava pelos braços e pernas até atingir em cheio minha cabeça. Tentei usar a cabeça, ser racional. Tudo que consegui foi desligar o computador e pedir ao professor para ir embora. Queria sair dali o quanto antes. Queria chorar na rua, enquanto não chegava em casa.

Lembro que fui a pé, sem rumo, entre ruas que muitas vezes nem sabia do nome, era assim que eu queria. Um ou outro passante observava minhas lágrimas caindo e meu rosto muito vermelho. Não lembro mais do ano. Mas lembro que era dezembro. E em dezembro as dores são mais sentidas. Cheguei em casa e tudo que fiz foi tirar a roupa e cair na banheira morna, quase quente.


Pausa. Respiro.

Final de 2008. Resolvo que vou de novo dar um rumo aos meus dias. Chega de 'descompromisso', de farras homéricas, de infelicidade. Chega de saudade. Tenho poucos dias para deixar tudo em ordem: das contas, ao coração rasgado. Passando pela intolerância, pela incompreensão imediata de alguns, pelas frases mal-costuradas dos últimos tempos.

Estou ciente de que não sou uma pessoa infeliz. E contente em ter o que tenho diante de um mundo cada vez mais desbotado. Mistério, como diz o Gil, sempre há de pintar por aí... Mas quero a sorte de dias mais tranqüilos e menos embaraços na hora de bater de frente com uma promessa concreta de felicidade. Nem velha. Nem nova. Tenho o melhor dos dois mundos (como disse a alguns poucos que me são caros).

Não vou sujar minha barra tentando limpar a sujeira dos outros. Tenho uma lista enorme de motivos pra ser feliz. Vou aproveitar minha energia para partilhar mais, para conversar horas ao telefone, para jogar muito e morrer de prazer com isso. Para escrever, ler, ouvir, ver e sentir como sempre fiz: acreditando tanto na fantasia que ela acaba se transformando em realidade.

Como dizia meus queridos Hermanos: "Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz..."

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Desabafo.

"...Ela anda distraída da sua própria vida faz um tempo. Agora está meio triste."

Sempre tive tudo que quis muito fácil, por menores que fossem minhas vontades, e hoje eu sofro por isso.

Continuo querendo tudo como era, sem perceber que as coisas mudam com o tempo, que quando nos tornamos 'independentes' temos que lutar pra conseguir ser 'algo na vida', e hoje eu não consigo fazer algo por mim, algo no qual eu quero mesmo, porque eu me acostumei com as vontades todas realizadas ali, sem que eu precisasse pedir duas vezes.

O vestibular é daqui a uma semana, está batendo na porta, e eu aqui chorando todos os dias quando olho a quantidade de assuntos que ainda tenho que revisar, porque eu só consegui acordar agora, um mês antes. Sim, eu dormi todo o resto do tempo.

Não me sinto bem ultimamente, e o que é pior, as pessoas conseguem ver isso nitidamente por mais que haja um sorriso no meu rosto. Os olhos não mentem.

Alguns podem dizer que é falta de vontade, que a culpa é minha e somente minha, e que se eu quisesse isso não estaria acontecendo. Ok, já escutei bastante isso, cada um com suas opiniões, afinal pra se entender o que se passa no íntimo das pessoas é sempre mais complicado, e por que não apostar no mais óbvio? As pessoas gostam do julgamento. E como gostam.

Mas eu vou dar a minha versão. Chega nessa época de 'reta final', eu sempre penso que eu poderia ter tentado um pouco mais, ter tentado estudar mais, que não deveria ter me deixado abalar por besteiras, quando eu poderia não me abalar, que eu deveria ter me importado menos com o mundo ao redor, ter saído menos, ter me concentrado mais... E eu tentei, todos os dias acordava indisposta e me dizia que só precisava levantar e aquilo ia melhorar, que eu ia ver meus amigos e ia me sentir bem, me dava vantagens, e levantava. Fui caminhando, calada, mesmo com todos os comentários incompreensíveis, mesmo com a proposta de todo santo dia da minha mãe 'não vai hoje não, um dia assim não faz mal'... 'Ah, não precisa ir hoje, copia um trabalho pra mim no computador', e eu respirava, levantava e ia tomar meu banho calada. Foi difícil obter vontade e ainda ter que passar por isso tudo, e doía muito ouvir minha mãe, a que mais me deveria dar apoio, me dizendo todos os dias pra faltar aula por algo tão supérfluo. A verdade é que acho que nunca pude contar com ela realmente. E todas as vezes que eu me sentia capaz, aquilo voltava contra mim. E eu fui levando... Mas, por mais que eu quisesse fazer um pouco além, eu não conseguia, eu fugia de mim, e assim me enganei o ano todo, resolvendo coisas fáceis, olhando um assunto ou outro e pensando que estava conseguindo vencer meu instinto, meu instinto devorador.

Mas desde o inicio, de alguma forma, eu sabia como ia ser agora, só não conseguia fazer nada por isso. Nunca foi falta de vontade, repito. Ao contrário, passar no único curso que me identifico realmente é tudo o que mais quero agora, e sempre quis. E mais ainda, quero não precisar provar isso a ninguém, a não ser a mim mesma, me provar que posso ser capaz, nada além.

Acho que estragaram minha vida me dando tudo o que eu queria, assim, sem precisar lutar um pouco pra conseguir. Até hoje é assim. Agora eu fico aqui, desistindo por um tropeço, esperando por um milagre sem nem acreditar neles, aguardando que a sorte venha me visitar... Não, não é por falta de vontade, na verdade, nem sei mais o que me falta.

sábado, 8 de novembro de 2008

Tanto amor... que dá e passa.


Agora o amor te ofende. Era vidro e se quebrou. Você agarrado aos cacos, e o corte não fecha (você não deixa). A plenitude dos outros te grita teu vazio e você amaldiçoa aquele que antes era o deus do teu altar mais secreto. Não é culpa dele, nunca te mentiu sobre sua natureza volúvel. Amor entra arrombando porta ou foge pela janela quando bem entende - você mal compreende o mais básico de sua dinâmica, anseia por âncoras onde só há navegar. Não há permanência. Amor não é tatuagem (mas, sim, pode deixar cicatriz). Talvez seja maquiagem que peça retoque constante. Talvez só pele limpa, sem perfumes artificiais, só o humano exposto - mas há sempre a inevitável máscara, e a paixão pode ser por ela, mas o baile acaba. Cavalheiro, qual será a contradança quando os pés já estiverem cansados e as olheiras fundas? A paixão não tem compaixão.

Agora você ofende o amor. Mas ele não se afetará, entende? As injúrias são dos amadores, ficam com eles como uma oferenda recusada - o amor não aceita presentes baratos. Ele segue sempre a dança, sorrindo, trocando de pares, de fantasias, bailando todos os ritmos - ele é flexível, mas não se curva aos teus lamentos, porque a tristeza é sua e não dele, entende? A dor é uma filha bastarda, um descuido dos amantes. Ele é sempre aqui e agora, se partiu e você ficou, no ontem ou amanhã, cuida logo das tuas feridas e pára de lhes arrancar as cascas. Não espere que ele tenha pena, querido. O amor não tem coração.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Pra não falar de amor...

Hoje eu não quero falar de amor, pensar em amor, lembrar de coisas que um dia se apresentaram como possibilidade de... Amor. É que mentira tem perna curta e eu não estou mais a fim de começar tudo de novo, acreditar naquelas conversas cheias de boas intenções, pra depois terminar em desafeto, falta de cuidado a ponto de: -Putz! Não era bem isso que eu queria...

Acho que é porque está frio e ontem foi ontem. E lembrei de tempos atrás quando eu era capaz de inventar mil surpresas sem a menor vontade de impressionar, apenas pra... Ver você sorrir? É isso. Você sorria para dentro. E aquilo me incomodava... Por isso eu bolava novas maneiras de encantar, fazer carinho quente bem debaixo da asa esquerda que eu julgava quebrada.

(Saudades do tempo em que tu não me fazias falta alguma. O meu apego sobre as coisas que tu deixaste aqui é incontrolável, não vou mentir, sinto raiva de ti, de mim, do mundo e de como as coisas mudam rapidamente, então me diz com sinceridade, pra que me mudar e depois se mudar de mim? Juro, não entendo.)

Mas o anel que tu me deste era de areia. A mesma que a gente pisou sem deixar grandes marcas. E isso agora incomoda. Aquela minha total disponibilidade e a sua incapacidade de se deixar amar. Hoje eu vivo olhando o céu, buscando gaivotas mesmo longe do mar. Lembra que você costumava desenhar gaivotas no quadro negro, na ausência do professor?

E fazia versos e tocava violão e me revirava por dentro. Descobria desde a tristeza dos meus olhos até o sonho mais escondido. Desde então nosso brinquedo preferido era fazer-de-conta... "-faz de conta que te amo"... (Diria que é o tal mundo moderno, onde nem quem se diz de alguém realmente faz por valer. E tenho dito.) Mas hoje eu não quero falar de amor, pensar em amor, lembrar de coisas que um dia se apresentaram como possibilidade de... Amor.

sábado, 18 de outubro de 2008

Peito vazio, cabeça cheia. Às vezes o peito cheio e a cabeça vazia, em branco.


