terça-feira, 29 de julho de 2008

Durma, medo meu.


"...Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável..."


São quase quatro da manhã e me bateu um vazio enorme. Talvez eu seja a pessoa mais só do mundo neste momento. Gostaria de sair andando pelas ruas agora e cruzar com alguém que me entregasse o tratado do Lobo da Estepe e um ingresso pro Teatro Mágico só para os raros, mas quando caminho só vejo mendigos e o comércio ambulante... A realidade é dura demais... Preciso aquietar meu coração e entoar uma canção de amor tendo para quem dedicá-la. O frio só colabora pra seca do meu coração... Só, só, só, excessivamente só...

É, está tudo seco aqui dentro do meu corpo, só tem medo, muito medo... O estrago do passado foi fundo, e criei um campo de força ao meu redor... Estou cansada das relações café-com-adoçante que invento pra mim mesma... Me desculpem o desabafo tão rude e sem prefácio mas é que o silêncio do meu quarto me faz ouvir minhas vozes internas gritando, e eu estou cansada delas, me estilhaço inteira ao ouvi-las... O espelho me diz NÃO NÃO NÃO o tempo todo, e os homens só se preocupam em ter uma bela mulher ao lado, um enfeite, e eu não sei ser enfeite...

No livro da Fernanda Young, a personagem fala que os que morrem e têm família vão para um porta-retrato, são admirados e lembrados por séculos a fio... Os que são sozinhos somem como se nunca tivessem existido até que alguém aluga a casa onde um dia viveram e encontram uma caixinha de madeira num canto com algumas fotos e manuscritos, que jogam fora sem saber pra quem entregar a lembrança do finado...

Estou ficando louca... Tive uma noite tão incrível ontem, uma banda cantando ali na minha frente, todo um leque de sentimentos, estava tudo perfeito, eu fui tão feliz, tão feliz... Dancei, conversei, sorri... Eu estava tão leve, tão plena... E hoje estou assim, tão ácida... Eu acho que é ressaca de felicidade... Eu não posso viver momentos assim de tanta euforia que logo depois me dá uma tristeza funda e sem razão, e não posso falar isso pra ninguém porque as pessoas não alcançam o meu nível de demência...

Estou perdida, não sei o que fazer comigo... Preciso de alguém que me proteja, que me traga uma flor, que me chame de "meu bem", que leia a minha alma e me faça sossegar... Só, só, só, excessivamente só...

Estou seca por dentro, isso me azucrina... Eu quero tanto escrever um livro, tenho tudo em minha cabeça, mas nada vai para o papel... E todos buscam em mim a salvação...

Esqueçam tudo isso que eu escrevi. Uma mente em depressão e a força atroz da madrugada nos fazem cuspir coisas que jamais diríamos à luz do sol... Ah, está tão difícil... Só, só, só, excessivamente só... Eu sou a pessoa mais só que vocês conhecem... E a pior coisa de se viver sozinha é ter que conviver consigo própria... Eu não me agüento mais... Amanhã vou comprar um outro espelho pra ver se a resposta me vem diferente...

[Este texto foi escrito há algum tempo atrás...]


Hoje percebo o quanto era intenso o sentimento quando escrevi cada palavra, e gostaria de deixar registrado que dias depois conheci um Teatro Mágico que tem mudado o meu modo de ver a vida. Não, não é o Teatro Mágico do Hermann Hesse, mas tem a mesma magia, a mesma verdade em cada ato, que me fez ver uma pessoa rara em todos os espelhos com os quais me defronto... Com o Teatro Mágico aprendi a ser um pouco mais de mim mesma e hoje digo "Durma, medo meu" - e ele dorme sereno.


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Devendo agradecimento à Vanessa do Essência no Ar por um novo selo que ganhei no dia 24... Muito obrigada, querida. Se "pudesse" te repassava, é a sua cara.

Vou repassá-lo ao Rômulo do Silêncio Coletivo.
Dessa vez, só.

11 comentários:

Vanessa disse...

só, só...excessivamente só.
Clarice um dia escreveu:
"O que fazer com a verdade que tomo mundo é um pouco só e triste?".
E parece que é assim mesmo, YASHA.
Exatamente assim.
Nessas horas parecem que os medos, as inseguranças chegam de uma vez só na sua porta. Mas passa, na manhã seguinte ou na semana seguinte, a gente esquece o "só, só, excessivamnte só"...

ah, e o selo foi merecidíssimooooooooooo
=]
beijos, queridaaaaa

Rômulo disse...

