segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Só o teu riso dura.

Há um mês atrás ela transformou-se em anjo. Um anjo alvo e risonho. De cabelos lisos e grisalhos.

Ela estava linda.

Descansou da vida de dependência. E de sofrimento, acredito, embora sempre tão bem disfarçado. De passar, num instante, da tranqüilidade a uma convulsão. De saber que sua capacidade encoberta pelas mãos trêmulas não a levariam mais a lugar algum. Lugar algum além da cadeira de balanço em que ficava em sua casa confortável, vendo tevê em silêncio. Ou a cadeira posta no seu quarto, onde passava a maior parte do dia, rezando, estagnada. Sempre em silêncio, até chegar um parente e o sorriso se abrir, e a língua se soltar.

Como ela gostava de conversar... Era consciente, esperta, embora passasse boa parte do dia quietinha, só observando as coisas e as pessoas. Pessoas que temiam deixá-la a sós, que a amparavam, que preparavam seu banho e sua comida, que lhe davam os remédios sempre à hora certa. E a escutava dizer, constantemente, que estava tudo bem, diante daqueles olhos presos nela o dia inteiro; não queria que deixassem de viver suas vidas para ficarem ali, olhando-a, com receio de que algo pudesse acontecer. E eu estava sempre dentre essas pessoas, essas poucas pessoas, sem nenhum empecilho, com todo o amor que sempre lhe tive.

Ter tudo e ter nada.

Muito se chorou, muito se vai chorar por ela ainda. Mas acho que, passado o baque, ainda que com choro, vai ficar a lembrança daquele riso imenso, do sorriso cristalino como o de uma criança. Eu, pelo menos, quero guardar esse riso enquanto a lucidez me permitir.

Descanse em paz, minha avó, minha flor, meu amor.



[baseado em texto do blog menina gauche]
[http://meninagauche.blogger.com.br]

Um comentário:

Ada disse...

Oi, Ana! Sem problemas!

Agora, eu que peço permissão para linkar teu blog lá no meu, posso?

Bjo!