Às vezes, era preciso muitas noites insones, com a dor e a solidão como companhias, e milhares de lágrimas pra conseguir entender o que acontecia. Era como se, em algum momento de insanidade, ela conseguisse enxergar tudo o que existia à sua volta de fora, e, assim, livre de qualquer pré-conceito que tivesse, analisasse a situação exatamente como ela era. Simples assim. Frio assim.

E foi assim que ela entendeu. Deixando de lado a dor que ela sentia as coisas ficaram mais claras, e ela conseguiu enxergar os ciclos de todo mundo. O dela, principalmente. E ela percebeu que, nesse tempo todo, aprendeu o que tinha que aprender. Ela esteve presente onde tinha que estar, na hora certa. Ela ouviu e ajudou quando pôde, e da maneira que pôde. Ela aprendeu tudo o que precisava. Ela cresceu o quanto pôde. E, da mesma forma, todo mundo o fez. Talvez não igualmente, mas isso também não importava tanto assim. E foi aí que ela viu que esse ciclo tinha acabado. Pra todo mundo. E, de repente, não doeu mais. Ela não chorou mais. Ela entendeu, e aceitou.

Agora, os ciclos iam ser outros. Pra cada um, um novo ciclo, uma nova chance de crescer e de aprender mais coisas. E, num novo ciclo, não cabem mais coisas velhas. O que passou, passou. E pronto. Agora, era a hora de abrir caminho pro que ainda haveria de vir. Guardar coisas velhas seria ocupar o espaço que se iria precisar pras coisas novas. Ainda tinha muito tempo e muita coisa pra vir. Boas ou ruins, só o próprio tempo haveria de saber.

E, se ela decidiu entrar nessa de viver, ela iria até o fim. Com toda a coragem e vontade que tinha. Com toda a força que ela nem sabia de onde vinha. Com toda a fé cega nas pessoas, mesmo quando não era a coisa mais sensata a se fazer. Com a certeza de que, mesmo se o dia estivesse nublado e frio, o sol ia sempre estar lá pra ela.

E ela ia tropeçar mais mil vezes. E ela ia cair outras tantas. E ela ia chorar, de dia ou de noite. E ela ia passar mais infinitas noites insones. E ela ia hesitar e ficar em cima do muro. E ela ia duvidar das coisas. E ela ia errar, muito. E ela ia ficar feliz mais um bilhão de dias sem fim. E ela ia chorar de felicidade. E ela ia rir. E ela ia pular e cantar e dançar. E ela ia ser ela mesma, sempre, com toda a intensidade do mundo, e com tudo de bom e de ruim que isso ia te trazer ainda. Mas nunca, em nenhum segundo, ela ia estar sozinha nessa.

Por todas as coisas, ela agradece. Boas ou ruins, todas a fizeram ser quem ela é hoje. E o que há de ficar será muito mais do que os laços invisíveis das fotografias.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

The same old scenario, the same old rain.


Às vezes deita a sua cabeça no chão, estica seu corpo e fica olhando as estrelas tão antigas brilhando lá no alto. É tudo passado, mas ainda caminha sob a sua cabeça e basta que ela olhe pra cima para que possa lembrar de tudo de novo.

Ainda insiste na ridícula afirmação: "parece que não teve um ponto final", mas é claro que teve. Então por que ela ainda insiste em criar raízes grossas em tudo isso? De fato tudo passou e ela não quer que volte mais, talvez remoer coisas do tipo implique no que já disse.

Pois que a maldita estrela crie asas e saia voando, ou simplesmente se apague... Talvez na pior das hipóteses, que ela fique cega e não veja mais nada que a faça remoer o passado. Ela não quer mastigar frutos podres, não quer moer grãos murchos. Ela tem toda uma vida pela frente e o seu caminho se traça a partir de uma linha imaginária que cria agora, todo pão que jogou pelo caminho até aqui ela espera que seja comido pelos pássaros, não quer conhecer alternativas que lhe façam cair no passado obscuro.

De fato contornou as coisas do presente para que não se esquecesse que o mais importante é a sua vida.

Olhar para um pedaço de madeira iluminado pela fraca luz do luar e encontrar dentro de tão pouco algo que pode virar uma obra de arte, arte que explica a vida. Ser forte ou simplesmente parecer forte pode ser a maior das armadilhas, é botar galhos pra fora, abrigar pássaros, permanecer parada com as raízes fincadas na terra, feito uma árvore. Árvore sozinha quando a chuva vem, árvore que balança quando ventos fortes por seus galhos passam, árvore que um dia irá virar apenas um pedaço de madeira sob a luz do luar.

Nenhuma queda é digna de humor, nem mesmo a de seus inimigos, se é que eles existem. O ódio é algo permanente, como o amor... Ódio? Ódio não sente, ela só quer que você permaneça longe como permanece, e então entregará o seu peito às águas frias de um riacho e que seus sentimentos não sejam mais secretos. É vago, é incerto, é falso, é mentira, é doloroso, é de arrancar lágrimas, é de apertar o peito, de puxar os cabelos, de bater a cabeça na parede e se perguntar por que, é ruim. Solidão? Se dissesse isso estaria sendo ingrata... Tem tudo que ela precisa, ou talvez quase isso. Ela queria poder te ver bem, sem ter que se contorcer no chão frio e querer se matar por se sentir monstro... Deu-lhe a vida, e se acha que pode então a arranque tão precioso bem. Foi quando mais precisou que os pássaros voaram, se mostraram fracos, não suportaram o inverno, foram embora e não vão voltar, porque não querem e porque ela não quer que voltem.

O barro gelado lhe dá cócegas estranhas... Ao mesmo tempo em que chora ela cai no riso. É frio, mas é vivo. Agora fica aqui, conversando com as estrelas, falando com a sua alma, ensinando coisas a ela e tentando refletir sobre seus sentimentos, observando um pedaço de madeira azulado pela luz do luar.



Ps.: Peço desculpas pela demora, estive viajando, jogando alguns amistosos de basquete, e precisei também 'me dar um tempo', como falei no post anterior, pra pôr um pouco minha cabeça no lugar. Pois bem, as coisas parecem se resolver, e já estou melhor. Agradeço aos que não deixaram de vir aqui fazer seus comentários. Agradeço principalmente ao Rômulo, a Vanessa e a Intense, pessoas já um tanto especiais que tive o privilégio de 'conhecer' aqui, pelas palavras sempre tão confortáveis. E aos que ainda não pude responder, farei isso em breve. Beijos a todos.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

"O mundo é um moinho", ele disse.

No moinho giram as pás e o vento vira pó, de grão em grão, por entre os dedos, tudo parece escapar...

Estes dias trouxeram de volta a dor, deixaram tudo confuso, cinza, para ela. O ambiente do hospital assusta. Percorro os corredores com o coração disparado. Ela sempre chora calada, mesmo sofrendo. Minha guerreira tem apenas 19 anos. Compreende que sua complicação vai minando crenças, derrubando certezas, deixando o que é confuso ainda mais confuso. O corpo frágil me abraça como que buscando respostas. E eu invento caminhos para tornar suas horas menos dolorosas. Choro longe dela, tento disfarçar meu embaraço diante de perguntas simples. Respiro fundo, estampo meu melhor sorriso e digo que ela pode tudo. Ela pode voar, mergulhar, descer de pára-quedas num terreno seguro, firme, se possível com uma bela paisagem de fundo. E como ela gosta de música, com uma trilha sonora de tirar o fôlego... Essa doença pode até ser um rio cheio. Mas vamos continuar tentando atravessar...

Seus sonhos voltaram para a UTI. Tudo o que ela ama desaparece. O tempo voa enquanto finge esquecer. Sua casa anda tão suja e bagunçada: roupas pelo chão, pilha de louça pra lavar, pia do banheiro entupida, teias de aranha pelas paredes e muito pó - por todo lugar. O tempo voa enquanto a mãe tenta lavar os pratos, varrer os pensamentos mórbidos, desentupir o coração e colocar o lixo pra fora. Seus sonhos estão na UTI e tudo o que ela ama desaparece. Tem dias em que acorda se sentindo tão vazia que gostaria mesmo de nunca ter nascido pro mundo.

E ela me liga todos os dias, aos prantos, me tirando as palavras e me deixando um aperto no peito.

Ah, como eu queria ter a força que penso ter, ou ter a tua força mesmo coberta de água e sal. Ah, como eu queria ter a tua força.

Ela contraria as previsões pessimistas e segue renascendo todas as manhãs. Por isso que eu, com todas as minhas subjetividades, medos invisíveis e tristezas indomáveis, ando maturando calada no lado de cá dessa árvore... E muitas vezes me pego sorrindo, mesmo chorando.

