sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A Pedra.

Ela era feliz, em partes. Tentava explicar: "É como estar numa festa ótima, mas com um sapato apertado, sabe?" Ele não sabia, e lidar com aquela alegria tingida de desprazer era algo que lhe desconcertava. "Eu queria poder mover as janelas", ela dizia. Ele olhava pelo vidro da enorme varanda, via o mar e não entendia. Ela tentava explicar: "Queria um outro ângulo, outra paisagem, às vezes tenho vontade de quebrar as paredes para ter mais ar". Ele ia empurrando os dias com força, montanha acima, coração Sísifo, mas havia sempre uma manhã esperando lá embaixo e mais todas àquelas horas adiante. A pedra esperando para ser rolada morro acima novamente. "O que te falta?", ele perguntava, obviamente. "A falta", ela dizia. "???" Ela tentava explicar: "Me falta um pouco de falta, tenho tanto excesso que estou perdida aqui embaixo disso tudo. Queria menos, pra ficar mais fácil me achar, entende?" Não, a pedra lhe cansava antes mesmo de começar a empurrá-la. Na verdade, por que empurrá-la? "Não sei o que te responder, quero só a liberdade de perguntar, sempre tive tantas respostas prontas, agora quero a dúvida, quero o direito de interrogar, quero poder não saber, entende?" Ele nunca entendia. Na verdade, ele nunca a entendeu. A pedra lhe esmagava só de pensar nela. Por quê?
Ela nunca viu a pedra. Era isso.

2 comentários:

Daniel Medeiros disse...

O primeiro dia de aula foi bom. Já falo com todo mundo na sala. O pessoal é gente boa.

Mas sinto saudade do CDF. Eu sempre sinto saudade do passado.

Klinger Alan disse...

OOooo sensação boa.. que dá.. ler suas letras......