terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Conexão em rede.

Tenho uma varanda que tem uma rede. Diante dessa rede o mundo se apresenta em retalhos, recortes de vidas diversas que cada janela me mostra, além do que o céu me traz.

Tem as gaiolas da varanda em frente que de repente sumiram todas. Aí penso para onde terão ido, e porque um dono de pássaros se desfaria de todos de uma vez só, e porque um dia teve prazer em prendê-los afinal. Tem a loura que toda manhã tira o pó da casa e bate a flanela na janela, sempre rigorosamente com os mesmos movimentos, sempre tocando pra mim o Chico dos versos "todo dia ela faz tudo sempre igual". Aí penso nas formas metódicas de viver. Tem o bebê que já anda, filho do casal que, uma madrugada, vi chegar ainda nos trajes da cerimônia e estranhei que ela, noiva de branco, entrasse em casa com o marido e mais sogro e sogra/pai e mãe a tiracolo, justo na noite de núpcias. Aí pensei "vidinha que começa besta, acaba besta" e também como o tempo passa rápido, o menininho que chorava tanto nas madrugadas já tem até cabelos. Tem as pipas que morrem em combate no céu azul, de repente uma cai e vai sendo levada pelo vento, desmaiada, e aí penso como é bom que ainda existam meninos que soltem pipa. Aqui dentro tem aquele meu vaso ex-moribundo que de uns tempos pra cá resolveu dar flor de novo. Ontem ele estava doente e, quando pus o remédio-veneno, fui obrigada, com pesar, a destruir uma teia de aranha que estava lá no meio dele, uma teia pop com núcleo em ziguezague. Pois a aranha, por puro despeito, hoje entardeceu numa teia quatro vezes maior e ficou lá me desafiando, sorrindo aracnideamente. Aí pensei como são rápidas elas e como são grandes certas coisas pequenas. Tem as nuvens que se fazem e desfazem, e penso como tudo é efêmero, e tem as estrelas, que quanto mais se olha, mais se vê, e penso como tudo é questão de foco.

E tem sempre alguém em outra janela que me espreita e certamente pensa: "Olha lá aquela moça, há quanto tempo ali fazendo nada naquela rede", aí penso que esse alguém não sabe das coisas. Mesmo parada posso fazer muito. Aqui mesmo, quieta na minha rede, tenho aulas de mundo, de poesia e de vida.

São nesses momentos quando o NADA é TUDO que paramos para relativizar a frieza das coisas do mundo e a perceber o quão subjetivas são as coisas quando passam pelos nossos "olhos poéticos". É impossível ouvir o vento e não se encantar com a sua música, não se perguntar "Pra onde vai o vento? Pra onde leva essa poeira?"... Como uma vez li em um livro do Saramago: "Se podes ver, repara!"


Ps.: Gente, desculpa o sumiço nos blogs e aqui no Labirinto. Faz uns quatro dias que estou com dificuldade de acessar a página do blogspot, hoje continuou do mesmo jeito até que, por acaso, eu consegui acessar. Prometo que assim que isso voltar ao normal por aqui eu vou recuperar todo esse tempo perdido também, ou todos esses posts perdidos. (haha). Abração. :*

domingo, 20 de dezembro de 2009

Explode, ri, coração! [À Felicidade que me invadiu e aos Blogueiros]

"...Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar..."

O azuldacordomar às vezes vira cinza e passa. O cinza vai clareando e vai dando um tom bonito, um tom pérola que muito me agrada. Posso transformar o tom pérola no azul de novo, no azuldacordocéu dessa vez, afinal, a caixa de lápis de cor é minha e as tintas e os pincéis também são meus. As cores se misturam em aquarela e meu sorriso se abre radiante. Acordei com o tom azuldacordocéu hoje, diferentemente do cinza de dias atrás. Sinto que coisas boas estão por vir e não é porque está chegando um novo ano. É ano novo para mim a cada sensação boa que o vento me trás, a cada manhã que eu acordo com um sorriso no rosto e com o pé direito antes do esquerdo. Hoje eu posso até ver um arco-íris surgindo no céu azul, mesmo com um sol escaldante, e ele surge ao redor do sol que brilha feliz quando vê que todos o olham, admirados, como há muito não acontecia. Hoje a felicidade veio até mim e parou. Parou e disse que veio passar uns dias comigo. Bem que me disseram que a felicidade chega de madrugada... Eu soube esperar acordada e a vi chegar, sem atrasos. Ela trouxe a confiança com ela e fez renascer uma luz que se fazia fraca em mim. A luz iluminou meus olhos, que tanto brilham agora, e vai me ajudar a seguir minha trilha. E que venham pedras e obstáculos. Não vou mais engessar o braço antes de subir no muro. Vou deitar no campo imaturo da minha esperança, abraçar o mundo sem medo e respirar feliz mesmo diante do cansaço.

Os olhos não vêem e as mãos permanecem a longa distância, mas nós ainda conseguimos sentir como se estivéssemos perto, lado a lado. Atravessamos as conturbações do tempo e do espaço e mergulhamos na confiança de que temos uns aos outros aqui mais perto, onde apenas um status nos afasta e um piscar de olhos nos aproxima com o coração pulsando mais forte. Não há toque, sorriso visível, nem o mirar dos olhos, mas o que importa quando o coração finge entender o que sente? Eu falo de qualquer bom sentimento que nos lembre que somos no mínimo seres suportáveis e no máximo alguém de tanta importância para alguém que nem conhecemos fisicamente. Eu falo de vocês, de nós, que acreditamos que há pura vida no mundo virtual. E eu não sei explicar que gosto tem isso, mas sei o gosto que fico sem isso. Então, por tudo o que já senti, por todos que já conheci e admirei, por todos que me fizeram chorar com seus textos encantadores cheios de vida e verdade, por todos que não sentem vergonha em falar dos seus dias e que renascem a cada palavra dita, por todos os comentários carinhosos e verdadeiros, para os que me enchem de alegria, aos amigos adquiridos ao longo dos dias em cada post, aos mais próximos e aos mais distantes, aos que me mandam bons ventos a cada dia e aos que me fazem abrir um sorriso a cada notícia das suas manhãs, a cada email, a cada comentário, enfim, eu deixo a vocês essa minha energia que amanheceu florida hoje. E peço para que vocês não deixem morrer o tal bom espírito que ronda esse final de ano, que não esperem a meia-noite do último dia do ano para decidir deixar para amanhã o que deveriam ter feito ontem. Tenho em mim um mundo inteiro e vocês têm a mim em palavras e sentimento verdadeiro, mesmo sem o mirar dos olhos e o sorriso visível. Nem tenho palavras para agradecer pelos abraços à distância desse ano, pelas palavras de conforto, pelas broncas, pelas conversas no MSN, pelo carinho terno, por essa sensação tão boa que vem até mim, fica, e tem vontade de nunca mais ir embora. Essa sensação brilha, e brilha tão forte que meu sorriso parece nem caber no rosto. Acreditem!

“...Eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim, como se fosse o sol desvirginando a madrugada...”

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Mergulho.

As palavras secam, o coração parece que aperta vez em quando, e o único pensamento no momento é não. O desejo se esvai como em goteira, mas nenhuma lágrima escorre. A alma parece que está manchada, ferida, líquida, corrente. Barco à deriva. O dia nasceu lindo, contudo, cheio de sol e luz. (E é daí que surge a verdade: Ele sempre nasce, independente da nossa vivacidade). O ar está limpo e o clima é um consolo para o corpo cansado, até ontem tão encolhido. Há uma chance, talvez mais de uma, quem sabe todas. A esperança está acesa como vela. Não vou me anestesiar, nem me abater, tão pouco vou meter o dedo outra vez na tomada. Aprendi, e a lição não foi esquecida. Acho que até já sei cuidar de mim. Sei enxergar, escolher, cuidar dos meus tesouros. Já entendo que alguns trechos do percurso terei que cumprir sozinha, e apenas sozinha darei oportunidade a novos encontros, novas tentativas, outras cicatrizes. Aceito. Meu sangue volta a se aquecer. Sinto como se estivesse deitada sobre a areia da praia, sonolenta e sentindo aquela brisa que vem, passa, mas deixa um pouquinho dela comigo. O mar me seduz e logo me vem a vontade de me entregar às águas e ao sal, à agitação das ondas e do vento. Entrarei no oceano, mas sem perder o pé, porque quero voltar, lavada e limpa, para continuar a minha caminhada.


Acabaram-se as viagens, acabaram-se as provas (e acabou todo esse sumiço no blog também). Sensação de alívio, apesar dos pesares. Agradecida aos que não deixaram de vir. Beijo de tanta saudade disso tudo. :*

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Tanto mar...

Hoje decidi abraçar a verdade e ordenei que ninguém mais a tiraria daqui. Talvez muita gente não entenda isso, até porque "Só quem já cruzou desertos saberá chorar em frente ao mar". E acredite, eu cruzei esse deserto tantas vezes, chorei tanto em frente aos mares alheios e o meu ficou aqui intacto. Por isso, agora tenho que viver o mar de sentimentos que ficou à minha espera por tanto e tanto tempo.

Dentro de mim o mar não anda revolto como há dias atrás. Hoje ele amanheceu calmo como há dias eu pedi que estivesse. Aqui dentro ainda está frio e eu sei que o que eu quero está lá nas profundezas para algumas pessoas, mas mesmo sendo difícil chegar até lá, eu vou nadar à procura, e sempre que eu pensar em fraquejar eu vou lembrar de todos os brilhos mais reforçados nos olhos que me passam luz para eu seguir. Quando eu mergulho e me recordo desses olhos eu gosto do que vejo. E sabe? Já quase posso tocar o meu sonho. Sei que agora ele está pertinho e não vai ser depois de ter enfrentado tanto mar que eu vou parar e olhar para trás. Olho para frente e até posso sentir a coragem reluzente batendo à porta.

O azul que vejo quando busco por meu sonho é muito mais forte que o meu. Eu estico a mão e tento alcançar um pouco desse azul. Creio que foram as dificuldades que essa busca já me causou, muitas vezes me faltando forças e o ar, que a faz ter um tom mais forte. Mesmo com medo, eu mergulho. Não me vejo sozinha, encontro outras pessoas na mesma busca. Às vezes me encontro à beira do cansaço, mas logo busco meu cais e lá reponho todo o meu ser, todo o querer é relembrado, faço questão. Com algumas ondas me jogando para trás, eu nado contra a correnteza, contra a tempestade que vem à tona toda noite quando me deito.

Enquanto eu estiver a favor do tempo que me foi dado, eu ainda sentirei a luz dos olhos que me guiam e ainda esticarei a mão mais perto, mesmo que lá fundo, na escuridão. Levarei comigo a luz que tenho guardado para a linha de chegada, e os mares desses olhos que me guiam continuarão acalmando aqui dentro de mim, junto ao meu.


"...Tanto mar para chegar..."

sábado, 28 de novembro de 2009

E nem o tempo fará esquecer você.