Deve ser uma fase. Mais uma. Procuro acreditar nisso. Mas por enquanto é em dor que se converte certas fontes que jamais haviam secado. Tudo que eu queria agora era uma palavra compreensiva, um abraço estendido, e um tempo. Apenas um tempo.


Estou aqui, flor. Estou aqui.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Sinto a falta dele como se me faltasse um dente na frente: excruciante.

Querido,

A pessoa que abracei hoje não era a mesma que abracei da última vez. Dores como cinzéis esculpindo uma face nova no rosto antigo. O mesmo mar, numa zona mais funda e menos límpida, talvez habitada por seres menos familiares. Mergulhamos, nos entregamos ao humor volúvel das marés e escolhemos a água salgada, mesmo morrendo de sede. Mas há os momentos de sombra, e o sol que invadiu as frestas das árvores de surpresa, em raios retos e certeiros, veio como um suave e belo lembrete de que há luz. Ainda. E sabemos vê-la, por mais que em certos dias fechemos as cortinas, tranquemos a porta e desliguemos os telefones. Penso na tradição poética de sua linhagem, que transforma afeto em Souvenir. Houve aquele que virou uma colcha de renda. Penso no que o novo anjo se transformará. Talvez na calça jeans que ficou com a bainha por fazer. Talvez algo mais singelo, como uma bola de gude solitária, que não será jamais jogada. Acho belo isso de simbolizar e guardar as pessoas, incendiária que sou sempre queimando as pontes por onde passo. Se eu mesma fosse me guardar, teria baús de coisas que já não sou. Mas o sol, que já estava aí antes de nossas lágrimas e vai permanecer depois que elas secarem, vem e vai, enquanto gritamos contra certas impertinências erradas. Vale o grito? Seguro tua mão, enquanto me assombro com o quanto pode ser belo e rico o que é triste. Talvez seja essa a herança que aquele que você já não é tenha deixado para o homem que sentou hoje à minha frente. Não o consolo, mas a coragem, até mesmo de ser fraco.

O sol já foi, mas eu estou aqui. As nuvens passam.

Amor,
Yah.

domingo, 14 de setembro de 2008

E quem irá dizer que não existe razão?

"...Como se a vida fosse um perigo, como se houvesse faca no ar..."

Leo e Bia. Da infância à adolescência, das brincadeiras à universidade. Uma linda história de amor, romance que não está nos livros, a escrita precisa na canção, Mar e Lua. As duas crianças cresceram juntas, brincaram na mesma rua, estudaram na mesma escola, eram inseparáveis. O desabrochar de um desejo, bem ali, sob os olhares atentos e repressores.

O que era "brincadeira de criança" cresceu e se modificou. Seriam almas gêmeas? Não se sabe ao certo. O fato é que se apaixonaram, ali, sob os olhares atentos e espantados.

Leo e Bia sabiam viver, riam da imprevisibilidade da vida, se divertiam com coisas simples como pintar a parede da sala do apartamento onde moravam sujando as roupas todas de tinta. Usavam a criatividade nas aulas da faculdade de arquitetura e rezavam todos os dias antes do jantar. A descoberta da vida a dois, bem ali, sob os olhares atentos e curiosos.

Não tinham uma vida luxuosa, mas isso não importava muito. O que ganhavam dava para sustentar o agradável apartamento em que viviam. Uma sala de estar e um pequeno quarto com peças e quadros decorativos, em tons suaves e alegres, denunciavam a felicidade do casal. O dia a dia de duas pessoas que se amam, bem ali, sob os olhares atentos e invejosos.

Sempre os mesmos olhares, ali atentos a tudo. Mas Leo e Bia riam deles. Apenas uma coisa deixava Bia triste: era quando Leo a chamava de "Ana Beatriz Bezerra Pires". Era um sinal de que estava com raiva dela, por algum motivo. E vice-versa, quando Bia chamava Leo de "Leandra Mendes Rocha", lá vinha chumbo grosso.

Mas, no fim das contas, sempre ficava tudo bem. As meninas eram fortes, lutavam pela vida, pelo amor e pelo direito de sorrir juntas, quando quisessem. A vida delas era só sorrisos. Bem ali sob os olhares atentos e hipócritas.

Bem aqui, sob o seu olhar.

"...Qualquer maneira de amar valia. E Leo e Bia souberam amar..."

domingo, 7 de setembro de 2008

Tanto amor que fere e cansa.

E se eu te chegasse suave, e com um toque leve, como uma brisa, te dissesse: venha - você viria? Ouviria? Porque em sussurros e silêncios é que te digo as coisas que mais importam, o que te grito prefiro que esqueças, porque ali não sou eu que falo - é minha ira, meu medo, é meu erro que vocifera. Eu aqui dentro sou carinho, você olharia se te mostrasse? Porque eu queria me aproximar sem sobressaltos, como um degrade, que aos poucos vai se tornando cor, como aos poucos, do nada, eu te seria alguém. E quando você me deixasse existir na sua vida, eu te mostraria meus arco-íris, até os cinzentos e os invisíveis, em todas as suas nuances de transparências, mas eu te ensinaria a lhes sentir pelo tato, para que você pudesse reconhecer minhas ausências e saber quando eu realmente não estou e quando eu apenas me escondo no ambiente para fugir - de mim, muitas vezes, que não tenho muito jeito nem com os outros e nem comigo. Porque eu queria sentir-me pertencida sem ter que me explicar muito - nem eu sei bem minhas razões. Queria então chegar como um vento morno e sem estardalhaço me misturar à tua atmosfera, e ficar ali esperando que me respirasses, e no teu corpo me misturaria às tuas células, e um dia, sem sequer notar, eu já faria parte de ti. Sei que na verdade às vezes me aproximo como tempestade, e arranco telhados, quebro vidraças, inundo tuas plantações, sei bem. Mas é por isso que te peço aqui - se eu chegasse mansa, você acolheria minhas impossibilidades? Preciso dar-lhes um teto para que não se tornem bicho selvagem.

Vem. Te aceito em mim. Seja-me um pouco, experimenta o mundo com meus olhos e te mostro a poesia que enxergo. Te recito os versos que vejo rabiscados nos muros, num cão que passa, num papel que voa, num toque, na voz de um estranho. No comum, no explícito, no banal e no diário procuro o lirismo intrínseco que sempre há (e é suporte dos dias, principalmente os nublados). Mergulha em mim (mas desvia dos meus seres abissais) e te mostro que sou pedra e onda, sal e sol, fluida e concreta - depende da maré. Te oferto também meu silêncio (presta atenção quando calo), ele te dirá mais sobre a origem do meu verbo que minha boca poderia tentar. Tenta você minha boca.

E depois dos meus versos, o reverso, e me mostra então como é ser você. Onde teu olho pousa, o que teu ouvido pesca, o que toca tua pele. Onde está tua flor (e o espinho). Me deixa provar teu mundo e ele então fará parte do meu. Tua experiência comporá meu repertório - escuta, já somos tantas melodias, em cantar, encantamo-nos. Casa tua alma com a minha e leva teu corpo por onde quiser. Sejamos sempre dois que se misturam, mas não se invadem - penetrações consentidas. Entra em mim, bem-vindo, e me receba, e assim sejamos muito e mais, por sermos ainda e sempre dois - o que te ofereço é soma, e não fusão.

Vem?

domingo, 31 de agosto de 2008

Faz parte então, perder-se no ar.

Duas árvores irmãs, uma tão frescamente verde em primavera e outra carregando as brasas do outono avermelhando suas extremidades em pleno inverno, uma ao lado da outra. Juntas e vivendo estações diversas. Mas não é assim também entre nós, querido? A árvore sem folhas não estava morta. Despida de sua graça, talvez, nua de seus encantos, mas via-se lá firme e sólido o esqueleto, sua sustentação. Como se mesmo cercada de verde e flores, não tivesse vergonha de seguir seu próprio ritmo e de atender às suas necessidades de sobrevivência, mesmo que para isso tivesse que morrer parcialmente, às vezes. Mas estava lá sempre e ainda o tronco. E se alguém viesse com a serra? Ela estaria lá, pronta e imóvel, querido. Sem choro, nem fuga – é da natureza da árvore não ter opção.

A árvore não deixa de ser a morte da semente, assim como a borboleta é o fim da lagarta. Mas nós nem sempre voamos, nem sempre brotamos. O que somos diante do que já não é? O que podemos ser quando algo deixa de ser?

Dor e alívio.

A vida insiste.
A morte insiste.
Você resiste.
Porque é infinito o fim, mas há sempre uma nova história começando depois da última página.

Cuida do teu jardim, mas não despreza a árvore nua, querido. Já deitamos à sua sombra tantas vezes. Você não troca suas folhas também?

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Da cor da sua paz.

A luz do seu quarto está acesa, a janela está aberta desde o começo da tarde. Por mais que eu saiba que não é você que está lá, eu olho de cinco em cinco minutos, numa esperança tola, quase infantil de te ver novamente. Chorei outro dia, ao ver que a moça da novela morrera, era só uma novela, mas foi triste... Eu saí correndo da sala e me escondi no quarto pra chorar sozinha, e pra que ninguém me visse.

