terça-feira, 26 de agosto de 2008

Da cor da sua paz.

A luz do seu quarto está acesa, a janela está aberta desde o começo da tarde. Por mais que eu saiba que não é você que está lá, eu olho de cinco em cinco minutos, numa esperança tola, quase infantil de te ver novamente. Chorei outro dia, ao ver que a moça da novela morrera, era só uma novela, mas foi triste... Eu saí correndo da sala e me escondi no quarto pra chorar sozinha, e pra que ninguém me visse.

[Ele era apenas um ser sem face, alguém que desfazia meus nós todos os dias. O que zelava enquanto eu escrevia, o que me fazia remover os cacos e renascer em poesia e rima. Era ele, aquele sem rosto, tão incógnito e tão íntimo, tão avesso e tão direito. Ele, que se colocava exposto e dado a meu juízo e veredicto. Ele, sempre absolvido por minha mão generosa.]

Às vezes as coisas parecem com antes... Aliás, eu comecei o dia pensando em você, sonhei com você, aqueles nossos sonhos felizes que eu te contava, toda cheia de esperança, nos nossos eternos passeios. Eu me lembro de todos aqueles dias, e o jeito que você me olhava enquanto eu falava. Eu me lembro das infinitas horas de conversa boba, das manhãs, das brigas... E a gente falava da vida, e você dizia que eu era a sua vida... "Infinitas vezes o universo ao cubo, pra sempre que nunca acaba"...

[Ele, a meus olhos tão singular e, diante do espelho, tão oposto a tudo que eu via. Ele, plural, par, infinitamente trivial. Ele, que tinha insônias, que temia sumir num instante qualquer. Ele, de semblante inexpressivo, de escama alva, de olhar cerúleo, de existência efêmera. Ele, que não sabia rezar, que desmanchava seus muros de arrimo e se jogava de ponta-cabeça. Ele, tão covarde e sobrevivente, tão inculto e pseudo-intelectual.]

Sabe, eu sinto tanto a sua falta, e sinto tanto não ter dito quando podia, eu sinto tanto por ter me deixado levar, por não ter pensado direito, por não ter visto o quanto, apesar da mágoa, o que existia entre a gente era real, e ter parado enquanto ainda era tempo. E eu sinto muito pela escolha que eu fiz, e você sabia, desde sempre, que era errada. E eu sinto por ter tomado coragem pra dizer tarde demais. Eu sinto falta de escrever pra você, em todo lugar, e ver as respostas postadas em algum canto da internet. Eu sinto falta do frio na barriga que eu sentia quando a gente falava no telefone. Eu sinto falta do som da tua voz. Eu sinto falta do teu cheiro, dos teus abraços apertados, dos teus olhares doces, da certeza de que você estava sempre comigo. Eu sinto falta dos dias, das noites, dos sonhos, das cores. Eu sinto falta do que fomos e do que mais ninguém poderá ser.

[Meu anjo caído, personagem surreal do livro que ainda não escrevi. Protagonista com vida própria e tão dependente de mim. Ele, que implorava para que eu não parasse de lhe dar voz, ação, emoção em meus rascunhos e borrões. Ele, tantas vezes meu. Meu em inspiração, em luz divina, em acalento, me suplica, - mantenha-me vivo.]

7 comentários:

Rômulo disse...

Nunca é tarde para se arrepender; pelo menos é como dizem.
Eu amaria sem a menor dúvida, qualquer uma das personagens dos meus textos.
Gostei do primeiro parágrafo. Bem, na verdade eu gostei de tudo, mas me identifiquei mais com esse primeiro. Só trocaria a janela acesa por outra coisa, que a situação ficaria exatamente igual.

Du Santana disse...

De maneira alguma ficarei chateado com o titulo do blog num texto seu.

Tudo o que vc escreveu ai é muito intenso, e se não for ficção posso dizer que entendo vc.
É só o que consigo dizer.
----------------

"viver é ótimo!"

Vanessa disse...

Bateu aqui....tocuou aqui de forma intensa.
Já vivi algo parecido com isso e sei como é...
essa falta que nada, nem ninguém consegue conter.
beijos

Iaiá disse...

Ok...Era uma vez...Era? Mas por que não é mais? Se, pelo que lemos, você é a escritora, por que matar o mocinho? Inspiração não é feita de paixão, nenhum final é feliz. A vida é feita de meios.
Uma vez vi numa série uma personagem dizendo pra melhor amiga: "VOcê acha que sua vida é um filme, mas só você está assistindo.". Uma qualidde dos blogueiros é transformar suas histórias no que quiserem. No meu, eu transformo minhas tragédias em comédia e lições de moral.
As pessoas não vão chorar se seu personagem morrer, como a moça da novela. Só você vai chorar. Então, como eu disse, por quê matá-lo?
Bjo

Eurotica. disse...

acho que toda perda é significativa, mas existem umas em especial que é como se tivessem lhe dado uma rasteira e sua perna ficasse permanentemente quebrada. Você só consegue andar porque ainda lhe restou uma, mas ainda assim, anda se arrastando. Esse texto que você escreveu ficou muito intenso, meus parabéns. Espero continuar visitando seu blog e conferiando materais de qualidade:)


ps: obrigada pelo comentário lá no blog, ele foi atualizado hoje, espero que goste;)

Sammyra Santana disse...

essa falta que sempre vai fazer, esse oco que não pode ser preenchido por nada nem ninguém... sei o que é isso!
Beijo

Karina disse...

Belos textos!
Parabéns!
bj
www.chamkli.blogspot.com