Um ano, vó. Um ano sem ouvir sua voz, um ano sem seus abraços, um ano sem suas palavras de conforto, um ano sem as nossas caminhadas no parque, um ano sem a sua força de vontade diante do mundo, um ano sem a sua paciência, um ano sem a sua esperança de que um dia tudo daria certo pra mim.

Desde aquela noite tenho pensado bem menos e sentido bem mais. Sentindo tudo, inclusive a dor, já que ela é parte fundamental de nossa vivência. Os pássaros coloridos que andavam na sua bolsa já adornam esse meu mundo e posso te dizer que a leveza deles me alegra, me faz voar junto... "Tudo que não nos mata, nos fortalece", a frase do atormentado filósofo dita por você dias antes de partir tem sido meu mantra, me fazendo lembrar que o tempo todo nós somos humanos, demasiado humanos. E que assim seja. Essa tua força que me vem com o vento tem sabor de desejo compartilhado. Desejo que pede serenidade, retidão e acima de tudo respeito por todas as nossas histórias.

Ainda digo ao meu coração:
"Vamos insistir - não nos outros, mas em nós." E sei que há horas de manobrar a lupa da adivinhação: para enxergamos nossos olhos melhor, no espelho. Porque está tudo dentro de nós, nada fora.

Não posso negar da falta que me faz o teu riso, que apagava a luz do dia, o rosnado do tédio, a gritaria das crianças na rua. Sei que também havia algo de trágico escondido nesse teu riso, um desgosto de que o mundo fosse tão diferente dele. Mas principalmente havia o rosto eterno da vida, nesse teu riso que morreu.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Para a moça de sorriso aberto.

Ela, que já transformou um lápis em um elefante e que já preparou seu campo e alma para as flores - e eis que recebeu as tais 24 rosas vermelhas tão esperadas do tal 'homem da sua vida'-...

Hoje eu acordei sorrindo e não poderia deixar de vir aqui passar toda a minha energia positiva, acesa como vela, pra essa moça de sorriso aberto, que mesmo distante se faz aqui tão pertinho e tem o dom de colorir os meus dias cinza e de alegrar ainda mais os meus dias já alegres. 23 anos é pequenininho perto do que você tem pra conquistar, flor. E você tem tanto ainda pela frente que nem vale a pena pensar em números.

Flor, cruzo os dedos pra que o seu caminho seja só de rosas, sem espinhos, e que você saiba passar pelas pedras que venham a surgir nele. Que você possa viver seus dias sem prestar tanta atenção nos detalhes, sem calcular, apenas viver, intensamente. Que possa viajar muito e trazer cada pedacinho do mundo dentro de si. Que tenha muitos frios na barriga, beijos, blues e poesia. Que você não fique doente, mas se for o caso, que seja alguma coisa bem besta e que tenha sempre alguém do teu lado te mimando com um olhar de preocupação. Peço pra que você não deixe nunca que sua essência se apague, não deixe nunca que interfiram nesse seu brilho tão forte e transparente; mas se for o caso da sua luz fraquejar, que você consiga reacendê-la ainda mais forte. Que você consiga sempre abstrair quando for preciso e resolver seus problemas da melhor forma, crescendo sem precisar passar por cima de ninguém. Que tenha sempre esse amor dentro de você e o seu amor ao seu lado. Que você consiga viver suas músicas, melodias, silêncios, ou sons de passarinhos. E que São Jorge esteja sempre contigo, te protegendo de todo o mal. Pelos corredores que te cercam que haja sempre esse seu sorriso aberto verdadeiro, o sorriso mais encantador desse mundo.

Quero que saibas que te quero bem demais, que te gosto um tanto mais e que os dias têm cores, muitas cores, contigo. E o que são 2.845 km de distância diante disso? [Quero ir aí, um dia, te conhecer e te dar todos os abraços que já te mandei pelo ar].
Ela me faz pensar que não sou a única a achar que somos vários pedacinhos de sentimentos com vida própria. E sabe que a vida ficou mais colorida, mais vida, depois que você apareceu?

Que não só o dia 20 de novembro (redondinho) lhe seja bom, mas que os seus próximos dias e anos a fio possam ser ainda melhores. Do coração do meu coração.

“...Porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.”

Ps.: E que o Fofão não atormente os seus sonhos!

domingo, 15 de novembro de 2009

A vida é uma ratoeira, mas tem que ir lá comer o queijo.

Sabe quando chega o momento de ser mais forte do que antes? De ser mais você sem deixar de ser o outro?

Sabe quando é preciso achar no meio das nuvens um caminho verdadeiro? Deixar de ver o passo seguinte como um simples talvez?

Sabe quando o dia de ontem já não nos diz tantas coisas e os medos deixam de ser tão esplêndidos?

Sabe quando as decisões antes esquecidas na gaveta do quarto acabam se tornando o comentário mais promissor do jornal?

Sabe quando a fuga já não é a melhor escolha e é preciso de um novo jeito para se dizer o velho "não"? (Porque o sim constrói, mas o não constrói muito mais).

Sabe quando você dá de cara com as correntes que te mantêm preso e descobre, sem querer, que já não é tão preso assim?

Sabe quando você começa a enxergar o visível e é forçada a separar do coração a visão?

Não é raro compreender que você é muito mais do que sempre imaginou.


[Obrigada pelos comentários lindos e otimistas da postagem anterior :)].

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Me diz se assim está em paz?

Eu cansei, na forma mais bonita da palavra, cansei. Cansei de mim, das minhas manias, dos meus gostos, dos meus defeitos crônicos, cansei de algumas pessoas, das formas e gestos, do mundo, num geral mesmo, cansei e ponto. Todo mundo pode se cansar uma vez na vida, e eu decretei minha terça-feira o dia do 'eu também me canso' e cansei. Baguncei o quarto, quebrei copos e pratos, taquei tudo pela janela e não vou arrumar tão cedo. Quero me encontrar em meio a minha confusão. E não, a culpa não é sua, entenda, eu também canso, também sofro e também tenho problemas amargos e pesados. Não estou afim de sair por ai espalhando sorrisos, hoje eu quero mais é deitar e silenciar. Quero colo, dos amigos, de você, mas cadê você? Cansei, cansei, cansei. Não desisti, mas cansei. Eu sei que é amor, mas... Cansei e ponto final nisso.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Da Fé.

Lembra da sua infância, quando você acreditava em contos de fadas? Aquela fantasia de como sua vida seria. Aquele vestido longo bonitão, o sapo que viraria príncipe encantado e te levaria embora para um castelo na montanha. Você deitava à noite na cama, fechava os olhos, e tinha perfeita e absoluta fé.
No final das contas, a fé é uma coisa engraçada. Ela surge quando você não a espera. É como se um dia você percebesse que o conto de fadas talvez seja repentinamente diferente do que sonhou. O castelo, bem, talvez não seja um castelo. E não é tão importante que se seja feliz para sempre, contanto que se seja feliz agora.


Ele diz:
Onde está a tua fé?

Ela diz:
Não basta ter fé, as pessoas devem ao menos cumprir seu papel profissional, senão como vão comer se ninguém planta? Como vamos trabalhar se não há trabalhos? Como vamos nos tratar se não há médicos? E como vamos ter fé se não temos consciência para isso? Em consciência tenho fé.

Desacreditar é regredir, é esmorecer. Então, mesmo que acreditemos em coisas diferentes, é a crença que nos impulsiona quando o plano terrestre nos diz não. Quando os médicos sem coração nós diz pra voltarmos para casa quando estamos tendo uma reação alérgica. Então você começa a aprender a respirar pelo diafragma e aos poucos descobre que a cura esteve sempre muito próxima, assim como a fé em nós.

"Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar" [Caio F. Abreu].


Ps.1: Aproveitando para dizer que sábado estou indo para João Pessoa fazer a prova da UFCG (*me mandem energias positivas*), estou bem ansiosa e nem sei mais o que são unhas, mas enfim, a prova é no domingo e na segunda e devo voltar ainda na segunda.

Ps.2: Aproveitar também para agradecer a Mel pelo selo do “Blog Instigante” e dizer que fiquei toda boba. Muitão obrigada, flor. :D
E quando eu voltar eu indico os blogs para receber o selo. Beijo e até a volta. :*

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Prece.

Uma prece
Alguma coisa que fale de você
Qualquer coisa que nos aproxime
Qualquer coisa que não nos distancie
Qualquer coisa que não seja essa saudade toda
Que anuncia a manhã de todo dia
Que não me pede licença
Uma prece
Que diga pra você que ainda estou aqui
Esperando um dia como os nossos “onténs”
Todos eles

(até os tristes e os silenciosos
)

(Estes versos são desabafos e saudades. Hoje faz onze meses que minha avó morreu, faz onze meses que eu não escuto seus conselhos, seus planos, suas músicas. Dizem que com o tempo tudo fica mais calmo. Que a dor diminui, essas coisas bestas. Mentira. Com o tempo, a gente apenas se acostuma com a ausência, mas dói, e muito. E qualquer gesto parecido com o seu, vó, é motivo para engasgar numa lágrima cheia de saudade. Após onze meses preciso agradecer alguns colos. Alguns sorrisos que me acolheram quando tudo estava complicado demais, mesmo não sabendo o motivo exato da tal tristeza. Obrigada. Hoje eu só queria poder dormir, dormir, dormir... e despertar num dia distante.)

Esses dias têm mexido comigo, vó. Ontem eu senti uma saudade dolorida. Apontou lá dentro do coração e machucou fundo. O coração contraiu. Mas ele sobreviverá... Porque coração é assim mesmo, vó, faz e ouve somente aquilo que lhe é conveniente. Sobreviverá porque destruir não é coisa simples quando se trata de um Amor como o nosso, cheio de lantejoulas e coisas bonitas, de momentos ímpares, de apoio e de vontade de ir em frente, a qualquer lugar. Apenas ir, ainda que não se tenha propósito de chegar – e não há -, apenas ir até o fim: junto. Sobreviverá pelo brilho dos olhos, pelo vento gelado no estômago, pelo peito acelerado, pela vontade de gritar pro mundo inteiro e as galáxias mais próximas ouvirem dessa saudade que me aperta. Sobreviverá pelas mãos que ainda se buscam para o abraço, pelos sorrisos que eu não consigo conter ao lembrar de você, pelas lembranças eternizadas, por querer tanto você aqui, por ser tão puro. Porque os dias de chuva não duram pra sempre, e um dia novo sempre surge depois de uma noite difícil. Porque o inverno é um tanto frio, mas anuncia a primavera, e tudo muda depois. Tudo muda. Sobreviverá porque até o nosso campo quando seca, e os nossos girassóis quando se abalam, permanecem belos e vigorosos, contentes, firmes como o que carregamos no peito. Sobreviverá. Porque eu que, quando você se foi, andava como uma cega de olhos e de alma, hoje vejo cores, arco-íris reluzentes, vejo a possibilidade de um futuro feliz, crio sons, crio palavras assim. Porque hoje a minha vida que era choro tornou-se esperança-verde-árvore. Por isso e um tanto mais, sobreviverá. Sobreviverá aos abalos e aos obstáculos.

