quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Intensamente dedicado.

"A gente não percebe o amor que se perde aos poucos sem virar carinho, guardar lá dentro o amor não impede que ele empedre, mesmo crendo-se infinito..."

Tinha que sair por algum lugar. Às vezes era pelos poros, outras escorria pelos olhos, havia tempos em que fugia em gritos, outras saía em silêncio duro e pesado. Mas nada disso era bom, eram passagens que doíam quando eram abertas. Ela queria outra via de escape para aquilo que a preenchia a ponto de sufocar. Tinha tanto de si por dentro, era tão intensamente ela mesma em suas entranhas, que não era possível continuar sendo outra pessoa no mundo exterior. Um dia ela teria que se livrar daquele estranho que caminhava por aí carregando sua alma escondida por dentro, pois já não se entendiam mais, o acordo inicial de convivência já não bastava para que coabitassem. Precisava de uma porta nova antes que começasse a achar que a saída era a janela. Frustração é faca cega que insiste no corte. Machuca e não abre. Ela já tinha os dedos feridos, mas foi justo daí que saiu a primeira cor. Vermelho de sangue, daquele corte vindo direto do coração, que esvaía, esvaía, mas então ali aberto começou a deixar escapar outras coisas, muitas outras. Pedaços do seu mundo começaram a escorrer pelos dedos, em rabiscos, depois em palavras, depois em formas, depois em cores. Os dedos eram a chave. A porta estava em toda parte. No papel, no barro, na tela, ela ia deixando o que lhe sobrava sem se perder de si. A porta estava em toda parte. Ela ia abrindo e atravessando, sem parar, e o mundo ganhou movimento, e ela ganhou leveza, e um dia criou asas e nunca mais parou de voar. Passou a passarinhar pelo mundo, se fingindo de gente quando convinha. Tudo veio da ferida, a cicatriz era a assinatura tatuada, mas agora ela tinha por onde sair. A porta está em toda parte.

Viver é escolha intransferível, nascimento diário que se dá enquanto o destino vai arrancando a esmo mato e flor e o jardim rebrota ou não - vai de esperar e aceitar as estações.

Ela espera, aceita e rebrota. É outono que primavera, inverno que verão florir, faz sol e derrama chuva, é flor que abre e folha que cai. Morre também. Mas não carrega mortos consigo. É insistência do que é intenso e vivo. Vive da insistência do intenso que é.

"...Somos, se pudermos ser ainda, fomos donos do que hoje não há mais, houve o que houve e o que escondem em vão, os pensamentos que preferem calar, se não irá nos ferir o não, mas que não quer dizer tchau."

domingo, 16 de novembro de 2008

Fazendo as pazes comigo.

"Você não é um rio cheio que eu não possa atravessar".


Não lembro mais o dia da semana. Lembro ter sentido uma dor enorme. Mas não era no peito. Era uma dor difusa, que nascia na ponta dos dedos e se espalhava pelos braços e pernas até atingir em cheio minha cabeça. Tentei usar a cabeça, ser racional. Tudo que consegui foi desligar o computador e pedir ao professor para ir embora. Queria sair dali o quanto antes. Queria chorar na rua, enquanto não chegava em casa.

Lembro que fui a pé, sem rumo, entre ruas que muitas vezes nem sabia do nome, era assim que eu queria. Um ou outro passante observava minhas lágrimas caindo e meu rosto muito vermelho. Não lembro mais do ano. Mas lembro que era dezembro. E em dezembro as dores são mais sentidas. Cheguei em casa e tudo que fiz foi tirar a roupa e cair na banheira morna, quase quente.


Pausa. Respiro.

Final de 2008. Resolvo que vou de novo dar um rumo aos meus dias. Chega de 'descompromisso', de farras homéricas, de infelicidade. Chega de saudade. Tenho poucos dias para deixar tudo em ordem: das contas, ao coração rasgado. Passando pela intolerância, pela incompreensão imediata de alguns, pelas frases mal-costuradas dos últimos tempos.

Estou ciente de que não sou uma pessoa infeliz. E contente em ter o que tenho diante de um mundo cada vez mais desbotado. Mistério, como diz o Gil, sempre há de pintar por aí... Mas quero a sorte de dias mais tranqüilos e menos embaraços na hora de bater de frente com uma promessa concreta de felicidade. Nem velha. Nem nova. Tenho o melhor dos dois mundos (como disse a alguns poucos que me são caros).

Não vou sujar minha barra tentando limpar a sujeira dos outros. Tenho uma lista enorme de motivos pra ser feliz. Vou aproveitar minha energia para partilhar mais, para conversar horas ao telefone, para jogar muito e morrer de prazer com isso. Para escrever, ler, ouvir, ver e sentir como sempre fiz: acreditando tanto na fantasia que ela acaba se transformando em realidade.

Como dizia meus queridos Hermanos: "Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz..."

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Desabafo.

"...Ela anda distraída da sua própria vida faz um tempo. Agora está meio triste."

Sempre tive tudo que quis muito fácil, por menores que fossem minhas vontades, e hoje eu sofro por isso.

