terça-feira, 12 de agosto de 2008

"...Os olhos mentem dia e noite a dor da gente..."


Preciso arrumar os sapatos atrás da porta, varrer o pó dentro e fora do meu corpo, pintar as paredes de cor de abóbora, esconder o passado atrás do armário, chamar o eletricista, o encanador. Perceber o eco do meu sorriso, colocar o vinho no gelo, sentir meu próprio cheiro, medir os espaços vazios, descobrir o dom e trocar as lâmpadas. Preciso tirar a fé da gaveta, limpar as taças, ouvir a voz que sai de mim, ferver o leite antes de dormir e pendurar o sol acima da cama.

Estou em obras. Tudo em mim desmorona. Os pés já não sentem a terra firme. O estômago chora os sonhos embalados em sacos de lixo. Para cada martelada, um olhar ao chão. Para cada céu, um inferno à altura. E cada espelho reflete o monstro que lhe convém. Cada um com o seu, cada um na sua. Canta a furadeira enquanto falo do que dói em contestada sinfonia. Meus medos me procuram sete vezes ao dia. Quase sempre cedo. Quase sempre tardo. Meu ventre é uma caverna distante cheia de ecos do além. A terra firme já não sente mais os pés cansados. Para cada lágrima, uma pá de cal. Para cada escavação, uma escora no lugar. Tudo isso acontecendo aqui dentro e tanto silêncio lá fora. Estou em obras. Tudo em mim desmorona. Imagino as pessoas e seus infernos particulares. Cada um no seu, cada um na sua. Quase sempre sede, quase sempre tarde. Para cada um, um monstro. E para cada sonho, um saco de lixo que lhe convém.

9 comentários:

Gabriela! disse...

Uau, muito bom o texto. Adorei mesmo!
(:

bob.loco Ah ViDa Eh lOcA mAnO!!! disse...

lindo o texto
parabens

abraços

http://blogaragem.blogspot.com
http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=48465553

Alisson disse...

eu costumava ter um inferno, mas o paraiso exige muito mais força para se estar, tudo o que é dificil me atrai.

Mude sempre que puder e principalmente quando achar que não deves mudar.
Gostei do seu texto por esse motivo! ( a mudança)
E pq também preciso tirar minha fé da gaveta!
---------------www.dacordasuapaz.blogspot.com
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Rômulo disse...

...Uau...!

Pensei em deixar só o "uau", mas depois de me recompor resolvi escrever mais.
Dizem que arrumar a casa ajuda a nos arrumarmos por dentro também. Não sei se é verdade, mas acho que e por aí, estamos en constante (des)construção.
Gostei muito do texto, até porque de infernos particulares eu entendo bem.
Parabéns por tão belas palavras!

Markynhu disse...

A tecnica e o estilo sao impecaveis... naum ah nem oq dizer... Gostaria de comentar sem ser superficial, mas me parece impossivel... Bom... acho que a morte, naum eh essa coisa que d'a cabo a vida... naum eh um momento que da fim a tudo de maneira definitiva... Na minha opiniao, morremos ao fim cada clico da nossa vida... um namoro que acaba... uma nova cidade... uma nova rotina... Se a mudanca realmente acontence, se naum eh simples repeticao maqueada ou fingida: se ha realmente transformacao, ela eh necessariamente violenta, uma morte em vida, uma autopsia em um ser que ainda respira e anda por ai. Eh como comtemplar as proprias viceras...
foi essa a impressao que seu texto me transmitiu...

Gostei muito...

http://markynhugameover.spaces.live.com/

Conde Vlad Tepish disse...

Mas será que não seria preferível mesmo "reinar no Inferno à servir no Céu"???
Beijo do conde!

Vanessa disse...

"Estou em obra"

Cada um na sua, cada um realmnte tem seus infernos particulars.
Encerramos ciclos e limpamos o pó qu certas coisas nos deixa. é sempre preciso isso, é preciso se recompor, está.
E tudo, muitas vezes desmorona...
mas sim, nós podemos levantar, construir, e cada um na sua...

Ingrid Biann disse...

fiquei imaginando como comentar sem parecer clichê, não deu, o texto é de uma beleza e dor admiráveis.
daqueles que nos derrubam só de ler. ;)

Besteira a 4 disse...

concordo com esse texto, é a verdade.

juka