So-bre-vi-ve-rá.
(Porque o mundo ainda dá preferência ao que há de bom, ainda que tarde.)

domingo, 25 de outubro de 2009

Porque é intenso e transborda.

Ei, você que passa por esse caminho, leve um recado meu pra uma moça de lá. Quando a vir saberá no mesmo instante sobre quem lhe falo, é a flor mais brilhante que haverá na estrada. Ela respira girassol e coragem, ela perfuma todo aquele chão de terra e de casinhas de sapê. Você que me ouve, lembre-se de mim quando chegar lá, e quando encontrá-la andando com urgência - com aquele seu ar de ocupada demais - respire forte para chamar sua atenção (ela sempre está atenta), e quando ela levantar os olhos desconfiados pra depois desviar, dê altura suficiente a tua voz e diga a ela que as estrelas, enfim, resolveram sorrir em sua direção. Diga que as flores de plástico do jardim morreram mesmo e aquilo que ela vê agora são flores de verdade, desabrocham, mas não morrem. Diz a ela que o cenário de madeira-papel-e-cola deu lugar a uma paisagem-colorida-e-linda, e que os desertos agora são campos de orquídeas e de margaridinhas brancas. Diz que o último soluço do choro de ontem foi mesmo o estímulo do primeiro riso eterno, que a Felicidade resolveu lhe dar boas-vindas de manhã até que se acabem todas as manhãs de sua vida, e que todos os dias a própria felicidade sente saudades dela. Diz pra ela que as lagartas já não usam asinhas de arames com papel celofane pra contracenar bons momentos e que aqueles encantos sobrevoando ao seu redor são borboletas de verdade, acabaram-se os móbiles. Diz que a água agora é límpida sim, e que todo o esforço valeu a pena, que tudo ficou bem. Diz pra essa flor que o que ela ta vendo agora é realidade.
Diz pra ela que o Amor chegou, enfim.


* Dedicado a alguém que sabe do excesso e do intenso.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sonho De Uma Flauta.


Em brincadeira de amarelinha tem céu!


Eu sou criança!
Sou criança!
Ou isso, ou desisto.


O menino olhava em volta, parecia que tudo aquilo ali era um outro mundo. Via o mundo com seus olhos de criança sonhadora, com os olhos da alma que os adultos ainda têm muita dificuldade de usar. Olhava para o céu e se iluminava com o sol, olhava para as nuvens...
- Mamãe, nuvem é de algodão? Algodão é doce?
- Ás vezes é doce não...
Olhava as borboletas e pensava que era flor que o vento havia tirado para dançar, pensava que avião era passarinho que voava lááá longe... Até que num rápido remanso adormeceu sob a sombra de uma árvore que ali estava. Sonhou, sonhou... Parecia verdade, mas o sonho só é verdade quando a gente esquece de acordar. Sonhou com um mundo em preto e branco, sem cores, amores, nada que caracterizasse um sonho de criança. Viu que tudo estava estranho - sem cor, sem vida - percebeu então que apenas ele estava em cores, e começou a tirar as cores de si próprio e passou a colorir o que o rodeava. Viu que tudo foi ficando mais belo, e as cores mais fortes eram aquelas que estavam mais perto de seu peito. Percebeu que ele coloria tudo como queria e que o sonho foi ficando mais vivo. E aquelas cores eram arte e apenas ele detinha a capacidade de colorir o mundo com seu jeito, seu jeito criança de ser. O menino não era um menino apenas, era poeta, era artista, alquimista, que conseguia tocar a alma. Acordou! Pois sonho só parece verdade quando a gente esquece de acordar. Mas acordado o menino sou eu, é você, são os raros e raras que andam por aí colorindo o mundo com as cores de perto do peito, sem acomodar com o que incomoda.

Lembrem-se: “Os opostos de distraem e os dispostos se atraem”.

“...Sonho parece verdade quando a gente esquece de acordar e o dia parece metade quando a gente acorda e esquece de levantar...”

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Todo mundo dói.

Porque a vida não é feita de uma só cor.
Cor de hoje: Cinza.


Preciso ingerir um copo bem cheio de palavras, mas daquelas que nos fazem sentir bem. Não pretendo beber coisas como sangue, dores ou podridão. Também não quero morte, guerra ou, principalmente, tristeza. Estou farta da tristeza desses dias. Dane-se, também não quero política nem futebol. Quero drogar-me com palavras de um livro infantil de segunda categoria, daqueles que são vendidos num supermercado a 30 metros dos abacaxis e alfaces, e que provavelmente têm erros ortográficos. Quero o que a maioria das pessoas já esqueceu que existe.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Para morrer, basta estar vivo.

Terra de flor, barro de vaso, malabarista, contorcionista, poeta insone que riscava e arriscava. Peixe que caía em rede de palavras, astro que brilhava na madrugada - iluminava a manhã, alegrava a alvorada-. Nome sem corpo, silêncio com voz. Gosto de chuva em pele de sal, palavra viva em língua morta, poema certo em linha torta. Palhaço alegre em terra distante, sonho que existe, profeta errante, brilho que insiste, coração de diamante.

Aí você acorda, sai, resolve muitas coisas, deixa outras por resolver e, de repente, naquele dia, sem aviso, você não volta para casa.

Domingo ele não voltou para casa. 19. Talento. Batalha. Resistência. Consciência. Liberdade. Sonhos.

Meu carinho, Oiran.

(E se você não voltar para casa hoje?)


Vai viver e brilha forte feito o sol - como num dia belo de manhã-, sem saber se o que é bom fica melhor, se o que é bom pode ficar melhor. É fácil viver quando não se tem final a se chegar! É fácil querer quando não se sabe o quê? É tão certo como dois e dois, a lua chega e o sol vem depois observando o que há para iluminar. Bem, aí estás observando ainda o seu lugar. Sei que às vezes acha que sabe onde está, ainda é estranho, mas sei que já pode nos adiantar.
Acho que estás bem melhor.


Ps.1: É incrível o modo como sou sensível para certas coisas, mesmo só estando na borda da história, como telespectadora. Tenho certeza que eu teria adorado tê-lo realmente conhecido. Pessoas e suas manias de viverem como se o tempo lhes pertencesse infinitamente, como se pudessem repetir tudo de novo. Parece que a cada vez que uma pessoa se vai todos os outros que já se foram vêm à memória, e querendo ou não, você chora e quebra.

Ps.2: O sol já foi, mas eu estou aqui. As nuvens passam.

sábado, 10 de outubro de 2009

Então respira mais que eu me inspiro mais.

Poderia ser tudo mais simples e menos feliz se tivéssemos nos desencontrado naquele dia em que aparecestes na minha vida, mas por ventura não foi assim. Desde que tu chegaste, a minha calmaria se transformou em grito. Lembro que tinha uma visão tão diferente de ti. E não foi entre as primeiras vezes que te vi que o meu coração perdeu a tranqüilidade de ser o exclusivo dono de si.

Lembro que me apareceste numa sexta-feira improvável, de calor sem sol, céu sem azul, com teus olhos cinza e eu não te reconheci. Não como te reconheço hoje, com todo esse arco-íris que agora vejo e que antes eu não percebia. Reconhecia somente o que era relativo às minhas expectativas sobre tudo que encontraria naquele dia, sobre as pessoas que iria conhecer, sobre a minha impaciência num estúdio cheio de pessoas desconhecidas - que eu pensava que tu eras só mais um entre elas-, e sobre as dúvidas e ilusões da noite anterior... E foi justo quando eu pensei que eu realmente não tinha sorte nenhuma que você chegou pra me mostrar que eu estava enganada.

No dia em que tu chegaste, a sorte estava na fila ao lado acenando pra mim e apontando em tua direção, como se quisesse me atrair, me mostrar ou me dizer algo que eu não entendia. Lembro que quando tive a oportunidade de te reconhecer no primeiro momento, quando estávamos a sós, eu e você, acabamos por falar demais, por causar mágoa, e você se foi sem pensar duas vezes, com sua música e sua melancolia - e me deixou ali sozinha -, depois voltou, reconheceu, pediu desculpas. Nós tínhamos um jeito tão sublime de ver a vida, de contornar as situações. Mas eu só te reconheci mesmo alguns dias antes de ter que me despedir de ti, como se o acaso ou o destino não pudesse ser contrariado, como se tivesse realmente que acontecer, ainda que tarde. MAKTUB, já estava escrito. Porque antes disso, era como se alguém soprasse ou dissesse baixinho algo que eu não entendia a cada vez que você aparecia na minha frente e se sentava ao meu lado. Eu devia suspeitar que todo aquele riso que você me proporcionava não era lá dos mais comuns.

Desde que você chegou à minha vida eu tenho tido a sensação de que o tempo de uma vida inteira é minúsculo pra tudo que se pode ser, criar e tentar. Tenho sentido um apetite louco de tudo, de respirar fundo e aproveitar a vida, de aproveitar contigo. E não me intimidam esses duzentos e oitenta e oito quilômetros que estão entre nós. Eu moro em ti, e tu moras aqui - dentro -, crescendo em mim como se fosse flor. E eu te rego e te cuido. E as lembranças dos dias em que estivemos juntos serão como força incontrolável pros dias que eu, sem pensar em nada além de ti, vou correr pra rodoviária e entrar no primeiro ônibus que me leve até você, pra estar em paz outra vez. Porque do teu lado eu me sinto como quem sonha, como se precisasse de tãopoucoquasenada pra me sentir completa. Não tenho fome, não tenho sono, só desejo de te conhecer mais e de te contar cada detalhe da minha vida. E é entre os teus braços acolhedores que eu não me sinto só. Porque apesar de toda essa capa de meninaforteeindestrutível, eu sou boba demais, fraca e vulnerável quando você dispara um olhar na minha direção. O meu sorriso é tão mais feliz contigo e eu amo conhecer teu mundo, as ruas que você passa, as pessoas que você ama e o que você vê quando abre a tua janela ao amanhecer.

Eu quero ir contigo, quero ir até onde consigamos ir, porque também confesso e aceito que já não sou tão singular, e que já me perdi pra ti já faz algum tempo. Resolvi pular bem do alto dessa rocha e cair de vez nesse mar, e que a correnteza me leve pra esse lugar tranqüilo que eu tenho a impressão de ver de relance a cada vez que nos encontramos.

Que o céu nos tenha reservado um amanhã bonito.
Segura a minha mão com força e não solta.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Dos sonhos...

“Eu fiz bem lá no alto da montanha mais alta, mais distante das cidades, a casa-esconderijo das saudades. Pensei: nenhum problema mais me alcança. Nem cartas, nem notícias, nem desgraças, nem dívidas, nem falsas amizades vão ter nem ousadia, nem vontade, de vir me ver. Já nada me ameaça...”