[Ele era apenas um ser sem face, alguém que desfazia meus nós todos os dias. O que zelava enquanto eu escrevia, o que me fazia remover os cacos e renascer em poesia e rima. Era ele, aquele sem rosto, tão incógnito e tão íntimo, tão avesso e tão direito. Ele, que se colocava exposto e dado a meu juízo e veredicto. Ele, sempre absolvido por minha mão generosa.]

Às vezes as coisas parecem com antes... Aliás, eu comecei o dia pensando em você, sonhei com você, aqueles nossos sonhos felizes que eu te contava, toda cheia de esperança, nos nossos eternos passeios. Eu me lembro de todos aqueles dias, e o jeito que você me olhava enquanto eu falava. Eu me lembro das infinitas horas de conversa boba, das manhãs, das brigas... E a gente falava da vida, e você dizia que eu era a sua vida... "Infinitas vezes o universo ao cubo, pra sempre que nunca acaba"...

[Ele, a meus olhos tão singular e, diante do espelho, tão oposto a tudo que eu via. Ele, plural, par, infinitamente trivial. Ele, que tinha insônias, que temia sumir num instante qualquer. Ele, de semblante inexpressivo, de escama alva, de olhar cerúleo, de existência efêmera. Ele, que não sabia rezar, que desmanchava seus muros de arrimo e se jogava de ponta-cabeça. Ele, tão covarde e sobrevivente, tão inculto e pseudo-intelectual.]

Sabe, eu sinto tanto a sua falta, e sinto tanto não ter dito quando podia, eu sinto tanto por ter me deixado levar, por não ter pensado direito, por não ter visto o quanto, apesar da mágoa, o que existia entre a gente era real, e ter parado enquanto ainda era tempo. E eu sinto muito pela escolha que eu fiz, e você sabia, desde sempre, que era errada. E eu sinto por ter tomado coragem pra dizer tarde demais. Eu sinto falta de escrever pra você, em todo lugar, e ver as respostas postadas em algum canto da internet. Eu sinto falta do frio na barriga que eu sentia quando a gente falava no telefone. Eu sinto falta do som da tua voz. Eu sinto falta do teu cheiro, dos teus abraços apertados, dos teus olhares doces, da certeza de que você estava sempre comigo. Eu sinto falta dos dias, das noites, dos sonhos, das cores. Eu sinto falta do que fomos e do que mais ninguém poderá ser.

[Meu anjo caído, personagem surreal do livro que ainda não escrevi. Protagonista com vida própria e tão dependente de mim. Ele, que implorava para que eu não parasse de lhe dar voz, ação, emoção em meus rascunhos e borrões. Ele, tantas vezes meu. Meu em inspiração, em luz divina, em acalento, me suplica, - mantenha-me vivo.]

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Quero te abraçar bem forte e roubar sua dor.

A vida não passa de uma estrada que devemos todos seguir, uma estrada esburacada e com pedras nas quais nós tropeçamos e caímos.

Não existem livros que te ensinem a viver, são as quedas que te ensinam a levantar.

Têm momentos da vida em que temos medo, medo do que nos reserva a próxima curva, medo da próxima queda. Pensamos nós que não suportaremos outras, mas lá estamos, levantando, erguendo a cabeça e caminhando de novo.

Na vida existem pessoas que estão ali pra te ajudar a achar o caminho, pra te dar apoio quando você se levanta e pra cuidar dos seus arranhões, essas pessoas são aquelas que deixam suas próprias estradas, seus próprios caminhos, para te acompanhar nos seus, são as pessoas que realmente te amam.

Na vida há momentos em que a tristeza nos domina e lágrimas vêm aos nossos olhos e pensamos em parar... Parar de sofrer, parar de cair, mas aí nos lembramos das pessoas que estão lá nos esperando... Das pessoas que estão do nosso lado e que nos dão a mão para nos levantar; das pessoas que choram conosco e que nos fazem rir, e por elas decidimos voltar a caminhar.

Na vida tem momentos em que você precisa ser forte, estufar o peito e ter coragem mesmo em frente ao maior dos desafios, isso não significa que você não deve ter medo, a coragem não é a ausência do medo e sim a certeza de que existe algo mais importante do que ele, o amor... O amor... Por ele você deve estufar o peito e dizer "que venham", que venham outros buracos, que venham outras quedas, eu vou chegar ao fim, eu já me levantei uma vez e posso fazer de novo, e são nesses momentos que realmente vivemos...

Às vezes, se deve esquecer a razão, esquecer o medo, e simplesmente deixar acontecer, deixar que o vento te carregue e te mostre o caminho...

Mas como eu disse, a vida não passa de uma estrada, e como todas as estradas ela tem um fim...

Aqueles que ficam pra trás sentem falta das pessoas que já completaram o percurso, sentem falta de quando elas a ajudavam a levantar, sentem falta de tê-las ao lado e ter sempre a certeza de que não estava sozinha...

Mas para aqueles que chegaram ao fim, é como se estivessem chegado em um belo vale, com árvores verdes e água cristalina onde podiam finalmente sentar e descansar... Não mais cair... Não mais sofrer...

Quanto a nós que ficamos, nos resta continuar caminhando... E ver o que nos reserva a próxima curva.

___________________________________________________

Toda vida humana tem começo, meio e fim... E a pior parte é quando trancam e jogam terra em cima de alguém que até ontem existia.

Ei Você,

Um dia que estávamos juntas eu te falei a última frase de um filme, que era mais ou menos assim: "Depois que secam as perdas, renovam-se os milharais". Lembra? Um dia você vai olhar as fotografias, sem lamentar, e vai lembrar de todos os momentos bons com um sorriso estampado no rosto, e, então, tudo em volta terá se renovado.

Na dúvida, não hesite em me procurar! Estou aqui só esperando você me chamar.


*Dedicado a alguém que sabe das letras, do sentimento e da solidão.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

"...Os olhos mentem dia e noite a dor da gente..."


Preciso arrumar os sapatos atrás da porta, varrer o pó dentro e fora do meu corpo, pintar as paredes de cor de abóbora, esconder o passado atrás do armário, chamar o eletricista, o encanador. Perceber o eco do meu sorriso, colocar o vinho no gelo, sentir meu próprio cheiro, medir os espaços vazios, descobrir o dom e trocar as lâmpadas. Preciso tirar a fé da gaveta, limpar as taças, ouvir a voz que sai de mim, ferver o leite antes de dormir e pendurar o sol acima da cama.

Estou em obras. Tudo em mim desmorona. Os pés já não sentem a terra firme. O estômago chora os sonhos embalados em sacos de lixo. Para cada martelada, um olhar ao chão. Para cada céu, um inferno à altura. E cada espelho reflete o monstro que lhe convém. Cada um com o seu, cada um na sua. Canta a furadeira enquanto falo do que dói em contestada sinfonia. Meus medos me procuram sete vezes ao dia. Quase sempre cedo. Quase sempre tardo. Meu ventre é uma caverna distante cheia de ecos do além. A terra firme já não sente mais os pés cansados. Para cada lágrima, uma pá de cal. Para cada escavação, uma escora no lugar. Tudo isso acontecendo aqui dentro e tanto silêncio lá fora. Estou em obras. Tudo em mim desmorona. Imagino as pessoas e seus infernos particulares. Cada um no seu, cada um na sua. Quase sempre sede, quase sempre tarde. Para cada um, um monstro. E para cada sonho, um saco de lixo que lhe convém.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

"...Teu choro não me faz desistir, teu riso não me faz reclinar..."

O teu sorriso é só riso. Nada além de uma expressão. Não aquece, nem clareia. É como lanterna acesa à luz do sol. Nem querubim, nem cão de fogo, sorriso apenas morno. Não tem força, não é fato. O teu sorriso é só riso. Fica aquém da imaginação.

(-eu te amo como se ama um sonho ofendido.).

E sorrindo dizes: - O que falta em mim? Quanto falta em mim? Onde falta em mim?

O teu canto não ecoa. Não vai a alma, não arrepia. É como um discurso em meio ao show esperado. Nem visto, nem sentido, apenas um canto despercebido. Não tem força, não é fato. É silêncio no vácuo.

(-te canto como se canta o amor não vivido.).

E plangente dizes: - O que falta em mim? Quanto falta em mim? Onde falta em mim?

A tua lágrima não lava a alma. Não leva ao córrego, não limpa os poros. É como banho de bica no meio do temporal. Nem pura, nem indecente, apenas lágrima descrente. Não tem força, não é fato. É poça de água em riacho.

(-eu te choro como se chora um passarinho mudo.).

E choroso dizes: - O que falta em mim? Quanto falta em mim? Onde falta em mim?

Como se a culpa fosse minha. Como se a culpa fosse minha companheira. Como se estivesse no seu lugar e ali ficasse como bicho corroendo a maçã no paraíso. Tomo um copo de culpa toda manhã e me abasteço desse fel que me impões.

(E te amo como se ama um passarinho morto.).

domingo, 3 de agosto de 2008

"...Por mais que a gente grite, o silêncio é sempre maior..."