Sabe, também sinto esse vazio, com alguma constância. Não sei bem ainda como dialogar com todos os que vivem dentro de mim, mas tento manipulá-los de forma que cada um venha à tona no momento certo. É claro que quase nunca consigo fazer da forma ideal.
Sobre a memória, bem, as vezes lembrar de tudo não nos deixa viver, é importante esquecer e ser esquecido também. Leia o conto "Funes, O Memorioso" de Jorge Luis Borges, que está no livro "O Aleph". Acho que ele se expressa um tanto melhor do que eu ao falar de memória.
Não conheço esse Teatro Mágico, apesar de já ter lido a respeito. Música só é música se nos faz viajar.
O difícil vai ser acatar seu pedido e esquecer o que escreveu...

Bem, agora é a parte mais difícil: O selo. Pensei em dizer um simples "Muito Obrigado", mas achei que seria pouco demais, então decidi acrescentar que esse presente me deixa muito feliz, já que demonstra que alguém gosta de verdade do que escrevo, mas continuei achando que era pouco.
É o tipo de coisa que é difícil de colocar em palavras, a gratidão. Um bom abraço falaria bem melhor, mas só nos conhecemos pelas letras, então isso também não é possível.
Cheguei em um labirinto do qual não tenho saída, por isso, sinta-se abraçada!

Respostas nunca perguntadas disse...

gostei muito do blog, muito profundo, realmente na vida passamos por altos e baixos, e nossa atitude diante da vida é que nos impulsiona ou nos deixa estagnados sem sair do lugar!! é preciso lutar contra nós mesmos muitas vezes para poder avançar e crescer diante da vida que é as vezes tão contraditória!! bjs

Visite o meu blog:http://repostasnuncaperguntadas.blogspot.com/

vidapessimista disse...

Poxa, uma parte do seu desabafo me fez lembrar de um comentário que fiz em outro blog. "Fico pensando... Quando eu morrer como as pessoas se lembrarão de mim? - O que elas dirão ao meu respeito?" - Não o que eu me importe com que todo mundo pensa, mas por outro lado, claro que é importante a forma que as pessoas de quem eu gosto me vêem.


Versos de Cazuza pra você


Viver é bom

Nas curvas da estrada

Solidão, que nada

Viver é bom

Partida e chegada

Solidão, que nada

Reporter x disse...

nooosa lindo desabafo, seraue seremos lembrados, a´pos a morte? ou nos tornaremos esquecidos nas cinzas do tempo.

Sentimentos Escondidos. disse...

Sinto esse vazio sempre,já não sei o que fazer ou pensar , a única coisa que me mantém é saber que existem muitas pessoas que me amam e me querem bem..
O selo foi bem merecido,e fique bem.

Bjks.

Gustavo Hermes Soares disse...

A solidão não é tom ruim assim quando gostamos da nossa própria companhia!

aaai. deplorável esse meu comentário. parece livro de auto-ajuda.

mas a verdade é que a gente nunca ta sozinho. temos a gente mesmo.
pra sempre, só a gente mesmo.
pra sempre.

Mayna disse...

Algumas vezes também sinto esse vazio. Mas quem nunca sentiu, né?
Mas então eu paro e penso em tudo o que tenho, todos que me cercam e percebo que não tenho motivos para me sentir assim.

http://maynabuco.blogspot.com

Rodrigo disse...

isso me faz refletir

Danilo Moreira disse...

Aiai... vc me fez ficar com vontade de querer publicar alguns textos antigos, meio nessa linha. Só que sei lá, tenho receio...
No meu caso, nessa época, so tinha a companhia da lua e das minhas fitas cassete.

Eu sinceramente, nao tenho medo de FICAR só, mas tenho pavor de ESTAR só.

Apesar de hj em dia me dar muito bem comigo mesmo sozinho. Ha certos momentos que nao tem como, eu adoro ficar só comigo.

Abçs!!!

Agora, convido você a discutir sobre esse assunto:

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Ô Aperto!!!

http://emlinhas.blogspot.com/

EM LINHAS...
Quando as palavras se tornam o nosso mais precioso divã.
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Alê disse...

Você falou perfeitamente a verdade. Adoro nos seus textos, principalmente a sinceridade que você transmite. Excelente BLOG !

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www.muitosobrealgo.blogspot.com
Atualizamos a pouco tempo.