Já sonhei que morava em uma casa da árvore no alto da montanha. Viver à sombra de uma espessa árvore era a maneira que eu havia encontrado de me manter a salva da luz do dia. Meu lar era minha zona de conforto, era o lugar onde eu podia ser quem era e brincar de ser quem não era, de vez em quando, sorrindo pro espelho. E ninguém precisava saber o que eu fazia quando estava apenas comigo, quando dançava de calcinha pelo corredor ou quando deitava com o rosto colado no chão do banheiro. Havia escolhido viver à sombra por não poder supor o que a minha própria luz poderia atrair para mim. Eu ia envelhecendo junto com os galhos da árvore que me sustentava e ficava cada vez mais só. Tinha medo de estender a mão, de me reerguer, de seguir em frente. E só me restava viver à sombra dos meus sonhos, de meus mundos fantasiosos, da minha zona de conforto. E acordava, muitas vezes, entediada com a perspectiva de mais vinte e quatro horas previsíveis cheias de contas a pagar, horários a cumprir e faixas de pedestre para atravessar. E andava pelas ruas, acompanhada de minha própria sombra, sem sequer olhar pros lados, - como robô de algum filme futurista -, e não me atrevia a sair do roteiro que eu mesma escolhera para encenar. Porém, tudo o que desejava, era que alguém, em algum momento, esbarrasse em mim, derrubasse as certezas que carregava e me ajudasse a recolher o que havia ficado caído no chão. Sonhava que alguém, algum dia, iria realmente reparar em quem eu era para além de minha zona de conforto; que excepcionalmente se importaria comigo, por saber que para além das sombras que exibia, existiam as luzes que insistia em esconder.

“...Mas, eu só percebi quando era tarde, depois que eu acionei os meus alarmes, depois de por a tranca no portão, que eu me tranquei sozinho com o inimigo que vai passar a vida aqui comigo, vivendo do meu medo e solidão.” [A casa na montanha - Leoni]

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Das Confissões.

Nunca esqueço um rosto. Acasos me extasiam.

Namorado meu tem que me dizer meu bem. Tem que me entregar flores roubadas e introduzir-se feito sol dentro do corpo, o sol quando fica na pele mesmo quando já é noite. Eu gosto do mel no favo, do amargo no fundo do doce (o amargo permanece mais), do agridoce. Eu me protejo do amor. Prefiro o lado oposto, o da chama silenciosa na guerra. Sou chorona, embora não pareça. Sensível com as palavras - elas tanto me curam quanto me desapontam facilmente, no mesmo grau-. Não sou de tristeza na frente dos amigos, acredito que ela contagie. O mar me atinge e vai direto ao peito. Eu sou é de abraçar.

Derrubo coisas, esbarro nos móveis, tropeço nos meus próprios pés. Sempre me encanto de repente. Vermelhos são meus vestidos, meus cadernos, minha flor preferida. Minha felicidade é vermelha. Meu riso faz um estalo de negócio quebrando por dentro. Gosto de ficar no escuro e no silencioso, por vezes. Coisas pequenas me doem mais. Prefiro declarações de amor imprevistas (às quatro e meia da madrugada). Vento nos cabelos me parece afago. Acho Miosótis uma flor linda, significa amor sincero, fidelidade. O lugar mais longe em que já fui é: dentro.

Meus olhos me traem. Meu cadarço sempre está desamarrado. Som de violão me emociona. Não me interesso por pessoas sem dúvidas na vida. Já fugi da escola para matar aula. Já torci desde o dedo mindinho da mão até o tornozelo, - várias vezes-, no basquete. As únicas coisas que herdei de minha mãe, que vão além da aparência, foram: o amor pelo mar, olhar as nuvens, o arrependimento, a precipitação em algumas coisas, e um riso.

O resto não, a menina saiu ao pai. Meu envoltório é de papel seda discreto, neblina sem nada dentro. Prefiro ciriguela. Estou aprendendo a chorar em público. Acendo luz elétrica com os olhos. É na chuva que eu gosto de dançar. Meu coração eu acho que já desceu para os pés, de tanto partir. Sou mais de rio que de mar, para o banho. Mais de mar que de rio, para os olhos. Às vezes mais de silêncios, às vezes mais de palavras. De todas as coisas, prefiro as usadas. Quando pequena roubava flores de canteiros públicos, mas hoje entendo que é mais bonito, para as duas, eu só olhar e admirar.


Sou pontual. Amor para mim não se destrói com o tempo, vem com ele. É o tempo, coisa para se compreender depois com os olhos distraídos, sem saber exatamente o momento em que se cala, mas sentindo o coração doer pequeno com esse calando-se contínuo. Sem saber onde termina, nem se começa, ou se volta, ou onde, alguém sabe para onde? Amor faz ondas com o ar ao meu redor, ele nunca sabe se quer entrar ou sair, mas é sempre desesperadamente.

Eu nunca me curei da minha infância. Acompanho desconhecidos na rua e me perco. Leio dedicatórias em livros dos outros, escrevo uma no caderno. Estranhos adoram me abordar dentro do ônibus. Crianças me oferecem bala na calçada da minha casa quando estou triste. Quero ter filhos gêmeos. Gosto de ver cachorro se espreguiçando. Gosto de gente que me pede afago, principalmente se abaixam os olhos para me pedir.

Eu sou feita de saudade. Qualquer coisa abrindo-se é mais bonita. Para mim, a palavra mais contagiante de todas é travessia. Sou de segurar com força. Sempre amei por felicidade.

Sou transparência em fogo brando, mexendo sempre, como para calda de pudim. No final, sempre cristaliza doce uma aleatória figura de açúcar, que a gente entorna num copo cheio de água. E transborda.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Amigos blogueiros, blogueiros amigos.

Sofro abalos
Sou tomada por terremotos imprevisíveis
Derrubam tudo e então algo vem e me reconstrói com meus próprios cacos
Sou tomada por mãos de anjos indescritíveis
Não me abalo



Ficam os agradecimentos a vocês também. Pelas palavras nos momentos bons e ruins, os emails, as conversas no MSN, as letras e melodias, o entusiasmo, o elogio, o me fazer crescer dia-a-dia, e etc, etc, etc...
À Intense, que você regue-se sempre, flor. Sua semente é linda e tenho certeza que você vai desabrochar em mil pétalas. Que você nunca deixe de ser tão você nas palavras quanto você é.
Rafa, sua doçura e delicadeza são um alento, brisa fresca no deserto que é a existência de tantos seres áridos com quem esbarramos por aí.
Alan Salgueiro, você e sua coleção de afetos salpicados e de palavras encantadoras que têm me enfeitado a vida, embora esteja aqui em pouco tempo.
Vanessa, que vem lá do iniciozinho do Labirinto, é a própria essência em pessoa. Que você nunca perca esse dom com as palavras, moça, embora eu saiba que tenha tantas outras coisas ricas aí dentro de você.
Cafeína, que embora eu converse pouco, percebo que tem um coração dos grandes. E apesar das primeiras impressões serem as que ficam, dessa vez a segunda prevaleceu, e me fez perceber o quanto é bom se dar um chance.
Ni, que começou com um presentão de ter textos meus no seu blog, e que vem me encantando cada vez mais, dia após dia, com seus rastros.

Nessa rede, o fio às vezes vira nó, outras vira laço, outras ainda vira corda bamba, mas o melhor é quando conseguimos usá-lo para tecer histórias de carinho. Esse Labirinto ao abrir suas portas tem me revelado surpresas preciosas. A Mel, a Gabriela - e seus conselhos-, a Andréa, a Paula -que vem chegando agora e já está me encantando com suas palavras-, a Thaís, o Rômulo - que já vem de carnavais antigos-, a Katarina - e seu sentimento dominante-, e a todos os outros também. Obrigada, queridos, foi muito bom encontrar vocês. O tempo pode ser pequeno, mas o prazer da companhia de vocês já é enorme, acreditem.

domingo, 27 de setembro de 2009

Porque a esperança não morria. Ela nunca morria.

Acredito que foi a sua capacidade de me deixar feliz em questão de segundos, ou o caminhar despreocupado, o piscar de olhos um tanto lento, o sotaque, a voz firme e arrastada como de quem a qualquer momento vai soltar um riso ainda que a situação seja das mais desapropriadas.

Acredito que foram os olhos cinza e doces que, de tão profundos, me faziam por vezes tremer e temer. Foi o jeito como agarravas as minhas mãos sem se importar com nada mais em volta no mundo inteiro.

Deve ter sido a maneira em que te apoiavas no meu braço esquerdo pra dormir o que me faz querer-te tanto, mas tanto, a ponto de doer a cada vez que eu falo contigo e tenho que te deixar do outro lado da linha, da ponte.

Talvez tenha sido a tua maneira de me ensinar tuas palavras e aprender as minhas, teu jeito de sorrir. A maneira de me fazer confrontar a mim mesma pra eu perceber verdades importantes. Esse teu sorriso rouco que não me deixa te esquecer, e o teu interesse por um par de coisas minhas que eu mesma julgava desinteressantes.

Deve ter sido o teu jeito de me olhar com sua íris brilhante pela manhã, quando a beleza produzida se esvai por completo e só fica a humanidade, ali exposta.

Foram coisas assim, e outras coisas que segues sendo, o que me faz largar tudo e ir ao teu encontro. Eu atravesso o mundo por um fio quando a saudade aperta. São coisas assim que te tem feito tão amável a ponto de me aquecer o peito só de pensar em não encontrar mais o teu abraço no meio da semana, quando a minha esperança estiver verde lodo. De não encontrar a tua força e o jeito de como enfrentas a vida de forma crua. De não encontrar a tua esperança naquilo que é evidente, e o jeito como me olhas - e me paralisa a alma - quando ninguém vê. Porque eu amo a verdade que vive em teu olhar, amo a tua perseverança e esse tanto de coisas até então impossíveis que eu encontrei quando te conheci. E te digo que não espero nada além de um amanhã tranqüilo e que eu sinta calmaria toda vez que pensar em ti. Quanto a ti, que sintas calmaria quando pensares em mim. E sim, quero ser quem você recorda quando tem a certeza de que não está só.

O que fica é esse gosto doce, e umas gotas de ácido por medo de que tanta notícia me faça sucumbir por trás de uma cortina de fumaça negra, mas não. Ficam as lembranças dos dias em que sumíamos do mundo inteiro e o mundo então era só você e eu, e essa expectativa no meu peito de que as semanas vão passar bem depressa e que poderemos estar de mãos dadas outra vez, chutando o mundo, rindo da vida e distraindo o tempo. Fica a esperança verde árvore, como a tua cor predileta. Fica tua preferência pelo refrigerante de laranja e a minha pelo “te-olhar-enquanto-matas-a-tua-sede”. Fica a noite linda na praia e teu rosto gravado na minha memória de todas as vezes que eu te olhava pasma e você não entendia o porquê. Ficam os filmes que vimos e os tantos que fizemos planos para ver e que ainda não conseguimos. Ficam as músicas que te vi dançar à tua maneira, e a minha timidez quando me pedias para te acompanhar. Fica tua fascinação por livros, letras e melodia. Fica aqui comigo o teu cheiro e a espera para o dia em que voltares. Fica Leoni cantando “Canção Pra Quando Você Voltar”, enquanto esse tempo não chega. Fica tudo o que eu não sentia e que tu com teus encantos despertastes, depositando cor, depositando vida.

