domingo, 21 de dezembro de 2008

Fazes-me falta.

Só o teu riso dura.

Estou sozinha. Sozinha e com o coração em bocados espalhados pelas tuas imagens. Já não posso oferecer-te o meu coração numa salva de prata.

Olho para o mar, para essas ondas frias e violentas em que tanto gostavas, e sinto-me também eu meio morta, meio fria. Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas. A tua morte alivia-me do medo de morrer. Contigo fora de jogo, diminui o interesse da parada. E se tu morreste, também eu serei capaz de morrer, sem que as ondas nem o céu nem o silêncio se transtornem.

Há tantas coisas que nunca te disse – e tu dizias que eu falava demais.
Se ao menos te tivesse dito "Obrigada".
Deus da minha imperfeição, entorna um mililitro da minha voz no sono eterno da minha avó, deixa-me dizer-lhe esse obrigada que tanta falta me faz.

E dizia eu que tu falavas demais. É verdade que não paravas de falar. Mesmo ou sobretudo sem palavras, com a força dos teus abraços em carne viva.
Quando tu vivias, eu podia acreditar na alma, lama, mala interestelar, o que tu quisesses. Porque a gente olhava para ti e via essa coisa transparente e firme, esse nó de sangue, secreções e luz a pulsar como um farol. Agora, tudo e todos me falam do "espírito que prevalece", e eu não consigo acreditar nas almas abstratas, bolhas de ar discretas arrotadas entre um chá e dois suspiros.

Fazes-me falta. Já te disse?

Tanto que eu queria agora dar-te o amor total e infantil que tinha pra te dar. Racionei-o a vida inteira como a porra de um chocolate de leite – Por que vivemos como se o tempo nos pertencesse infinitamente, como se pudéssemos repetir tudo de novo, como se pudéssemos alguma coisa?

Uma fotografia tua sobre a cômoda do meu quarto.

Amavas simplesmente a minha terra como uma criança ama uma pedra, um bocado de boneco, um urso sem olhos. É esse amor que agora me falta – o sujo, quotidiano amor dos momentos maus, das frases adversas, das ausências.

Agora que os teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus.

3 comentários:

Vanessa disse...

Por que vivemos como se o tempo nos pertencesse infinitamente, como se pudéssemos repetir tudo de novo, como se pudéssemos alguma coisa?


As vezes deixamos de nos entregar total a certos sentimentos pensando que não é o momento, que haverá um amanhã. Nem sempre há.
Como diria Hebert Viana : Cuide de tudo que for verdadeiro, deixo tudo que não for passar.

Yasha, sinto muito pela sua vozinha.
E que essa falta seja amena, porque ela nunca vai sair mesmo que com o tempo não doa tanto.
Se cuida.

Pequena Poetiza disse...

forte... intenso.... e adoro tuas palavras.... as usa na medida certa pra enstrangular nossos sentimentos da alma e nos fazer sentir o que tu sente.

meus sentimentos por sua avó.
que saibamos aproveitar enquanto estamos aqui para fazer
mas sempre sabendo que o tudo será sempre pouco para o que queremos falar
precisamos sempre de um pouco além do tudo

bjos

Emanoel Ferreira disse...

Parabéns pelo blog! Prometi na comu de divulgação que viria aqui, e aqui estou eu!
Entre como seguidora de meu blog literário:
www.imaginososvocabulos.blogspot.com

Bjus linda,

Emanoel Ferreira.