sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

“Retrovisor é mesmice em dia de trânsito lento...”.

Se tivesse tomado um atalho, uma rua estreita qualquer, que tipo de pessoa teria se tornado? Não sabe. Mas gostaria muito de saber...

Parece que foi ontem. Arrumou as malas e desapareceu. Deixando para trás todas as pessoas do mundo. As chatas, as acéfalas e também as tediosas. Pois todas elas escondiam espinhos em suas falas, em seus olhares e em seus gestos. E ela nunca foi boa em desviar de farpas, quanto mais espinhos. Arrumou as malas e desapareceu. A casa da árvore, então, lhe acolheu. Figura onírica de sua infância, era a casa. Do alto dela, ela imaginava a preocupação de todos ao darem por seu sumiço. Mas, com o passar do tempo, calculou que se acostumariam com sua ausência. A tudo se acostuma. E, guardou seus silêncios, seus escritos, suas dores e seus documentos. Fez do quarto, esconderijo para sua esquisitice, suas calcinhas e seus sonhos. E ninguém precisa saber das luzes da sua casa. Quando acende, quando apaga e quando as faz piscar. Ninguém precisa saber da sua demência, da sua falta de tato, das suas insônias e das suas compulsões. Realmente ninguém precisa. E nenhuma outra casa, assim como nenhuma outra árvore, lhe acolherá da mesma forma que esta lhe acolhe. Porque esta é sua e lhe cabe como nenhuma outra jamais lhe coube. Com o passar do tempo se acostumou a viver sozinha. A tudo se acostuma. E do alto desta casa muita coisa se fez clara. E durante tantos anos, observando as mais variadas flores do mundo, do canto da sua janela, percebeu que todas elas traziam consigo alguns espinhos. E nunca foi boa em desviar de farpas, quanto mais espinhos. Mas, com o passar do tempo, se acostumou a conviver com eles. Foi então que entendeu que flores e pessoas podem ter muita coisa em comum. E que a tudo se pode acostumar. Basta, com o passar do tempo, aprender a lidar. Parece que foi ontem. Arrumou as malas e desapareceu. Deixando pra trás todas as pessoas do mundo. As adoráveis, as dedicadas e também as carismáticas. Ela apenas não sabia que poderia, com o passar do tempo, se acostumar a lidar com todas elas.

...Pelo retrovisor, via todas as pessoas que poderia ter sido e não foi.

"Se vou pra frente, coisas ficam para trás. A gente só nunca sabe que coisas são essas...".

4 comentários:

.Intense. disse...

Seu blog não podia ter nome melhor pra mim, Yashashitzu. Labirinto. É como eu me sinto aqui. Ao invés de me achar, eu me perco, fico sonsa andando entre as palavras, batendo de cara numa frase ou outra. Confusa com as coincidências que vejo nos espelhos. Com medo e com xoro nos olhos qdo sinto vontade de sair e sem conseguir. A tudo se acostuma. Qtas pessoas eu poderia ter sido e não fui?

=/
;*

Rafael Cury disse...

Que coisa, Yasha... Como você é boa nessa coisa de ser escriba!

Katarina disse...

Encontrar um local seguro para se esconder do mundo é uma dádiva... Encontrar um local seguro para se esconder de si mesmo é impossível... Tão mais fácil fugir que ficar e efrentar...Mas, às vezes, queremos mesmo é apenas encontrar um local para guardarmos nossos sonhos e nossas calcinhas, rs...
Amei o conto!

Isadora Garcia disse...

Adorei o texto! Muito legal!

Obrigada pela visita lá no meu blog =)
Beijos