E eu não vou te buscar aonde eu sei que não vais estar, mas quando chegar o tempo de te ver de novo que esteja em ti a absoluta certeza de que eu estarei realmente feliz por isso.

Te desejo sorte, muita sorte.
Me desejo sorte, muita sorte, semelhante a que desejo a ti.
Que a tenhamos, então.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

"Continuo a pensar que quando tudo parece sem saída, sempre se pode cantar."

Vou te mandar uma carta de amor, uns presentes tipo poesia, para te embelezar e sanar qualquer um tipo de dor.

Ti: pó de poesia.


Se triste, risque o fardo e escreve no lugar da dor, ar.
"Equando a gente não sabe escrever? Faz o quê?" Rabisca, desenha, dança, conta uma resenha, canta, só não pode imitar a solidão, por favor. Reza, desabafa, muda o peso. Mundo preso é passarinho na gaiola. Leve com você os problemas, mas não os instalem dentro do seu corpo, nem da sua alma. Dentro assim, só o amor deve permanecer.

E se "essa doença não tem cura", se "esse mundo não tem jeito, só defeito", o negócio é se curar. Nós somos mais do que ansiedade, pontuações, loucuras: nós somos nossa própria cura.

domingo, 20 de setembro de 2009

Dos mares que nos cercam.

E novamente você me vem e me conta do mar aberto das costas de sua terra, do vento gélido que sopra nos invernos, sem nenhuma baía, sem nenhuma gaivota sobrevoando o cinza das águas. Invade-me assim e me leva para histórias ou caminhadas sem fim. Nesses dias o sol não se manifesta entre as nuvens, e lhe imagino então parado sozinho sobre a areia, o vento que bate em seu rosto, as mãos com os dedos roxos - engelhados de frio -, enfiados até o fundo dos bolsos, o vento e novamente o vento que bate em seu rosto, esse mesmo que me olha, raramente. Seu olho bate em mim e logo se afasta, como se em minha íris houvesse cinza ao invés uma borboleta diurna ou um arco-íris, como se em minhas pupilas houvesse uma faca, uma pedra, um gume. Seu rosto mais nu do que sempre, à beira-mar, com esse vento batendo e misturando seus cabelos e pensamentos, e eu sem saber o que se mistura agora quando seu olho outra vez desliza para fora e distante do meu.

Mas é exatamente quando a pedra ou faca no fundo do meu olho afasta o seu que lhe olho detalhado, e você nunca saberá quanto e como já conheço cada milímetro da sua pele, esses vergões cada vez mais fundos rodeando as sobrancelhas grossas que se erguem subitamente para depois se dissolverem em pêlos cada vez mais ralos. E tão disfarçada lhe espio que nunca me percebes assim, lhe invadindo como se através de fiapo, de cada poro, pudesse chegar a esse mais de dentro que me escondes leve, relutante, através de histórias como essa, do mar, dos exílios, das cicatrizes, e em tudo que me contas pensando, suponho, que é seu jeito de dar-se a mim.

Percebo que se escondes ainda mais, como se caso você me contasse de si negasse a possibilidade de eu lhe descobrir atrás e além de tudo que me dizes. É por isso que me escondo dessas suas histórias que me prendem cada vez mais no que não é você, tento fugir para longe e a cada noite, como uma criança receosa de pecados, punições de sonhos vingadores com espadas flamejantes, prometo a mim mesma nunca mais ouvir, nunca mais ter a você tão mentirosamente próximo.

Às vezes digo coisas azedas e de alguma forma quero lhe fazer compreender que não é assim, que eu tenho um medo cada vez maior do que venho sentindo em todos esses meses - e não se soluciona -, mas volto e volto sempre, então me invades outra vez com o mesmo jogo e, embora eu suponha que conheça as regras, me deixo tomar inteira por seus estranhos discursos, a juntar-se com seus medos que não decifro, a aceitá-los como um cão faminto aceita um osso descarnado, essas migalhas que você vai me jogando entre as palavras e os pratos vazios. Torno sempre a voltar, talvez castigada pelo seu olhar que não se debruça sobre nenhum outro assim como o meu, ou temendo a faca, a pedra, o gume das suas histórias longas, das suas memórias tristes, cheias de corredores escuros. Tornarei sempre a voltar porque preciso desse osso, dos farelos que têm me alimentado ao longo deste tempo, e choro sempre quando os dias terminam porque sei que não nos procuraremos pelas noites, quando o meu perigo aumenta, quando meus olhos compenetram na sua lembrança de cada vez que me procuras e me tomas. Contudo me enveneno mais quando não vens, e ninguém então sabe de mim, parada feito velha num resto de setembro, escurecida pela sua ausência. E me anoiteço ainda mais quando estás presente e outra vez me atacas e me arrancas de mim, me desviando por esses caminhos conhecidos, onde atrás de cada palavra tento desesperada encontrar um sentido, um código, uma senha qualquer que me permita esperar por uma vereda onde não desvies tão rapidamente os olhos, onde sua mão não deslize tão passageira pelo meu braço.

Eu bem sei de como tenho tentado me alimentar dessa casca que chamamos de pequenas esperanças, enquanto murcho feito animal alimentado apenas com água, uma água rala e pouca, não essa densa, espessa e agitada do mar que você me falou.

Só quero que a noite nos arranque inesperadamente e definitiva dessa mentira gentil onde não sei se decididos ou por acaso afundamos pouco a pouco, bêbados como moscas sobre o açúcar, melados de nossa própria cínica doçura acovardada, contaminados por nossa falsa transparência, encharcados de palavras e literatura, e depois nos jogue completamente nus, sem nenhuma história, sem nenhuma palavra, nessa mesma beira de mar das costas da sua terra, e de novo então você me vem, me chega, e me invade, e me toma, e me pede, e me perde, e se derrama sobre mim com seus olhos sempre fugitivos, e abres a boca para libertar novas histórias, e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteira nas coisas que me contas, e assim calada, lhe mastigo dentro de mim, até que o não-feito acumulado durante todo esse tempo cresça feito célula cancerígena para, quem sabe, explodir em feridas visíveis indisfarçáveis, flores de um louco vermelho na superfície da pele.

E enquanto você me fala, e me prende, e me envolve, e me fascina com sua voz sempre baixa, de estranho acento estrangeiro, penso sempre que o mar não é esse denso escuro que me contas - sem palmeiras, nem ilhas, nem baías, nem gaivotas-, mas outro mais claro e verde, num lugar qualquer onde é sempre verão e as emoções limpas como as areias que pisamos, não sabe desse meu mar porque nada digo, e temo que seja outra vez aquela coisa piedosa, esfomeada, as pequenas esperanças, mas quando desvio meu olho do seu, dentro de mim guardo sempre seu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão entrelaçados que seria impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso. E vagarosamente falas, e vagarosamente calo, e vagarosamente quebro, e vagarosamente falho, e vagarosamente caio cada vez mais fundo, e já não consigo voltar à superfície, porque a mão que você me estende ao invés de me elevar me afunda mais e mais enquanto dizes, e contas, e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses, e me cegasses, e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim, nem agora, nem aqui.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Amor e afins.

"Não me venha com meios-termos, com mais ou menos ou qualquer coisa. Venha a mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar".

(Caio F. Abreu)


O Amor pode ser um pequeno barco salva-vidas para a mocinha que, sem saber nadar, cai dele num mar furioso. Pode ser também a brisa fresca que seca a testa suada do viajante no Caminho de Santiago, e o diz: "Você consegue!". Pode ser uma nascente escondida no meio de um deserto. Um estou-contigo-até-o-fim, talvez, num mundo tão vazio de ombro-amigo. O Amor pode ser contentamento. Sa-tis-fa-ção. Seguramente digo que é Felicidade.

E de todas as hipóteses e dos “pode-ser”, algumas certezas reúno em mim:

O Amor tem o aroma de quem tanto quero, é o sorriso embrulhado nas palavras doces que ele me diz. É a certeza de que o amanhã nos encontrará de mãos dadas. É a confiança de o encontrar me esperando no banco do parque com borboletas no estômago. É esperança-verde-árvore ainda que não haja sinal de chuva e que a terra esteja seca. É oferecê-lo meus versos mais bonitos, meus adjetivos, minhas concordâncias tentadas – e não só em papéis, mas através de gestos e de todos os passos que insisto em dar. O Amor é sorrir o vendo me mostrar como o dia acordou bonito, ainda que esteja nublado onde estou. É cantar pra ele as minhas melodias mais sinceras, mesmo que nem sempre ele esteja ouvindo. É lembrar da sua voz doce no final da manhã, e sem perceber, adoçar o macarrão pensando nas razões que tenho pra o querer tanto bem.

O amor é essa mistura de cor-de-água-e-de-todas-as-outras-cores-juntas. É o que eu não sei dizer. É o que vem e não vai mais de mim, mesmo que ele
vá.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Do que eu preciso te falar.

“Veja você, onde é que o barco foi desaguar. A gente só queria um amor. Deus parece às vezes se esquecer. Ai, não fala isso, por favor! Esse é só o começo do fim da nossa vida. Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida que a gente vai passar...”

Eu preciso te dizer que as minhas intenções a seu respeito são as melhores, que eu nunca te magoaria e que eu preciso que você acredite em mim. Eu preciso te dizer que não esperava que você fosse me invadir o peito sem pedir permissão, sem ao menos fazer um contato, sem deixar que eu visse ou tentasse impedir a tua passagem: você entrou e se sentou em um lugar onde quem se senta não se levanta.

Você precisa saber que algumas coisas, ainda que não pareça, ainda estão em fase final de cicatrização, apesar de já não verter sangue algum, - só algumas lembranças que me deixaram uns reflexos mal feitos, e que às vezes me fazem dar ou deixar de dar passos-. Eu sei que não pode ser assim, eu sei – questão de tempo. Eu preciso te dizer que não adiantou temer e me conter. E preciso te perguntar: como foi que você me roubou pra você?

Eu quero que você saiba que sinto tanta, mas tanta vontade de te levar de alguma forma até o meu amanhã, o meu próximo ano, e o outro, e o outro, e mais quantos estiverem dispostos a vir. E quero que você saiba que os teus olhos me faziam almejar isso cada vez mais, com mais intensidade, a cada vez que você os fixava nos meus, e sorria. E eu já não quero desviar os meus olhos por medo de cair de vez nas tuas mãos, porque eu já não tenho armas pra lutar contra você. Eu quero te dizer também que quando você deitava no meu braço esquerdo, perto do meu peito, pra descansar tua alma, eu me sentia completa; e que depois disso tudo eu não seria infeliz se o fim desse preenchimento precisasse ser uma conversa de botas batidas.

“...Veja você, onde é que tudo foi desabar. A gente corre pra se esconder e se amar, se amar até o fim, sem saber que o fim já vai chegar. Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga, já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas não ter o seu lugar...”

Eu quero te dizer que já fazia tempo que o meu encanto não funcionava e que os meus olhos não brilhavam tanto, e que foi só você chegar pra que tudo voltasse a crescer e eu recuperasse esse fôlego de jovem que toma água da fonte. Mas tenho que te confessar também que eu morro de medo de te dizer essas coisas tanto quanto morro de vontade de te dizer tudo isso e mais, agora mesmo.