Eu falei pra ela: "só dois dedos". As pessoas andam com a cabeça na lua e não escutam o que dizemos... Acho que ficam olhando pro nada tentando descobrir o sentido da vida... Digo isso porque eu também tinha esse hábito... Mas descobri! O sentido da vida é realizar o sonho da casa própria... Pelo menos, pra ela, sim. Me aconselham muito a ouvir as palavras de Deus sobre o tal sentido... O problema é que ele não fala comigo... Se ao menos ele espirrasse, já seria um sinal. Eu lembro que eu falei pra ela exatamente assim: "dois dedos e nada mais"... E ela sorriu e até comentou: "isso parece título de música... Já ouviu aquela do Guilherme Arantes?"... Eu já tinha ouvido, mas mesmo assim ela fez questão de cantar pra mim... E, no final, disse: "prontinho, quatro dedos" e ainda acrescentou, "você não sabe que só tiro o que você pede"... E lá se foi metade dos meus cachos dourados no piso do salão...

"...A gente espera do mundo e o mundo espera de nós, um pouco mais de paciência..."

===================================================


Mas, outra vez?

Pois é.
Já estou me acostumando com tantos agrados. :D
Ganhei mais dois selos no dia 1º. Na verdade, três, sendo um feito pelo próprio blog, do qual achei uma iniciativa bem interessante.
Todos eles do blog Muito Sobre Algo, que por sinal ainda não conhecia, mas que visitei e aprovei, apesar de ter uma abordagem bem diferente dos blogs que costumo visitar.
Eles se encontram aí ao lado, e vou indicar cada um deles a um blog...

  • Selo Brilhante Weblog, vai pro Em linhas.
  • Selo Blog Consciente, vai pro Silêncio Coletivo.
  • Selo Esse blog é algo muito bacana!, vai pro Essência no Ar.

Mais uma vez, obrigada, muito obrigada.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Durma, medo meu.


"...Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável..."


São quase quatro da manhã e me bateu um vazio enorme. Talvez eu seja a pessoa mais só do mundo neste momento. Gostaria de sair andando pelas ruas agora e cruzar com alguém que me entregasse o tratado do Lobo da Estepe e um ingresso pro Teatro Mágico só para os raros, mas quando caminho só vejo mendigos e o comércio ambulante... A realidade é dura demais... Preciso aquietar meu coração e entoar uma canção de amor tendo para quem dedicá-la. O frio só colabora pra seca do meu coração... Só, só, só, excessivamente só...

É, está tudo seco aqui dentro do meu corpo, só tem medo, muito medo... O estrago do passado foi fundo, e criei um campo de força ao meu redor... Estou cansada das relações café-com-adoçante que invento pra mim mesma... Me desculpem o desabafo tão rude e sem prefácio mas é que o silêncio do meu quarto me faz ouvir minhas vozes internas gritando, e eu estou cansada delas, me estilhaço inteira ao ouvi-las... O espelho me diz NÃO NÃO NÃO o tempo todo, e os homens só se preocupam em ter uma bela mulher ao lado, um enfeite, e eu não sei ser enfeite...

No livro da Fernanda Young, a personagem fala que os que morrem e têm família vão para um porta-retrato, são admirados e lembrados por séculos a fio... Os que são sozinhos somem como se nunca tivessem existido até que alguém aluga a casa onde um dia viveram e encontram uma caixinha de madeira num canto com algumas fotos e manuscritos, que jogam fora sem saber pra quem entregar a lembrança do finado...

Estou ficando louca... Tive uma noite tão incrível ontem, uma banda cantando ali na minha frente, todo um leque de sentimentos, estava tudo perfeito, eu fui tão feliz, tão feliz... Dancei, conversei, sorri... Eu estava tão leve, tão plena... E hoje estou assim, tão ácida... Eu acho que é ressaca de felicidade... Eu não posso viver momentos assim de tanta euforia que logo depois me dá uma tristeza funda e sem razão, e não posso falar isso pra ninguém porque as pessoas não alcançam o meu nível de demência...

Estou perdida, não sei o que fazer comigo... Preciso de alguém que me proteja, que me traga uma flor, que me chame de "meu bem", que leia a minha alma e me faça sossegar... Só, só, só, excessivamente só...

Estou seca por dentro, isso me azucrina... Eu quero tanto escrever um livro, tenho tudo em minha cabeça, mas nada vai para o papel... E todos buscam em mim a salvação...

Esqueçam tudo isso que eu escrevi. Uma mente em depressão e a força atroz da madrugada nos fazem cuspir coisas que jamais diríamos à luz do sol... Ah, está tão difícil... Só, só, só, excessivamente só... Eu sou a pessoa mais só que vocês conhecem... E a pior coisa de se viver sozinha é ter que conviver consigo própria... Eu não me agüento mais... Amanhã vou comprar um outro espelho pra ver se a resposta me vem diferente...

[Este texto foi escrito há algum tempo atrás...]


Hoje percebo o quanto era intenso o sentimento quando escrevi cada palavra, e gostaria de deixar registrado que dias depois conheci um Teatro Mágico que tem mudado o meu modo de ver a vida. Não, não é o Teatro Mágico do Hermann Hesse, mas tem a mesma magia, a mesma verdade em cada ato, que me fez ver uma pessoa rara em todos os espelhos com os quais me defronto... Com o Teatro Mágico aprendi a ser um pouco mais de mim mesma e hoje digo "Durma, medo meu" - e ele dorme sereno.


===================================================

Devendo agradecimento à Vanessa do Essência no Ar por um novo selo que ganhei no dia 24... Muito obrigada, querida. Se "pudesse" te repassava, é a sua cara.

Vou repassá-lo ao Rômulo do Silêncio Coletivo.
Dessa vez, só.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O forte paga um preço por sua força.

Certas datas realçam sentimentos pré-existentes. Tem gente que fica melancólica no Natal. Eu fico em aniversários. Não é triste exatamente. Eu fico feliz com os cumprimentos, principalmente quando são além do esperado ou de alguém não esperado. Parece que minha melancolia vem de muito tempo atrás, lembranças que a cada 24 de julho vêm à tona. Até que chega a noite, o dia passa, e me vejo aqui. Sentada nesse computador como sempre, em casa largada o dia todo, vivendo a minha vidinha. Pensando demais, ou minhocando demais, ou fantasiando demais...

No meu aniversário de 10 anos, exatamente no dia 24 de julho, eu perdi meu avô, e pra mim foi um choque muito grande, uma quase depressão, um ataque de nervos aos 10 anos, e há quem pense que é estranho ou exagero, mas pra mim ele não era só 'o pai do meu pai' como tantos avôs são pra os seus netos, ele era o meu avô, o meu! Tão significante quanto meu próprio pai.

Logo após a morte dele, eu escrevi um texto chamado "eu sou forte". Ainda me lembro de alguns trechos, e um deles eu nunca esqueço, dizia: "Sou forte. E serei forte para ficar de pé quando todos a minha volta desabarem". Durante anos aquelas palavras me guiaram, me mantiveram em pé quando vinha a vontade de cair, a cada 24 de julho, ano após ano.

E 'hoje' é ele que me faz aguentar a barra enquanto olho ao lado e vejo pessoas que sempre julguei mais fortes que eu, caidas. Eu estou de pé, porque sempre fui forte nos momentos mais difíceis da minha vida, quando perdi amizades, quando errei, quando erraram comigo. Mas essa couraça não me faz indestrutível, minha força não me deixa imune a tristeza; E muitas vezes quem me julgava mais forte foi quem me feriu no ponto mais fundo da minha alma, no meu ponto fraco, literalmente.

(É horrível quando as pessoas pensam que força é a mesma coisa que imunidade às coisas tristes. Sou forte, mas sou facilmente atingida. Mas finjo que não.)

Muitas vezes senti na carne a dor sem direito a protesto, muitas vezes transformei a minha tristeza em raiva, porque para o forte é bem mais fácil administrar a raiva. Ela é um sentimento amigo do forte, bem mais fácil de lhe dar do que a mágoa.

Eu pago o preço pela minha força quando me sinto triste. Eu pago um preço por não querer dizer "sou frágil, me proteje", por ser um tigre e não um bicho ferido na chuva, eu pago esse preço doloroso sem me lamentar das minhas escolhas, mesmo quando elas mostram ser um total engano. Jamais direi que fiquei num beco sem saída, que agi como impulso pela vontade dos outros, o que faço é pela minha vontade e nunca vou culpar ninguém por nenhuma atitude minha.

(O bom é quando se tem duas ou três pessoas com as quais você pode ser aquele bicho ferido na chuva e não o tigre que atravessa as correntezas.)

O covarde não consegue olhar nos olhos de um forte, e aquele que não encara o forte nos olhos é o que tem a capacidade de feri-lo pelas costas.

E esse texto todo não é um lamento, não é pra causar pena. É só um desabafo, porque eu estive muito triste tempos atrás, mas novamente estou sobre meus pés, e, sinceramente, me sinto hoje mais forte que antes.

