quinta-feira, 25 de setembro de 2008

"O mundo é um moinho", ele disse.

No moinho giram as pás e o vento vira pó, de grão em grão, por entre os dedos, tudo parece escapar...

Estes dias trouxeram de volta a dor, deixaram tudo confuso, cinza, para ela. O ambiente do hospital assusta. Percorro os corredores com o coração disparado. Ela sempre chora calada, mesmo sofrendo. Minha guerreira tem apenas 19 anos. Compreende que sua complicação vai minando crenças, derrubando certezas, deixando o que é confuso ainda mais confuso. O corpo frágil me abraça como que buscando respostas. E eu invento caminhos para tornar suas horas menos dolorosas. Choro longe dela, tento disfarçar meu embaraço diante de perguntas simples. Respiro fundo, estampo meu melhor sorriso e digo que ela pode tudo. Ela pode voar, mergulhar, descer de pára-quedas num terreno seguro, firme, se possível com uma bela paisagem de fundo. E como ela gosta de música, com uma trilha sonora de tirar o fôlego... Essa doença pode até ser um rio cheio. Mas vamos continuar tentando atravessar...

Seus sonhos voltaram para a UTI. Tudo o que ela ama desaparece. O tempo voa enquanto finge esquecer. Sua casa anda tão suja e bagunçada: roupas pelo chão, pilha de louça pra lavar, pia do banheiro entupida, teias de aranha pelas paredes e muito pó - por todo lugar. O tempo voa enquanto a mãe tenta lavar os pratos, varrer os pensamentos mórbidos, desentupir o coração e colocar o lixo pra fora. Seus sonhos estão na UTI e tudo o que ela ama desaparece. Tem dias em que acorda se sentindo tão vazia que gostaria mesmo de nunca ter nascido pro mundo.

E ela me liga todos os dias, aos prantos, me tirando as palavras e me deixando um aperto no peito.

Ah, como eu queria ter a força que penso ter, ou ter a tua força mesmo coberta de água e sal. Ah, como eu queria ter a tua força.

Ela contraria as previsões pessimistas e segue renascendo todas as manhãs. Por isso que eu, com todas as minhas subjetividades, medos invisíveis e tristezas indomáveis, ando maturando calada no lado de cá dessa árvore... E muitas vezes me pego sorrindo, mesmo chorando.

Deve ser uma fase. Mais uma. Procuro acreditar nisso. Mas por enquanto é em dor que se converte certas fontes que jamais haviam secado. Tudo que eu queria agora era uma palavra compreensiva, um abraço estendido, e um tempo. Apenas um tempo.


Estou aqui, flor. Estou aqui.

18 comentários:

Prolixo Lacônico disse...

Uma profunda viagem...

Luly disse...

Chegou a me dar uma dor profunda no peito.

http://rosas-inglesas.blogspot.com/

T h a t y! disse...

Ah, como eu queria ter a força que penso ter. Linda essa frase.
Legal menina.
Escreve muitooo;
legal aqui.
Gostei de verdade!

Evan The Scarlet Angel disse...

Me deu um grande vazio aqui...


http://evangelinescarletangel.blogspot.com/

PanPum² Flûor disse...

Parabéns, muito bom o texto!
pelo blog tambem ^^

Beijoes.

Blog Conspiracy disse...

Adorei o texto, você escreve mto bem!

Parabéns pelo blog.

Marcelo disse...

intenso, sentido, profundo.. você lida bem com as palavras.

Ah, e a referência do mundo como um moinho merecia uma intertextualidade com Cartola..

ederdbz disse...

otimo texto, é uma viagem tremendamente interessante para dentro da nossa alma... belissimo

Danilo Cruz disse...

bem profundo, adorei.

Maíra Charken disse...

Sumiu...

Conde Vlad Drakuléa disse...

Se o mundo é um moinho, nós todos somos eternos "Dom Quixotes" e Sanchos Panças"???
Adorei, beijos!

N_era disse...

E a gente pensando que tudo é facil, que enxer a cara e cair de bebado é divertido..Pode até ser, mas é vazio.
E eu nao queria nem saber o que é sofrer de verdade.

:*

Hugo Bessa disse...

texto lindooo demais.
doloroso, mas lindo.
abraço.

http://episodiosemserie.blogspot.com/

Rômulo disse...

Acho que quando escrevemos para alguém, o texto recebe uma carga de sentimento que é quase palpável. Comigo é assim, e com você também.
É aquela sua amiga, certo?
Bem, muitas melhoras para ela.
Beijos.

Daniel Medeiros disse...

Tá, hoje deixarei um comentário escroto: Adorei o texto (nem li) mas senti-me tocado por ele. Brinks..

Vanessa disse...

Forte o que escreveu.
Conseguir sentir aqui tudinho...
cada palavra.

Força. é tudo que se precisa.


Yashaaaaaaaaa, querida.
Tou com o rato do tempo roendo meus calcanhares.
Estou em final de curso, correria com monografia, trabalhos e trabalhos.
Correria com entrevistas de estágio.
Minha vida tá uma zona, por isso tenho postado menos, comentado e tals.
Mas tou esquecidade desse blog nãoooooooooo
nãooo estou mesmo
xD


beijaooooooooo

Tayná Guedes disse...

é...mecheu profundamente ocmigo esse.
vc escreve muito bem viu!
bjus!


http://taynalu.blogspot.com/

David disse...

Você e forti