Eu quero te levar adiante, e quero te dar todo o valor que te cabe. Quero te sentar nos lugares que você merece sentar-se e te dar a atenção e o respeito que você merece. Quero aprender a interpretar todos esses teus labirintos, teus cinzas e todas as coisas que você me diz e que me deixam forte, forte, forte – e fraca de tanto querer. Quero que você perceba que abri espaço agora, e que você pode se acomodar e ficar até o dia que eu não vou me atrever a dizer qual é.

Todos já estão dormindo. Só em mim que a saudade não dorme.

“...Abre a janela agora, deixa que o sol te veja, é só lembrar que o amor é tão maior que estamos sós no céu. Abre as cortinas pra mim que eu não me escondo de ninguém, o amor já desvendou nosso lugar e agora está de bem.”

Confia em mim. Aperta a minha mão bem forte e pula comigo daqui.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Descontraindo em: Excesso de loucura.

Queria dar o mundo para o mundo, não posso, dou cores para o seu, então.


- Vou fazer uma poesia assim, como quem quer viver mais um dia para sentir o frescor do amanhã, amanhã. Vou fazer uma rima sem sina, sem destino, sem prazo de validade. Eu vou, mas se eu não voltar, você me perdoa?

- Não. Não perdôo. Tem que voltar.

- Eu volto se você prometer se esforçar para ser feliz, se você disser que quer um pouco mais da primavera em seus poros e que a velhice é válida mesmo com as rugas e toda flacidez. Se você vir que vale o sol, o céu, as estrelas, a lua. E por falar nela, você já viu a lua hoje? Está uma gestante.


- Eu costumava dançar com as estrelas, antes das cores se desbotarem, antes das cores virarem água... Eu conheci uma claridade imensa e mansa. É inconveniente ter estrelas no olhar, é sim. Preciso de algumas para colocar na minha mente. É justo ter estrelas na cabeça, eu acho. Elas têm que ficar em um lugar acima de nós, ou acima dos nossos corações que já estão em nossas mãos. Saudade. É uma das palavras que deveriam ter um gosto. Páginas velhas, talvez. Páginas velhas e amarelas de saudade.

- Está vendo aquelas bolhas? São as lembranças... As cores que viraram água, a dança com as estrelas, as estrelas na sua mente - brilhando e vindo até os seus olhos -. É mágico ter estrelas no olhar, é sim.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

[abre parênteses]

Tem um ditado Zen que diz que uma vez um homem estava triste e foi procurar seu mestre, e o mestre disse “vai passar”; e aí, um tempo depois, ele chegou ao mestre e falou “Mestre, passou minha tristeza, agora estou muito alegre!” aí o mestre olhou para ele e disse “vai passar”.

Então, na verdade, a vida é isso. São ciclos. A alegria passa, a tristeza passa, e vem a alegria de novo e ela passa, e vem a tristeza. A nossa vida é isso o tempo todo. Então, é importante acreditar que o tempo tem esse poder de fazer passar e acreditar que enquanto você está na alegria você tem que aproveitar isso com muita plenitude porque também pode passar. E eu acho que é esse o segredo da vida, você entender que o que você tem é o dia de hoje e viver um dia de cada vez. Isso pra mim é um grande aprendizado e um grande exercício que eu venho tentando fazer diariamente. “Eu estou vivendo um momento difícil agora”, “eu vou viver uma coisa nova”... Então é um dia de cada vez. Hoje nós vamos dar conta, amanhã nós vamos dar conta também, mas é muito mais difícil pensar na vida nessa extensão enorme de amanhã, de depois, de futuro.

[fecha parênteses]

domingo, 6 de setembro de 2009

O caos chegou sem avisar.

Meus queridos,

Ainda não tenho condições de escrever o que aconteceu comigo nessa manhã. A minha casa foi invadida por dois homens armados que renderam meu pai - que é hipertenso -, minha mãe e um amigo da família, além de sair acordando todo o restante da casa com uma arma apontada para a cabeça pedindo os pertences, inclusive eu, minha irmã, irmão, e cunhada – que dormiu aqui esta noite -. Estamos bem fisicamente, mas sem telefones celulares, bolsas, dinheiro, alguns outros pertences de enorme valor sentimental, além do carro da minha irmã que serviu pra que os assaltantes fugissem. Estou muito abalada psicologicamente e só agora estou começando a acordar realmente para o que aconteceu. Ainda não dá pra falar muito. Mas pensem em mim com bondade, vou precisar dessa energia. Beijos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

100.


Ontem eu estive mal. Me senti fraca, cansada, cansada de saber que a porta está ali há tanto tempo e que eu continuo batendo de cara com ela, cansada do quase, medo de um novo quase na minha vida. Ontem minha coragem que eu tanto vinha exaltando estava lá embaixo, pisoteada. Mas não quis vim aqui jogar isso tudo só pra me sentir bem, quis sim gritar, falar com alguém daqui, mas acabei na frente do espelho brigando comigo.

É bem verdade que aqui busquei um porto e o fiz, de fato, um grande e seguro porto. Fiz confissões à meia lua e me expus. Comecei do nada, escrevendo indiretamente, até a maturidade começar a me definir, até começarem a me pedir um pouco mais de mim (não é Intense?), e daí eu começar a me revelar, me fazendo continuar, aos poucos, em desenvolvimento. Comecei de uma dor, abri e fechei portas, entreguei a chave ao tempo, pedi de volta.

Esse é o Labirinto que me ensinou tantas coisas, e continua, apesar da falta de energia por vezes em seus corredores. Ensinou-me a lutar pelo que tanto queria. Mostrou-me que o bom da vida mesmo é o compasso ardente das tentativas, mesmo que nem cheguemos a atingir o tão desejado sonho. Porque sonhos são tão efêmeros quanto à vontade lúcida de nada disto estar acontecendo. Mas está. Fato. Eu tenho sonhos. Tenho um próximo, tão próximo que se estico a mão quase posso tocá-lo, e o meu medo é de deixar que termine no quase. Não há como negar que coisas mudaram. Mudaram aqui, ali ou em qualquer lugar. Mudaram sem meu consentimento.

Devotei ao Labirinto o melhor de mim e dele fiz palanque. Entoei versos e declarei vida. Falei de verdades e esperei calmamente por elas. Vi o antes se tornar real e vi novamente o evaporar disto tudo. Vi, ao som de uma música, muitas coisas ditas. O anonimato que se define e a definição que se afasta. Fiz loucuras e conquistei quem nem se quer me via. Vi um agosto intenso de corredores e olhares, e de marcas nunca mais iguais. Mas muitas vezes eu não consigo vim aqui quando preciso e jogar tudo em cima dele, em cima de vocês.

Eu fui eu até hoje... Fui verdadeiramente esta tal Yasha. Inteira e lutando abertamente por ser natural. Fui eu, e desafiei os limites que até então minha mente ditava.

Foram momentos de evolução. Foi um processo de maturidade na escrita, na forma de expressão, no jeito criterioso de comunicar desejos e na evidente sensação de que podia sempre mais.

No início tudo parecia muito casual e a intenção nunca explícita. No começo, bem lá no começo, eu achava que era impossível chamar atenção num blognovoqualquerperdidonaimensidãodotodo, mas num processo de 'acreditação' as pessoas foram chegando, batendo na porta e devagar entrando.

Comecei a ver pessoas dispostas a me seguir... Dispostas, antes de tudo, a compartilhar um sonho. Venho encontrando amigos de verdade aqui, de sentir saudade - no lado mais bonito da palavra -, pessoas incríveis, num mundo, às vezes, tão fútil. Encontrei outros lugares cheios de intensidade, que me mostraram que o caminho estava certo. Encontrei pessoas, que assim como eu, não se furtavam em contar seus sentimentos.

Sentimentos... Ah os sentimentos tão vastos e tão fortes à carne. Dilacerados em vermelho bordô, emanando vida viva... Pendurados à feira municipal. Compra-se, vende-se, doa-se... Sentimentos ditos em palavras, em versos, em fotos e em músicas. Sentimentos, antes de tudo, sentidos. Sentidos de dor, de alegria, de comunhão, de desejo, de orgulho, de glória, de contemplação, de espera...

Sentidos de gente. Gente que fala e que pensa. Gente que comenta e me faz tanto crescer. Gente que vem aqui gastar um tempo precioso lendo, entendendo, pensando e contribuindo com palavras de incentivo, de afeto, de concordância ou não... Mas contribuindo.

Contribuição nunca entendida por alguns, nunca ouvida do jeito que tanto contei. É bem verdade que meus escritos nunca foram tão óbvios... Mas é aí que está a grande essência deste espaço. E isto em si é mágico. Magia das boas... Das mais apuradas. Magia das palavras de luta.

Lutar por sentimentos é tarefa para poucos, e isto eu tento mostrar a cada dia. O fiz, o disse, o senti, o vi, o vivi... Eu tento jamais fugir disto.

Ao longo desse tempo todo, o Labirinto da minha vida nunca me cobrou nada. Esteve o tempo todo a me ouvir. Tentei fazer dele um confessionário virtual. Sem medo de ser julgada desenhei aqui verdades ditas outrora a poucos. Andei ao longe num processo pedregoso do meu ser. Mas às vezes eu travo. Paro em frente à porta, mas não bato.

Às vezes eu tenho vontade de ir, e ir é tão vasto que eu nem me pergunto pra onde. Ir talvez onde eu nem pensaria ir... Ir talvez onde o novo me pega pela mão ou só me chama ali na esquina. Ir e levar comigo o intangível, o intocável, o que não posso jamais excluir do peito. Levar comigo a minha trajetória e a minha essência. O que tantas vezes me acode e tantas outras me dá medo. Medo do quase. Medo de um novo quase na minha vida.

[Centésima postagem. E prometo que evitarei outras tão longas].

domingo, 30 de agosto de 2009

Ela diz que é preciso acreditar.

Às vezes ela acha que sabe das coisas que ele nunca disse e se distrai em teorias breves e coloridas. Ele preenche espaços vazios com discursos caretas, diálogos de uma só cor, tensão apaixonada. Ela não sabe muito sobre espaços vazios. Ele sorri. Ela observa. Ele sabe dançar. Ela o abraça em movimentos leves. Ele antecipa os dias. Ela adia compromissos. Ele fez meia dúzia de escolhas erradas. Ela tenta resolver os erros que não são dela. Ele acha que sentir saudades é cafona. Ela acha que o amor é verbo mesmo quando substantivo. Ele acha que o amor é predicado. Às vezes ela acha que sabe das coisas...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Um dia de silêncio, vó.

"...Pedaço de mim, metade afastada de mim..."

Nove meses, vó. Em nove meses a gente faz outra vida, mas não resolve a morte.