Covardia fere, mas não mata. E aquilo que não me mata, me faz mais forte.


All in this life pass, but you are forever.

domingo, 20 de julho de 2008

Quanto tempo o tempo tem?

"Hoje o tempo voa, amor, escorre pelas mãos mesmo sem se sentir..."

(Por muito tempo até que eu deslizei, não deu pra segurar, mas eu tentei, devagar eu tentei...) Hoje não me importo mais (tanto) ao que pertenço, o que nós participamos ou não eu vou ignorar, e eu não vou perder meu tempo me adaptando porque eu não acho que ser diferente é pecado, sempre gostei mais das exceções do que da própria razão ou das tais regras que as pessoas insistem em seguir. O que eles dizem é: “volte para onde você veio”. Eles lhe dirão isso, mas eu não quero ouvir.

Felicidade é conceito pesado, necessidade que me esmaga, ai de mim se sofrer, coisa de louco, o certo é ser feliz o tempo todo, lágrimas mesmo de felicidade são mal vistas.

Entretanto, enquanto o tempo passa, mas finge não acabar, inventam-se fantasmas de pessoas que ainda não morreram. A visão duplica os afetos e as percepções. Umas sentem aquilo que não existe para sentir, outras sentem as marcas cravadas na pele do que não tem imaginação para existir.

O tempo é um abismo interminável mesmo, e a gente às vezes se esvaece, tal e qual névoa, no meio da queda, e outros que caem depois da gente não percebem nossos rastros.

Muitas vezes, não há nada que você possa fazer, mas você pode aprender como ser com o tempo.


"...Não há tempo que volte, amor, vamos viver tudo o que há pra viver, vamos nos permitir..."

=============================================
  • Primeiro Selo.
Então,
Ontem ganhei meu primeiro selo nesses menos de 2 meses de blog.
Agradeço ao Rômulo do Silêncio Coletivo por ele.
Obrigada também pelo comentário que fez ao Labirinto, e ah, nem preciso dizer o quanto que aprendo com seus textos e o quanto que eles me fascinam e me prendem, fazendo minha pupila dilatar. Haha.
Como, igualmente ao Rômulo, tenho meu lado (mais forte), que evita tantas regras, vou ser breve.

Irei repassar para dois outros blogs, que conheci a pouquíssimo tempo, mas que são daqueles tipos de texto que deixam meus olhos vidrados do início ao fim.

O selo vai pra Vanessa e seu “coração piegas” do Essência no ar.
E pra Maíra e toda a sua simpatia do Maíra em palavras.

E a vocês, que receberam, também façam como preferirem. Postem, ou não; agradeçam, ou não. Afinal, ainda existe o livre arbítrio, mesmo que um tanto escasso. Haha.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

O meu problema, meu bem, é a saudade.


Eu sinto saudade. E às vezes eu acho que sou só isso...

No fim da tarde de hoje, um desejo me invadiu de forma latente. Saudade de doer. Saudade do mar, daquele mar único. Aquele que sempre foi meu, que sempre me acalentou, que sempre desfez meus nós. O mar da praia de Ponta Negra e toda a sua sublimação. Há muita poesia a nascer do mar azul, da graciosidade das ondas, das areias brancas, dos coqueiros, um paraíso previsto.

No fim da tarde de hoje, um desejo me invadiu de forma singular. Ausência de mim mesma, do que eu era quando éramos - primeira pessoal do plural. De quando a vida chegou a ser um acontecimento feliz. De como eu era sujeito de meus próprios verbos, protagonista da mais bela história de afeto jamais antes escrita.

As lágrimas estancaram. "O tempo passou", brado a mim mesma, "como ousas olhar pra trás?". O espelho me diz o que devo fazer com você: empalhar e pôr na galeria das boas lembranças, junto com todos os outros. Ele só não consegue me dizer o que devo fazer comigo quando sinto saudades de quem eu era quando vivíamos a mesma fábula.

Eu e meu semblante risonho, eu e minhas palavras otimistas, eu e minha docilidade exposta, eu e aquela, A feliz. Eu, que esquecia de ficar triste, que alegava ser plena.

Eu tenho saudades de mim e do passado que já não me cabe mais.

...A saudade é só...

terça-feira, 15 de julho de 2008

"Alô, liberdade, desculpa eu vir assim sem avisar."

"Ah, se já perdemos a noção da hora, se juntos
já jogamos tudo fora, me conta agora como hei de partir..."

Ah, Francisco, porque não me gerastes junto com todas as outras? Seria tão, tão, tão mais leve existir somente numa canção. Ser, ser, ser uma moça de louça, de éter, divina a dançar no sétimo céu. Não, não, não sei andar sem os pés no chão. Por favor, Francisco, me diga por que não nasci com o talento de ir embora da Rita? Me ensine a sair de cena destroçando tudo, calando todos os violões e levando comigo tudo que possa significar vida.

Por que tu não me inventas agora? Ainda há tempo, salve-me! Feche os olhos e busque-me numa madrugada morta ou em meio ao buzinar dos carros engarrafados. Anote meus traços num caderninho. Ou então, se preferires, posso debruçar-me numa janela e, com meus olhos tristes, guardar a dor de todo esse mundo. Já sei, já sei, essa é a Carolina e eu sou apenas real.

Mas, olhe, Francisco, eu não estou pedindo muito, quero apenas ser uma das tuas, ter meu nome entre acordes e tons. Sei que minha sorte será outra e que a sina de tuas mulheres nem sempre é bem estar. Vi o que fizestes com a outra, feita para apanhar e boa de cuspir. E, perdoe-me o atrevimento, mas que sina deste à pobre dama, hein, Francisco? Francamente! Não tivestes pena dela? Tenho até medo de ti! E Bárbara? Santo Deus! Porque não construístes um mundo onde o amor delas fosse possível? Que mania de perseguição com essas moças que só fazem padecer em tuas mãos.

Olha, quando a inspiração te alcançar e te inundar de mim, vê se não me joga entre os leões, viu, Francisco. Pensa numa sorte melhor do que lavar chão numa casa de chá. Faça-me heroína, torne-me efêmera e eterna num paradoxo musical. Eu quero ser somente tua imaginação numa melodia sublime e vagar para todo sempre em rodas de samba, em cantigas de ninar ou no canto sofrido de uma lavadeira.

"...Te dei meus olhos pra tomares conta, agora conta como hei de partir."

terça-feira, 8 de julho de 2008

Cabeça elétrica, coração acústico.

"Guarde um sonho bom pra mim..."

Desculpa estar aqui sentado na sua cama e estar sussurrando essas coisas no seu ouvido.
Como se sente de olhos abertos? Será mesmo que você está acordado? Ora, tente mexer o seu braço ou simplesmente virar o seu rosto. É impossível, não é? Mas fique calmo, nada aconteceu com você, o seu corpo só está descansando, agora você só pode me ouvir e piscar os olhos.
A vida tem lhe pregado peças e isso é pra que você aprenda. Não xingue tanto Deus por não ter tudo o que quer na vida, agradeça à ele pelo simples fato de estar vivo e movimentar os braços. Um carro poderia cair em cima de você agora... Ou melhor, observe o teto, imagine o concreto rachando, você vendo tudo, querendo gritar, correr e a única coisa que você pode fazer é observar. Seria torturante, não? Pense, você teria poucos segundos pra reagir sem poder reagir... Seus gritos seriam internos, nada brotaria do seu corpo a não ser as lágrimas que escorreriam dos seus olhos... Você só pensaria em uma coisa: pedir ajuda a quem um dia tanto xingou.
Existem fatos nas nossas vidas que são inevitáveis, reclamar das atitudes alheias é fraquejar e não observar o tanto que poderia ser feito se não fossem tantas críticas.
Acredite nas palavras de seus amigos, talvez eles pudessem levantar o seu braço por você.
A vida nunca tomará um ponto final, o máximo que ela ganha é uma vírgula... E essa vírgula você só irá conhecer quando sentir o amor frio que o seio da terra guarda.
Jogue suas facas no peito de quem bem entender, mas antes de qualquer coisa, finque três facas no seu peito a cada vez que lembrar que cometeu o mesmo erro da pessoa que virá a receber suas facadas.

- Agora vamos!
Anda! Não olha pra trás, não. Não diga mais nada.
Só sinta o cano frio na sua nuca, e veja sua vida passando diante dos seus olhos.
Sinta o amor num único flash.
Me mostre os sonhos não realizados.
Se arrependa do que fez, e não fez.
Já mandei andar, porra!
O penhasco é logo ali, e meu dedo está dormente.
Veja o pôr-do-sol... Quantas vezes você o ignorou?
Quantos beijos nos seus amigos você deixou de dar?
Cuidado! Não quero que você se machuque, pelo menos não ainda, não antes da hora.
Pode parar aí mesmo, e olhe para o mar lá embaixo.
E sinta o cano da minha arma.
Ninguém sobreviveria a uma queda dessas, certo?
E ninguém sobreviveria a um tiro na nuca, não é?
Um motivo.
Só um motivo pra eu não te matar.
Sem choro, nem baba, nem mijar na calça vai me comover.
E você só tem uma chance, amigo. Quem sou eu?
Pergunte pra sua consciência.