Continuo querendo tudo como era, sem perceber que as coisas mudam com o tempo, que quando nos tornamos 'independentes' temos que lutar pra conseguir ser 'algo na vida', e hoje eu não consigo fazer algo por mim, algo no qual eu quero mesmo, porque eu me acostumei com as vontades todas realizadas ali, sem que eu precisasse pedir duas vezes.

O vestibular é daqui a uma semana, está batendo na porta, e eu aqui chorando todos os dias quando olho a quantidade de assuntos que ainda tenho que revisar, porque eu só consegui acordar agora, um mês antes. Sim, eu dormi todo o resto do tempo.

Não me sinto bem ultimamente, e o que é pior, as pessoas conseguem ver isso nitidamente por mais que haja um sorriso no meu rosto. Os olhos não mentem.

Alguns podem dizer que é falta de vontade, que a culpa é minha e somente minha, e que se eu quisesse isso não estaria acontecendo. Ok, já escutei bastante isso, cada um com suas opiniões, afinal pra se entender o que se passa no íntimo das pessoas é sempre mais complicado, e por que não apostar no mais óbvio? As pessoas gostam do julgamento. E como gostam.

Mas eu vou dar a minha versão. Chega nessa época de 'reta final', eu sempre penso que eu poderia ter tentado um pouco mais, ter tentado estudar mais, que não deveria ter me deixado abalar por besteiras, quando eu poderia não me abalar, que eu deveria ter me importado menos com o mundo ao redor, ter saído menos, ter me concentrado mais... E eu tentei, todos os dias acordava indisposta e me dizia que só precisava levantar e aquilo ia melhorar, que eu ia ver meus amigos e ia me sentir bem, me dava vantagens, e levantava. Fui caminhando, calada, mesmo com todos os comentários incompreensíveis, mesmo com a proposta de todo santo dia da minha mãe 'não vai hoje não, um dia assim não faz mal'... 'Ah, não precisa ir hoje, copia um trabalho pra mim no computador', e eu respirava, levantava e ia tomar meu banho calada. Foi difícil obter vontade e ainda ter que passar por isso tudo, e doía muito ouvir minha mãe, a que mais me deveria dar apoio, me dizendo todos os dias pra faltar aula por algo tão supérfluo. A verdade é que acho que nunca pude contar com ela realmente. E todas as vezes que eu me sentia capaz, aquilo voltava contra mim. E eu fui levando... Mas, por mais que eu quisesse fazer um pouco além, eu não conseguia, eu fugia de mim, e assim me enganei o ano todo, resolvendo coisas fáceis, olhando um assunto ou outro e pensando que estava conseguindo vencer meu instinto, meu instinto devorador.

Mas desde o inicio, de alguma forma, eu sabia como ia ser agora, só não conseguia fazer nada por isso. Nunca foi falta de vontade, repito. Ao contrário, passar no único curso que me identifico realmente é tudo o que mais quero agora, e sempre quis. E mais ainda, quero não precisar provar isso a ninguém, a não ser a mim mesma, me provar que posso ser capaz, nada além.

Acho que estragaram minha vida me dando tudo o que eu queria, assim, sem precisar lutar um pouco pra conseguir. Até hoje é assim. Agora eu fico aqui, desistindo por um tropeço, esperando por um milagre sem nem acreditar neles, aguardando que a sorte venha me visitar... Não, não é por falta de vontade, na verdade, nem sei mais o que me falta.

sábado, 8 de novembro de 2008

Tanto amor... que dá e passa.


Agora o amor te ofende. Era vidro e se quebrou. Você agarrado aos cacos, e o corte não fecha (você não deixa). A plenitude dos outros te grita teu vazio e você amaldiçoa aquele que antes era o deus do teu altar mais secreto. Não é culpa dele, nunca te mentiu sobre sua natureza volúvel. Amor entra arrombando porta ou foge pela janela quando bem entende - você mal compreende o mais básico de sua dinâmica, anseia por âncoras onde só há navegar. Não há permanência. Amor não é tatuagem (mas, sim, pode deixar cicatriz). Talvez seja maquiagem que peça retoque constante. Talvez só pele limpa, sem perfumes artificiais, só o humano exposto - mas há sempre a inevitável máscara, e a paixão pode ser por ela, mas o baile acaba. Cavalheiro, qual será a contradança quando os pés já estiverem cansados e as olheiras fundas? A paixão não tem compaixão.

Agora você ofende o amor. Mas ele não se afetará, entende? As injúrias são dos amadores, ficam com eles como uma oferenda recusada - o amor não aceita presentes baratos. Ele segue sempre a dança, sorrindo, trocando de pares, de fantasias, bailando todos os ritmos - ele é flexível, mas não se curva aos teus lamentos, porque a tristeza é sua e não dele, entende? A dor é uma filha bastarda, um descuido dos amantes. Ele é sempre aqui e agora, se partiu e você ficou, no ontem ou amanhã, cuida logo das tuas feridas e pára de lhes arrancar as cascas. Não espere que ele tenha pena, querido. O amor não tem coração.