Sabe, vó, às vezes me acho parecida com os elefantes. Eles preferem se isolar quando estão tristes, deve ser para não incomodar, para não contagiar os outros da manada. Nas horas tristes, vó, eu não digo nada. Ponho um silêncio bem alto no Mp4 e começo a escrever bem baixinho. (Chorar até que eu posso, desde que não me embace a vista.) Só não paro: tristeza é pra escrever. Tomo posse dessa dor que é toda minha. Até que passe e venha outra mais bonita.

"...Pedaço de mim, metade adorada de mim..."

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Cinza e sol.

"Já sonhei nossa roda gigante, esconde-esconde em você, já avisei todo ser da noite que eu vou cuidar de você, vou contar histórias dos dias depois de amanhã, vou guardar tuas cores, tua primeira blusa de lã. Menino, vou te guardar comigo..."

Pode ser leve e ter sol aquele raio que faz o arco-íris na garoa. Pode ser breve e ser só aquele beijo que faz a tua vida ser boa. Pode ser louco, e talvez, quando a razão se distrai e vaga por aí à toa, pode ser pouco essa vez, mas suficiente para que eu seja a pessoa que pinta o seu cinza de sol, que acende a luz do farol, que embebe o teu coração para que ele chova no abraço da minha mão.

"...Teu sorriso eu vou deixar na estante para eu ter um dia melhor, tua água eu vou buscar na fonte, teu passo eu já sei de cor. Sei nosso primeiro abraço, sei nossa primeira dor, sei tua manhã mais bonita, nossa casinha de cobertor. Menino, vou te casar comigo... Vou te guardar comigo..."

Pode ser brasa ou carvão, pode ser sim que vira não, pode ser casa ou galpão, ou ser até dormir no chão. Pode ser gelo ou zelo, desvelo, paixão. O que importa é que sempre pode ser, e poder ser é que me dá inspiração para pintar seu cinza de sol, acender luz, ser seu farol, embebedar seu coração para que ele dance solto na palma da minha mão.

"...Sou teu gesto lindo, sou teus pés, sou quem olha você dormindo. Ô menino, guardo você comigo. Menino, guardo você comigo..."

Pode ser nuvem e passar, pode ser brisa e voar, pode ser terra e brotar. E poder ser é minha asa, e meu corpo é tua casa, o meu tom é tua cor, arco-íris quando chove a tua dor, que pinta o seu cinza de sol, acende a luz, é teu farol, que embebe o teu coração para que ele chova no abraço da minha mão.

"...Nosso canto será o mais bonito, Mi Fá Sol Lápis de cor, nossa pausa será o nosso grito que a natureza mostrou. A gente é tão pequeno, gigante no coração, quando a noite traz sereno a gente dorme num só colchão. Menino, vou te sonhar comigo. Menino, vou te sonhar comigo..."

sábado, 22 de agosto de 2009

- E se você ficasse dessa vez?


Quantas vezes mais terei que retocar a maquiagem até você chegar? Às vezes eu olho embaixo da cama, atrás da cômoda, dentro da geladeira, nas gavetas da sala, quem sabe eu te encontro, no lugar certo, só pra ser mais feliz, bem assim por acaso...

Quantas vezes mais as estrelas cadentes vão me virar a cara negando um pedido? Às vezes eu rezo, acendo uma vela, faço uma prece, jogo minha fé pela janela, depois me arrependo, vou lá, pego de volta, toda encharcada, estendo no varal, vento que seca, tempo que passa, e você, nada...

Quantas vezes mais vou duvidar da sua existência? Será que estás o tempo todo aqui, como um fantasma, a me acompanhar, sem que eu perceba, na minha cegueira, tua presença invisível, espalhada pela sala, espírito sarcástico, acenando pra mim, e eu, nada...

Quantas vezes mais você vai gritar mesmo sabendo que eu não posso te ouvir? Canta uma música, faz gestos, faz mímica, tenta qualquer coisa, eu preciso te ver, não desiste de mim, fica um pouco mais, puxa uma cadeira, senta, olha umas fotos, pega uma bebida...

Quantas vezes mais terei que me destruir para te encontrar? Eu ando pela casa, troco os móveis de lugar, mudo a cor do cabelo, jogo as fotos pela janela, depois me arrependo, vou lá, pego todas de volta, estendo no varal, amareladas, tempo que mancha, vento que passa, e você, quase posso te ver, em cada uma delas: perto de mim fazendo careta, sorrindo atrás de uma árvore, correndo por entre nuvens num dia de sol...

Quantas vezes mais terei que lembrar a mim mesma onde foi que eu guardei a minha felicidade? Às vezes eu assobio enquanto penduro a fé no varal, me olho no espelho enquanto você se esconde do tempo num porta-retrato, cativo o prazer dessa constante busca, fecho os olhos aos acenos e continuo procurando, nos lugares errados, só pra ser mais infeliz, bem assim por acaso...

“Até ontem tudo estava aqui, casa, sol, felicidade e nós, mas aconteceu e eu nem percebi quando tudo se perdeu de mim. Quadros, móveis, a televisão, nossas fotos, seu amor por mim, devem estar aqui n'outra dimensão, as coisas somem sem explicação...”

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O fim que nos persegue desde o começo.

Está ali todos os dias. Infinito. O adormecer irresistível que nos mata temporariamente, o despertar que é a insistência da vida, o coração que bate sem ser mandado, o ar que sabe como sustentar o corpo... Ignorantes que somos de como o que é vivo nos domina cada célula, e cada célula morre sem aviso ou permissão, o tempo todo. Habitamos um corpo que nunca é o mesmo. Não temos mais o corpo com que abandonamos o ventre, não temos mais o corpo que foi ao primeiro dia de aula. Cabelos, unhas e pêlos crescem e são cortados continuamente. Líquidos entram e saem. Perdas e ganhos à flor da pele, que murcha e refloresce constantemente...

O que é o eu que permanece?

A árvore não deixa de ser a morte da semente, assim como a borboleta é o fim da lagarta. Mas nós nem sempre voamos, nem sempre brotamos. O que somos diante do que já não é? O que podemos ser quando algo deixa de ser?

Dor e alívio.

A vida insiste.
A morte insiste.
Você resiste.
Porque é infinito o fim, mas há sempre uma nova história começando depois da última página.

sábado, 15 de agosto de 2009

Acho que sábado é a rosa da semana.

E aí você chegou com tantos carinhos que deixou aqueles dias mais aconchegantes. Eu já disse que adoro quem sorri com naturalidade? Pois é... Quando o rosto se ilumina de forma sincera, tudo fica transparente, límpido. Não que eu esconda a melancolia. Os momentos de tristeza devem ser vividos até que estanquem, saciados. Tenho profundo respeito pelas minhas lágrimas, mas, como diz Caetano, minha risada é ainda mais reverenciada.

Hoje não quero lembrar da insistente falta de compreensão da minha mãe, do humor atravessado de algumas pessoas, nem da cabeça que ainda teima em doer. Quero dizer sim ao riso farto, à capacidade de ser solar, apesar das nuvens escuras que circundam nosso céu.

Agosto já está na metade e é um mês revelador. Acreditem.

sábado, 8 de agosto de 2009

Passos e impasses.

Se a sombra assombra, ascende e acende o sol no seu céu, chama a chama que mora agora nas entranhas dos teus vulcões, a brasa que abrasará o frio rio que te percorre. Não corre! A dor adora o medo. Não corre! As sombras são (.) só assombração.

Essa semana foi de decisões. Minha mãe sempre me classificou como quem não sabe do que quer, “nunca soube”, (relacionado a profissionalismo), isso deixava minhas botas um pouco pesadas. Nessa semana me livrei dos meus medos do amanhã e decidi enfrentar. Enfrentar a inscrição do vestibular para Farmácia na UFRN, embora ninguém tenha me apoiado aqui em casa, me pedindo para mudar, para tentar uma coisa mais fácil, dizendo que era um curso muito difícil, muito longo, muito caro, e muito difícil de novo. Mas eu fui lá e cliquei em "Concluir inscrição".

E enfrentar mais uma coisa, não menos importante, pelo contrário, a que ponho agora em primeiro lugar no meu trajeto, a inscrição do vestibular para Medicina Veterinária na UFCG, um sonho que tinha desde criança, mas que nunca consegui ao menos arriscar, sempre tive receio por ser um curso difícil de entrar, muitas vezes cometi a burrada de dizer que não tinha disposição para estudar e passar em um curso assim, além que ser numa universidade conhecida pelo alto nível que tem. Também por precisar sair de casa para isso, mudar de cidade, morar só, perder a mordomia de casa; mesmo acreditando que uma hora ou outra temos que cortar nosso cordão umbilical e seguir pelo caminho dos nossos sonhos. Riram de mim aqui quando disse que ia fazer. Com ar de deboche, sabe? Disseram para eu acordar. “Serião”. Só ouvia os comentários na sala, na cozinha, em todos os lugares, ainda ouço. Há de se pensar que é mentira, mas não. Minhas botas mais uma vez ficaram pesadas, bem pesadas. Mas eu não disse nada, fingi nem ter ouvido, coloquei fones nessa hora, fones invisíveis que deram conta do recado e me fizeram respirar fundo, bem fundo, e contar até dez.

Sabe, eu não peço sorte (apesar de acreditar um tanto nela), nem ‘tudo vai dar certo’, porque acredito que nessas horas frases feitas é um saco, mas peço que independente de religiões ou crenças, que vocês peçam pela minha coragem, determinação, auto-estima, para que elas continuem no ápice, como estão. E eu vou fazer por onde minhas botas ficarem leves no final do ano, bem leves, ao contrário da consciência de alguns.

E sabe? Eu nunca gostei do fácil.

O olhar que vê além do óbvio não se acomoda na estrada dura da vida. Corre entre pedras como rio, criando percursos, se desviando por entre as brechas do impossível, sem jamais perder a fluidez. Flutuamos, flores ao vento. Algumas se perdem, outras rebrotam quando acham pouso em solo generoso. Tentamos concretizar o impalpável e tocar o invisível do que é sólido. Traçamos rotas e linhas e com elas fazemos nosso bordado, que tapa os buracos inevitáveis do delicado tecido dos dias.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mas não toquei com as mãos o azul que me tomou.

Eu torno a brilhar, nessa constelação maluca que é a vida. Aqui o meu Sol de Inverno brilha, e aquece o meu coração também.

Mas eis que as estrelas voltam a brilhar, numa tarde, numa manhã, numa noite, quando menos esperamos. Podem ser despertadas pela alegria de um telefonema (“você é maior que isso”), através da leitura de um poema ("seus olhos ao invés de verdes, deveriam ser vermelhos incandescentes"), ou apenas pela contemplação do tempo recuperado, feito dádiva.

Depois de dias e dias de Bridget Jones (sim, com muito sorvete de chocolate, drinks nos horários mais impróprios e choro na frente da TV), volto à rotina de minha “sitcom” meio sem graça, mas minha (e de mais alguns outros). Repleta dos tais erros e acertos de que tanto falo. Se antes havia o receio de me transformar em personagem, agora assumo o risco e escancaro os dados biográficos que quiser.