É complicado... Eu volto outras vezes que precisar... Desculpe ter rachado teu teto. Quando ele cair sobre o seu corpo já vai poder movimentar os braços, não terá tempo pra correr! A dor será intensa e lenta, torturante... Quem reclama demais da vida conhece suas vírgulas muito mais cedo. Eu espero que goste de curtir o doloroso amor do seio da terra... Enquanto podia mexer os seus braços, você só desdenhou da vida. Desculpe por amassar o lençol.

Às vezes, lavando as mãos sujamos a consciência.

sábado, 28 de junho de 2008

Você é pessoa que nem eu, que sente amor, mas não sabe muito bem como vai dizer.

As palavras? Não estão. Aqui apenas aromas, odores e carícias...


Eu, não sei quem. Só sei que fui lá e tentei!
Tentei duas vezes e desisti... Mas repeti o erro mais de mil vezes e não me cansei do que acredito...
Virei madrugada, dei minha cara a bolacha, nadei contra a corrente, me levei pela ressaca, quebrei minha cara e ainda morri na praia! Só pra brincar de ser contente, pra acreditar que vale a pena ser gente, e de alguma forma é bom ser o que se é, pra conseguir o que se pode ter, e ter algumas coisas que não se consegue fazer, pra enfim sonhar sem fim, sem fim algum.
Sou eu quem encontra amigos em qualquer tempestade, amigo dos amigos de verdade...
Já busquei ouro em pó entre grãos de areia, tirei leite de pedra, briguei com a lua, fiquei sentada no meio da rua, não, e eu não tava chapada, tava certa, de olhos bem abertos, guardei uma flor no caderno, fiz até dança da chuva.
Me dei de engraçada, fiz rir...
Pintei minha cara de pata e fiz papel de palhaça, mas no meu circo, eu era o mágico que fazia o dia amanhecer no escuro e o sol se pôr do meu lado... E no picadeiro eu fui vaiada, e das graças da minha desgraça, eu mesma ria da cara do desgraçado.
Fui eu quem voltou no tempo, recolheu algum passado, pretérito imperfeito, e o tornou um futuro desajustado, perdida no tempo, fora da linha, sem seu espaço. Mas nada custou buscá-lo, consegui o que nunca tinha achado, vivi o que havia deixado, percebi antes de ter partido que recuperei o tempo perdido, fiz mais do que aquilo que nem tinha vivido, eu dei o beijo que não tinha dado, roubei o cheiro que nunca me saiu das lembranças, disse palavras que havia evitado.
Tudo pra tentar ser feliz, e fiquei do seu lado, mais ou menos amada...
Eu era o mágico que fazia o sol parar e ir pro lado contrário!
Achei ouro em qualquer pôr do sol dourado, bebi leite de pedra até ficar queimada, sim, dessa vez meus olhos estavam caídos, meu olhar tava ligado, disse sinceridade a quem estava do meu lado, tentei enxergar olhos na lua, meus amigos brindavam uma brincadeira na rua, escrevi um livro no caderno, quase morro afogada, quando deitada tomava banho de chuva.
Esta sou eu... Que busca a beleza pura, que se perde no verde, e se esconde no quarto. Uma menina novata...
Esta sou eu... Que sem saber se é impossível vai lá e faz.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Tudo muda, o tempo todo, no mundo.

Os tempos que passam deixam espaços vazios apenas preenchidos por um bocado de areia nos sapatos e um sorriso no olhar.

- Yah, o negócio é dar tempo ao tempo...
- Mas sabe que a parte boa é que com isso eu comecei a dar mais valor pros meus amigos, (aqueles que quando você precisa estão lá sempre)?
- Eu sou amiga do tempo...
- Puxa vida! É mesmo? Me apresenta? Além dessa história 'de dar tempo ao tempo', estou precisando de tempo pra mim, pra eu fazer as minhas coisas...
- Um minuto, tel.
- ...
- Ele falou que passa aí amanhã às quatro da manhã.
- Ele quem? Msg errada?!
- O tempo!

...

- Alô? Van, o tempo passou, mas eu estava dormindo. E agora?

Deixei o tempo em casa, dividido entre a segunda e a terceira gaveta do lado esquerdo da secretária. Não me apeteceu trazê-lo desta vez. Tinha pouco espaço nos bolsos.

É assim. Tudo acontece tão depressa que, por vezes, deitamos fora bocados de tempo sem sequer o termos usado. Por educação, por receio do tempo conseqüente ou ainda por tempos passados. As horas tornaram-se mastigáveis, mas difíceis de engolir. E só quando nos atrasamos um pouco no corropio diário do dia, e ficamos para trás parados num banco qualquer, é que nos apercebemos da estupidez que é tudo isto.
O mundo permanece uma fantástica aldeia onde as pessoas insistem em fingir que não se conhecem. Talvez por se esquecerem, à noite, do que se passou durante o dia, ou de dia, que a noite passou por elas. Não temos porção mágica nem somos, de fato, irredutíveis, mas acho que tão cedo não vamos desaparecer.
Mas ainda há esperança: Uns quantos seres respirantes, de vez em quando, sorriem e, imagine-se, dizem bom dia.
Quem me dera poder trocar de valores como quem masca uma pastilha...

Para quê ser um Jekyll, quando se pode ser um Mr. Hyde?

* Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O Médico e o Monstro). - Filme estadunidense.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Foi como tentar andar de olhos vendados.

Tenho às vezes a impressão de que ele é apenas um fantoche guiado por mão secreta e invisível...

Ele não percebia que a mesma alma não pode abrigar duas paixões tão diferentes: elas não podem habitar ao mesmo tempo aquela bela casa. O amor é alimentado pela imaginação, através da qual nos tornamos mais sábios do que sabemos, melhores do que nos sentimos, mais nobres do que somos, capazes de ver a vida como um todo; através da qual, e só através dela, chegamos a entender os outros tanto em sua relação real quanto ideal. Só o que é superior pode alimentar o amor, mas qualquer coisa alimentará o ódio.
O ódio cega. O amor é capaz de ler o que está escrito na mais remota estrela, mas o ódio o deixara tão cego que já não conseguia ver nada além do estreito, fechado e estiolado jardim dos seus desejos mais vulgares.
Sutil, silenciosa e secretamente esse ódio ia aos poucos roendo a sua essência, tal como o líquen vai corroendo a raiz da árvore, até que ele não conseguia distinguir nada além dos mais mesquinhos interesses e dos objetivos mais medíocres.
O ódio envenenou e paralisou aqueles dons em que possuía e que o amor teria nutrido.
Estava perdendo a ela, a grande paixão da sua vida: o amor diante do qual todos os outros amores eram como a água barrenta diante do vinho tinto ou como o vaga-lume do pântano diante do espelho mágico da lua.
Mas, cego de ódio, não conseguia ver nada.
O ódio é a eterna negação, sob o aspecto emocional ele é visto como uma forma de atrofia que destrói tudo, menos a si próprio.
Então ele sentia a mesma compaixão e as mesmas emoções que qualquer espectador sente ao assistir numa peça a algo comovente. Mas não lhe ocorreu que pudesse ser o autor daquela medonha tragédia.
E ele perdeu, eis tudo.
Ela percebeu que ele não tinha entendido o que havia feito, mas não teve a menor vontade de ser a primeira a dizer-lhe aquilo que o seu próprio coração já deveria lhe ter dito, o que na verdade já lhe teria dito se ele não tivesse permitido que o ódio o tornasse tão duro e insensível.

É preciso que entendamos as coisas por nós mesmos, é inútil explicar a alguém aquilo que ele não sente e não é capaz de entender.
Tudo aquilo que somos capazes de entender está certo.

...Mas os próprios fantoches têm sentimentos: eles podem introduzir novos elementos nas histórias que apresentam e mudar o desfecho para satisfazer seus próprios caprichos ou vontades.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Fique mais, que eu gostei de ter você.

"Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre, só uma parte de mim compreende que a voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas..."

