domingo, 1 de fevereiro de 2009

O Velho e o Moço.

"Deixo tudo assim, não me importo em ver a idade em mim, ouço o que convém. Eu gosto é do gasto. Sei do incômodo e ela tem razão quando vem dizer que eu preciso sim de todo o cuidado. E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz; Quem então agora eu seria? Ah, tanto faz! E o que não foi não é, eu sei que ainda vou voltar... Mas, eu quem será?"

Você é só um garoto e nem faz idéia do que estava dizendo. O que é natural, nunca saiu dessa cidade. Deves ser capaz de me resumir todos os livros de arte já escritos. Michelangelo. Sabe muito sobre ele. Obra, ideais políticos, relações com o Papa, orientação sexual, tudo! Mas aposto que não sabe o cheiro da Capela Sistina. Nunca esteve lá para olhar para cima, para aquele teto. Nunca o viu.

Se te perguntar de mulheres, me dará uma lista de favoritas. Até pode ter ido para a cama com algumas. Mas sabe o que é acordar feliz ao lado de uma?
É um garoto sofrido.

Se te falasse da guerra, era capaz de me vir com Shakespeare, "Outra vez ao mar, queridos amigos..." Mas nunca esteve numa. Nunca teve no colo a cabeça do teu maior amigo e o viu respirar pela última vez, te pedindo ajuda com o olhar.

Se falar do amor, certamente me recitará um soneto. Mas nunca olhou uma mulher se sentindo totalmente vulnerável, nunca conheceu nenhuma que te consolasse só com o olhar e te fizesse sentir que Deus tinha criado um anjo só para você, para te arrancar das profundezas do lnferno. E não sabe o que é ser o anjo dela, sentir tal amor por ela, e estar de tal maneira ligado que a apoiaria até que tivesse um câncer... Não sabe o que é dormir sentado, dois meses num quarto de hospital, para os médicos verem que a frase "hora de visita" não pode mais ser dada a você. Não sabe o que é sofrer uma perda dessas, porque só sabe quem sente amar alguém mais do que a si próprio. Duvido que tenha ousado amar assim tanto alguém.

Olho para você e não vejo um homem inteligente e confiante. Mas um moleque atrevido e se borrando de medo. Mas é um gênio, isso ninguém nega. Ninguém percebeu a complexidade que há dentro de você. Acho que posso começar a imaginar a dura que foi a tua vida.

O que sente? Quem você é, lá por ter lido tal livro? O livro te define, acha? Pessoalmente estou nem ai, por não aprender nada com você que não leia num livro qualquer. A não ser que queiras falar sobre você, sobre quem é... Nesse caso me fascina, nesse caso sou todo teu. Mas não quer fazer isso, por medo do que poderia dizer.

Minha mulher morreu há dois anos e é de coisas simples que me lembro. Coisas que julgam ser sem importância são maravilhosas, são as de que mais tenho saudades. Os pequenos defeitos dela que só eu conhecia faziam ser a minha mulher. Mas não era só eu, ela também conhecia os meus ridículos. Há quem chame de imperfeições, mas não, é o que é verdadeiramente importante.

Podemos escolher quem deixar entrar no nosso pequeno mundo. Ninguém é perfeito, garoto. E te poupando o suspense, a garota que conheceu também não é perfeita. Mas o que interessa é se serão perfeitos um para o outro. É isso o que faz a intimidade entre duas pessoas. E a única maneira de o saber é arriscando e se atirando. Não vai aprender com um velho como eu. Mesmo que soubesse, não diria para você.

"Deixo tudo assim, não me acanho em ver vaidade em mim. Eu digo o que condiz. Eu gosto é do estrago. Sei do escândalo e eles têm razão quando vem dizer que eu não sei medir, nem tempo e nem medo. E se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado? Ah, ora, se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim? Dispenso a previsão. Ah, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição. Vou levando assim. Que o acaso é amigo do meu coração quando falo comigo, quando eu sei ouvir..."

6 comentários:

Vanessa M. disse...

A gente só aprende chegando, mergulhando no mar...

Ficar na margem, é seguro, mas o muito que conseguimos é ver as pessoas vivendo e nós restrigindo-se.

Klinger Alan disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Klinger Alan disse...

Voce soca, com a palavras.
E voce cura, com elas tambem.

Se eu perguntar "Como voce pôde juntar essas palavras, criar isso?"
Como voce pôde?..

ah. quando eu vi aquele titulo!.
"O velho e o moço".. puxei logo na memoria, se alguma vez eu tinha lhe dito algo sobre nós, eu e essa musica..

começar pelo final.. e terminar no inicio, ja teria acabado antes d começar?

EU NAO TENHO MEDO! eu tinha..

..pronto, vou passar o dia pensando no que voce fez..

Rômulo disse...

Nada como viver, experimentar e sentir. As coisas mais importantes que já tive foram as que não pude tocar.
Adorei o texto, adorei a música!

Memorias disse...

Esse Texto me fez pensar , Não importa pensar em que , mais eu gostei Uma Tanto Muito dele .

Alan Salgueiro disse...

Yasha, em meio a todo esse achado hermânico, sua observação me remeteu à uma frase de Nietzche: "Os livros ou os filhos..."

Gostei de como descreveu e interpretou a canção, na verdade, fizeste um conto à parte com a música como trilha.

É interessante, e eu endosso isso com as entrevistas que li do Amarante e do Marcelo, quando diziam que não gostavam de explicar o significado dás músicas, até porque o interessante era gerar essa interpretação própria, que poderia ser uma concepção totalmente diferente da que eles tiveram no processo de criação, mas não por isso seria errada. O que vale é a nossa forma de ver, e a arte, por 'ciência' subjetiva que é, se inclina totalmente para essa percepção.

Sou sim, bastante ligado à banda, ao Chico e há tantos outros caras que me influenciam na forma de escrever e perceber as mais diversas coisas. Aliás, tem um link do profile do Versos na lateral do blog. Clicando lá você consegue saber em suma todos os nomes aos quais faço referência e sou influenciado.