sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Sinto a falta dele como se me faltasse um dente na frente: excruciante.

Querido,

A pessoa que abracei hoje não era a mesma que abracei da última vez. Dores como cinzéis esculpindo uma face nova no rosto antigo. O mesmo mar, numa zona mais funda e menos límpida, talvez habitada por seres menos familiares. Mergulhamos, nos entregamos ao humor volúvel das marés e escolhemos a água salgada, mesmo morrendo de sede. Mas há os momentos de sombra, e o sol que invadiu as frestas das árvores de surpresa, em raios retos e certeiros, veio como um suave e belo lembrete de que há luz. Ainda. E sabemos vê-la, por mais que em certos dias fechemos as cortinas, tranquemos a porta e desliguemos os telefones. Penso na tradição poética de sua linhagem, que transforma afeto em Souvenir. Houve aquele que virou uma colcha de renda. Penso no que o novo anjo se transformará. Talvez na calça jeans que ficou com a bainha por fazer. Talvez algo mais singelo, como uma bola de gude solitária, que não será jamais jogada. Acho belo isso de simbolizar e guardar as pessoas, incendiária que sou sempre queimando as pontes por onde passo. Se eu mesma fosse me guardar, teria baús de coisas que já não sou. Mas o sol, que já estava aí antes de nossas lágrimas e vai permanecer depois que elas secarem, vem e vai, enquanto gritamos contra certas impertinências erradas. Vale o grito? Seguro tua mão, enquanto me assombro com o quanto pode ser belo e rico o que é triste. Talvez seja essa a herança que aquele que você já não é tenha deixado para o homem que sentou hoje à minha frente. Não o consolo, mas a coragem, até mesmo de ser fraco.

O sol já foi, mas eu estou aqui. As nuvens passam.

Amor,
Yah.

12 comentários:

Luly disse...

Na primeira sentença, cheguei a sentir o cinzel rasgar minha face.

Profundo. Lindo.

http://rosas-inglesas.blogspot.com/

JúNiOr_DeSeNhO disse...

Bom...

Não entramos duas vezes no mesmo rio porque na segunda vez o rio não é o mesmo, nem nós. (Heráclito)

Lembrei disso...

ohshittt disse...

Um bilhão de sabores, mais ou menos, nenhum deles exatamente igual.

Giuliana disse...

Amei o texto! Muito profundo, bem escrito... As palavras foram muito bem colocadas! Muitos bom mesmo!

Sentir falta de alguem, é profundo. sempre foi!

:*

=) Festa das Cores disse...

Sentir a ausencia de alguem sempre é algo que mexe demais com a gente...
otimo texto!! parabéns!

otimo fds!
e agradecendo a sua visita =)

http://lefamily.blog.terra.com.br/

Lucas FCBA disse...

Texto bem profundo,muito bem escrito enfim texto perfeito

Visita ae

http://criticasloucas.blogspot.com/

.Intense. disse...

Yasha...seu blog tá virando um daqueles que as vezes eu nem sei como comentar, se tão certo que me veste, como me serve direitinho. Será que esse texto chegaria em melhor hora? duvido que fosse possível.

Vou guardar a última frase. Pra mim.

Vanessa disse...

Eu concordo com a Intense.
Me vestiu..
sem o que dizer. Prefiro ficar com os pensamentos.

Saudades disso aqui. Muitaaaaaaaaa

deia disse...

Gostaria muito de saber escolher como você tão bem cada tom, cada palavra. Um modo de estravassar tudo isso que fica aqui, me remoendo as entranhas.

No seus textos se vê uma honestidade da qual pouco são capazes.

Muito bonito.

Katarina disse...

Torcemos para que ele segure sua mão e pule contigo nesse mundo lindo que é sentir o outro e o mundo... pulsando.

MinGuarino disse...

Mt lindos seus textos, mt bom seu blog ! ta de parabens...
=***

Ni ... disse...

Moça, estou encantada com sua sensibilidade... com o poder de suas palavras...

Voltarei sempre...
beijo