Difícil escrever sobre ela... A famosa Soledade, dona dos olhos castanhos e do sorriso mais bonito desse mundo... Desculpe-me, mas está pra nascer mulher igual nesse século... Porque Soledade é Mulher com Eme Maiúsculo... Eme de Mãe... Eme de Maravilha... Eme de Mágica... (e bota mágica nisso!).
Uma super-heroína?
Não, nem tanto...
Soledade gosta do que é imoral, ilegal ou engorda (embora seja a pessoa mais correta que eu conheça)...
Na verdade, ela é mulher no ponto certo... Pronta para encantar... Pronta para acalmar...
Está sempre com os braços abertos, o café na mesa, a alegria na cara...
Embora quase-perfeita, ela tem aquela simplicidade que nega: "Que bobagem, eu não sou nada disso"... E eu escuto ela falar e fico quieta, pensando: Ah, se Vinícius de Moraes te conhecesse, vó! Se ele lesse a poesia que eu vejo em seus olhos... Ah "se todos fossem no mundo iguais a você"...
Soledade é isso aí.
Ela é música... Arte... Colo... Abraço apertado... Com suas caras, bocas e trejeitos, ela é referência... Ponto de apoio... Equilíbrio e panos-quentes...
A verdade é que ninguém sabe ser como Soledade é...
Inteira... Completa... Dona de múltiplos talentos e carinhos fabricados por ela mesma...
Precisa de inspiração? Olhe um segundo para ela... Mas antes, prepare-se! Soledade vicia e só faz bem... Depois de conhecê-la, você vai sempre se lembrar: Está aí uma mulher que sabe das coisas... E ela sabe! Sabe para sentir, mesmo antes de pensar...
Tem o sexto sentido aguçado... Descobre minhas vontades, decifra meus humores, faz o impossível para me ver feliz...
Devo um tanto da minha melhor parte a ela, que me ensinou a viver de um jeito apaixonado e cheio de virtudes...
Ela me mostrou que existem – sim! - alminhas bonitas no mundo que valem nossas dores, cores e (tantos) 'amores'... Com ela aprendi a andar com minhas próprias pernas, aprendi a acreditar, aprendi a amar e a receber, aprendi a afirmar: Amanhã será bem melhor, saravá!!
Soledade é assim: Poesia que não pára... Tons... Pausas... Letras... Força... E uma leve tristeza disfarçada...
Soledade é minha melhor frase... Meu melhor verso... Minha canção perfeita... Minha lua... Minha mais divina luz... Minha inspiração... Refrão e desabafo...
Passo dias pensando: O que fazer para deixá-la um tanto mais feliz? Foi aí que descobri... Sendo feliz, primeiramente... Acho lindo e simples isso... Ao contrário do que possa parecer, não é egoísmo... O amor se recicla e nunca é desperdiçado... A gente vê o outro feliz e - instantaneamente - fica feliz também... Já sentiu? É perfeito! Por isso, devo confessar: O que me faz acordar todos os dias com um sorriso estampado na cara é saber que posso entrar por aquela porta e fazê-la sorrir, talvez pela última vez... (e - porque não? - ás vezes, também, chorar)... Cada conquista, cada emoção, é um presente meu para ela... Um agradecimento (lá do fundo do coração) pela sorte de ter um dos maiores presentes já ganhos: a presença dela em minha vida!
Por ela, eu desafio a mim mesma... Por ela, eu me atrevo a ser melhor... Por ela, eu ouso acreditar que músicas serão gravadas, livros sairão do papel e gatos subirão - satisfeitos - em telhados de casa de vidro...
Por ela, eu sou...
E sei que pouca coisa importa tanto, quanto as miudezas de uma vida com ela... A risada infinita... O abraço grudado... Aquele brilho no olhar que é um pouco do céu...
Quando chego à casa de Dona Soledade, ela responde lá de dentro com a voz mais doce do mundo: "Oi, minha flor"... Nessas horas, eu fecho os olhos e agradeço (porque ela também me ensinou a agradecer pela vida): Obrigada pela melhor avó do mundo ser a minha!
(Sorte nossa que entendemos o encanto de amar e se doar como ponto alto da vida... Obrigada por me ensinar a ser... Obrigada por vibrar comigo... Obrigada por me fazer seguir em frente... Obrigada por me ensinar a dar valor a todas as pequenas coisas da vida... Elas fazem realmente a diferença... Uma música... Um sorriso... Um verso... Uma taça de vinho... Ou o seu olhar...)

A dor vem quando você passa a sentir que está perto de perder alguém assim, tão importante na sua vida.

"...Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas."

terça-feira, 10 de junho de 2008

A noite gira e todo mundo dança o que puder.

Que a noite seja sempre menor que o meu sono,
E este quarto não seja muito pequeno, por favor.
Adormece-me logo, pois o medo já sabe que é tarde.
Cala esse barulho, cala esse barulho que não cessa.
Cala essa voz que não cala e, na calada da noite,
Aperta-me o peito.

Que o céu seja sempre pequeno visto daqui pela janela,
Que o céu seja muito pequeno, que o céu não seja muito grande, Por favor.
Não ofereça um céu imenso aos meus olhos sonolentos.
Não cutuque meu sono, não afugente meu sono com ninharias sobre estrelas.

Que seja sempre rápido o fechar dos olhos
E curto o tempo entre deitar e adormecer,
Qualquer passa-tempo me ofereça,
Qualquer distração ou coisa boba,
Que nada tenha a ver com palavras belas,
Qualquer coisa que não me faça falar sobre as estrelas.

Que os meus sonhos sejam simples,
Um campo, uma nuvem, um lago,
Não me faça sonhar com pessoas,
Não quero lembrar meus sonhos bons, não quero.
O melancólico despertar, a incerteza do acontecido,
O gosto na boca, leve tudo para longe de mim.

Quero o escuro. Não quero a fresta da porta,
O passo desconhecido, Ninguém mais eu quero.
Quero dormir sozinha com ninguém no pensamento.
Não me cortarei no escuro, não pedirei ajuda,
Não esperarei alguém.

Basta o dia e seus desencontros,
Basta o dia e suas frustrações,
Basta meu dia ser dos outros, basta, por favor.
A noite é minha.
A noite escura,
A noite silenciosa,
A noite só.

É só minha a noite.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Quando o nada se apropria, qualquer coisa vira borda de piscina.

Para de ir ô! Para de ir para onde não se sabe ir. Para de achar que indo tudo ficará bem. Enquanto não parar um pouco, não se encontrará jamais. Não é indo que se vai. É sentindo. Neste exato momento, se olhar para um espelho não encontrará respostas. Vazio. Sensação de desconforto. Não é indo que se vai.
"Haverá paraíso sem morrer?". Não. É preciso morrer. Em doses miúdas, é bem verdade, mas sempre será preciso morrer para encontrar o paraíso. Como o paraíso é inconstante! Como a vida é inconstante! Como estou descalça e suja nesse dia incolor.
Sempre achei que encontrar traria a felicidade. E quando encontrar é perder? O que se faz? Onde fica o chão? Parem, por favor, parem todas as máquinas, parem o tempo, parem o ciclo, parem a nave!!! Preciso do chão. Pisar. Preciso.
Agora, quero a quietude sem rastros. Deixar rastros de inquietude por aí não me satisfaz mais. Não quero caminhar de qualquer maneira. Quero encontrar a maneira de hoje. A de amanhã, é a de amanhã. Deixa ela quieta. Mas, quando não acho a de hoje, o que faço?
A única coisa que sinto é vontade de gritar, de espantar toda essa incoerência, essa corrida vendada.
Verdade. Lentamente, descubro que preciso de um tempo para mim. Descubro que essa pessoa que se olha no espelho não existe. Está morta. Existe um serzinho brilhante querendo dizer: cheguei, estou aqui, abre a porta. Abrir a porta é quebrar o espelho da consciência. Pelos cantos da casa sem teto, sinto medo.
Quero um copo. Um copo de vidro vermelho. Quero quebrar o copo. Vestir uma saia cor de abóbora e sair por aí, sem rumo. Quero não ter que falar nada para ninguém. Quero ficar só. Sair daqui agora, achar um esconderijo limpo e cor de anis para me esconder um pouco. Bem pouco.
O fogo passa por minhas mãos e passa. Cadê ele? O efeito se perdeu. Não me desconectei. É preciso respirar. Respirar. Preciso encontrar o ar. Não tenho mais ar. Raso e rarefeito momento de medo e reflexão. Isolamento intenso. Pedaço de momentos. Dispersão.
Amor. Amor que chega rasgando. Felicidade que machuca levemente.
Ei, alguém para me dar um susto! Estou com soluço.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Uma Sinfonia.


Assim prosseguia ela, vacilante e o coração opresso, entre o céu e a terra com as suas forças sempre ativas, e nada mais via senão um monstro que devorava eternamente todas as coisas, fazendo-as depois reaparecer, para de novo devorá-las.
E tentavam convencer que é mesmo assim, que a dor se cura em dor que a dor produz, assim como da luz se faz a luz. Que todo meio sempre vem do fim.
Com o tempo se acostumariam à idéia de viver sem a presença dela e, sem dúvida, se sentiriam aliviados. Não passariam mais pelo constrangimento de ter que justificar seus modos selvagens, sua costumeira clausura, seu silêncio telepático e aquela velha mania de transformar a vida em teorema. Veria os anos caminharem lentos no compasso de cada dia de sol, eclipse e tempestade. E cravaria a sorte no tronco espesso que sustentaria seu mundo. Fabricaria histórias frondosas das pessoas que habitavam as cavernas de seu coração. Plantaria as sementes na certeza de que alguém, algum dia, colheria seus frutos. Aos domingos tomaria chá ouvindo um radinho de pilha, carregando no olhar a certeza de ter feito as coisas do seu jeito. E já não seria mais necessário contemporizar seus modos bravios, sua reclusão habitual e aquela velha mania de transformar a morte em teorema.