(É verdade que muita gente chega aqui pela primeira vez e resume tudo pelo texto do dia, (não só aqui, acredito), e isso me faz roer as unhas um pouco. Claro que tenho meus dias sim e meus dias não, e se você chega nos dias não... Bem, eu não posso fazer nada. Só quero dizer que não sou só dias não, pelo contrário, eu evito esses dias, já para isso aqui não parecer um livro de auto-ajuda “Quem mexeu no meu queijo”, que por sinal passo longe deles. Mas bem, isso foi só um comentário para que algumas pessoas possam rever seus conceitos, (quem sabe, um dia), e não julgar tanto por primeira impressão. Existem opiniões e Opiniões. Respeito cada uma, já o fato de concordar é outra história.)

Não me sinto mais atada a julgamentos alheios. Esse espaço volta a ser o que sempre foi: página em branco a ser preenchida com o que der e vier, desde os pontos de apoio que me transformam (sempre presentes) à última dor na consciência, ao último gole, último golpe. Pois é isso: apertem os cintos já que o piloto voltou a assumir o controle da própria situação. Quem sabe, um dia, chego a algum lugar?

Os espinhos? Sim, os espinhos existem. Mas não machucam a flor, não chegam a rasurar desenho tão bonito quanto o que tenho tentado esboçar nesses últimos dias. Acordar com uma voz linda cantarolando músicas antigas, te abraçando e te beijando de longe, de tão longe, chega bem perto, mas muito perto mesmo do coração selvagem dessa vida.

domingo, 2 de agosto de 2009

"...E o teu medo de ter medo de ter medo..."

Andava confusa. Com isso passei a confrontar meus próprios leões, frente a frente, e era capaz de olhá-los nos olhos. Há algum tempo eu não me sentia assim, mas é do tipo de coisa que nunca se esquece. Medo.

Ainda há um pouco da sua insegurança, sua fraqueza, em mim. Ainda há um pouco dos teus medos, suas incertezas. Ainda há um pouco da sua voz e das canções que você não cansava de ouvir. Ainda há um pouco de vida naquilo que você tocou.

Quando se está entre dúvidas e cansaço, quando o que te completa já está longe demais dos teus passos, quando ignorar fatos não comove, eu te busco no fundo do meu pulso cansado.

Ainda há um pouco de mim em você. Ainda há muito de você em mim.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

"Chorei três horas, depois dormi dois dias."


Para um coração que ficou frio: Cuidados. Isso mesmo, carinhos quentes, chá de erva cidreira. O desvelo de uma manta (cobrindo mãos e braços nevados), a intenção do bem guiando o olhar. A lenha crepitando na cabeça, trazendo os cheiros fortes de uma história que acabou: lavanda, angélica, gerânio. E assim vou vivendo, entre belezas reveladas pelas páginas de tantos livros, imagens de tantos filmes. Sons inusitados que sugerem outros temas nas músicas que fazem viajar, aqui mesmo, sentada na grama verde de tantos carinhos.

E aquela velha colcha de retalhos, necessária em suas estradas, que aquece o meu coração, é a testemunha viva de que o amor não acabou em mim.

sábado, 25 de julho de 2009

Se eu gritar de saudade, você me ouve?

Tive uma noite tão incrível ontem. Amigos cantando e tocando ali na minha frente, todo um ciclo de sentimentos... Estava tudo perfeito. Eu fui tão feliz, tão feliz. Dancei, conversei, sorri. Eu estava tão leve, tão plena... E hoje estou assim, tão ácida... Eu acho que é ressaca de felicidade. Eu não posso viver momentos, assim, de tanta euforia, que logo depois me dá uma tristeza funda e sem razão.

Hoje acordei sentindo sua falta. Deve ter sido sonho. Minhas noites andam longas, sono intermitente... Aquela falta de ar que, vez-em-quando, faz parte de mim. Saudade que rói por dentro, feito sede. Coração partido, como letra de bolero. Mas estranhamente, vem com a virada do tempo, uma calma.

Preciso de alguém que me proteja, que me traga uma rosa, que me chame de "meu bem", que leia a minha alma e me faça sossegar.

Vinte anos envolvida em cenas criadas por mim, sem direção. Pano de fundo de uma história maior que eu. Hoje lembro de tuas mãos firmes tocando as minhas, de leve. Recordo o violão, os planos de futuro, o receio de não dar conta de tantas fantasias...

Vamos em frente. "O primeiro amor passou, o segundo amor passou, o terceiro amor passou... mas o coração continua..."


Desejo de que os dias sem sentido passem rápido.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Happy birthday for me!

“...Eu conheço o medo de ir embora, embora não pareça, a dor vai passar. Lembra se puder, se não der, esqueça. De algum jeito vai passar. O sol já nasceu na estrada nova, e mesmo que eu impeça, ele vai brilhar. Lembra se puder, se não der esqueça. De algum jeito vai passar...”

Hoje é meu aniversário, e também, faz exatamente dez anos desde a morte do meu avô.

Eu era muito nova, tinha apenas dez anos, mas isso não impediu que eu sentisse tudo como ‘gente grande’. Lembro de cada detalhe daquele dia, minha festa já pronta que não teve... Me lembro de cada passo. Mas não quero lembrar dos momentos de dor. Prefiro recordar que ele se foi a partir dos meus braços. Se desligou desse mundo olhando pra mim, falando palavras desconexas, mas de alguma forma já livres do sofrimento. Isso me causa um impacto, mas é sereno ao mesmo tempo. Ele foi rápido demais, mas o período no hospital nos deixou importantes legados: generosidade, compaixão, cuidado com o outro. A coragem dele na guerra, nos pôs em vigília por dias e dias. E desse modo entendi melhor o sentido dessa aventura toda em torno do próprio eixo... Tenho perdido gente muito próxima, e vejo que a presença dos que ficam vai ficando cada vez mais importante e necessária.

Passei dez anos sem sair no meu aniversário. Nove, na verdade. Ano passado isso aconteceu, mas de forma rápida. Todos os anos eu ficava remoendo o passado, lembrando daquele dia de todas as formas. Esse ano eu vou fazer diferente.

É como uma renda, e uma rede de delicadezas é teia que suporta pesos inimagináveis. A disponibilidade para o abraço é porta. Gentileza é chave. Abro e atravesso.

“...Eu conheço o medo de ir embora, o futuro agarra a sua mão. Será que é o trem que passou, ou passou quem fica na estação? Eu conheço o medo de ir embora, e nada me interessa se pode guardar. Lembra se puder, se não der esqueça. De algum jeito vai passar.”

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Entre o riso e o choro só existe o nariz...

Que fazer, senão chorar, sorrir, depois chorar de novo e por aí vai?

Tênis pesados, com meias bem grossas. Meu pé mergulha numa poça funda de água suja. Fica completamente encharcado. Eu estou no palco, com tênis brutos e molhados, e não acompanho a coreografia direito. Exposta ao público. Ando assim. Uma tentativa de delicadeza, de pertencer com harmonia ao conjunto, mas os passos pesam, deixam um rastro sujo, o desconforto dos pés frios, o medo de errar o salto, a impossibilidade da beleza no mover-se. Ele perguntou se foi esse o sonho, mas não, era assim o meu estar acordada. Aquela melancolia persistente, de tentar passos leves carregando peso e inadequação, a falta de calor em alguma parte e a sensação de ter em si algo impuro. Não era uma dor grande. Era como estar úmida e haver uma fresta de vento frio nas costas. Como estar descansada e bela com um sapato impróprio, tentando manter a elegância caminhando sobre bolhas e unhas encravadas e calos e cãibras. Por que você não tira esse tênis?, ele disse. Nós, eu disse. Quem os atou?, ele disse. Nós, eu disse. Não o culpe, ele disse. Eu calcei sapatos de outro. Sabia que não eram meu número, que não serviam para dançar, que vinham de caminhadas em pântanos. Eu tentei piruetas na lama. Perdi as sapatilhas. A dança perdeu a graça. Agora havia o peso em cada passo, o rastro, a saudade de andar descalça, os pés cansados. Ainda tentava seguir a música sutil, mas sabia que algo em mim estava denso em demasia. Ainda tentava o salto, mas via a sombra da queda crescer. Por que você insiste?, ele disse. Nós, eu suspirei.

Uma revelação sempre abre portas, para quaisquer caminhos que estejam diante de nós, para qualquer estrada que queiramos seguir. E o que é vida, senão este salto para grandes dias? Pra voar ou nadar, só tirando os sapatos. Pro melhor chegar, tem que haver espaço.

sábado, 18 de julho de 2009

"...mas o coração continua..."

Ontem eu passei mal. Uma falta de ar que, vez-em-quando, faz parte de mim. Hipoglicemia. Foi forte ontem, muito forte. Eu tremia muito, parecia mais um ataque epiléptico. Tive medo, muito medo. Mas (apesar de) você veio até mim, me segurou, e todas as vezes que eu tremia com mais intensidade você me abraçava mais forte e fazia parar. Ficou comigo até eu conseguir dormir, até mais de quatro horas da madrugada. Deixou-me protegida, foi meu casulo, minhas palavras que faltavam, meu guia, e não tirou, um só minuto, os olhos de cima de mim.

É que eu peguei a contramão sem perceber, sabe? E aí os dias ficam confusos, nublados, doídos. Mas foram bons esses dias, assim desse jeito, sem muito jeito mesmo. Foi como te falei um dia, lembra? Falei que tinha rasgado a roupa enquanto atravessava a pé o vasto campo. Você me disse que o terreno estava minado, que eu corria o risco de... Aí eu disse: não. Enquanto te espero faço um rico bordado. Foi isso mesmo que eu disse? Já nem lembro. A música estava alta demais e resolvi apostar em outras garantias de sobrevida, resolvi não acreditar muito quando você prometeu "eternidade", "pra sempre" ou "nós dois". Aprendi que tudo é tão transitório, tão móvel, tão pouco palpável. Vamos combinar apenas isso? Eu, você, os anéis de saturno e aquela alameda imensa onde passei a acreditar no invisível dos dias. E onde, também, comecei a nos perder de vez.

terça-feira, 14 de julho de 2009

“Lembra que o plano era ficarmos bem...?”

"Tu não precisavas ser assim simpático. Não precisava ter esse jeito de falar. Não precisava ser tão carente. Não precisava saber meu nome, nem se aproximar tanto, nem existir tanto. Tu não precisavas estar ali. Mas tu és, fala, se aproxima, existe, e me olha de um jeito... Tão intenso que não precisava. Tão suficiente que não precisava."

Ouço os passarinhos. Eles continuam cantando, desafiando o som dos carros que passam nas ruas mais próximas. As coisas ainda não têm cor. Mas tua atenção me faz lembrar a cada momento que continuar é preciso...

E lembrar de você sorrindo e até chorando dá razão a esse sentido todo que vai se abrindo bem aqui, no meu peito. Acho que é assim, sem muitas tentativas de explicação, sem qualquer teoria espalhafatosa: você existe em mim. E por isso mesmo vou procurar fazer tudo bem feito, sem sombra de sacrifício, sem ruga na testa, sem dramas, apesar disso tudo transparecer. Só porque você existe. Desse jeito...