domingo, 15 de março de 2009

A chuva

O dia era 14 de outubro, hora do almoço, aconteceu uma chuva de poemas sobre o prédio em que ela trabalhava. Um helicóptero despejou milhares deles, em homenagem aos 78 anos de Ferreira Gullar. Ela andava pelas calçadas sorrindo para os papeizinhos brancos que planavam, como criança encantada pelos flocos de sua primeira neve. Começou a recolhê-los pelas ruas, distraída, sem pensar nos carros. Até que não seria um fim tão ruim:

"A moça morreu enquanto tentava colher poemas no meio do asfalto quente"

Depois, já do alto de sua janela, via os poemas espalhados pelos telhados e pensava nas pessoas embaixo deles, alheias ao fato de que havia poesia sobre suas cabeças. Pensava na surpresa dos que achariam versos plantados em suas varandas, e talvez um deles tivesse caído sobre algum travesseiro e o Deus do Acaso o utilizasse para mandar algum recado importante. "A poesia quando chega não respeita nada", dizia um dos flocos de lirismo que colheu.

A ela os versos também disseram o seguinte:

O sofrimento do homem não tem nenhum valor,
Não acende um halo em volta
de tua cabeça,
Não ilumina trecho algum de tua carne escura
(Nem mesmo o que iluminaria a lembrança
ou a ilusão de uma alegria)

Sofres tu,
sofre um cachorro ferido,
um inseto que o neocid envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?

A justiça é moral, a injustiça não.
A dor te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
querem estar contentes.


Ferreira Gullar.

2 comentários:

Klinger Alan disse...

O melhor nao é ler, é ter você para me explicar..

obrigado.

.Intense. disse...

[ui, q mimimi esse coments desse moço aqui em cima, hahahah...]

ê Yasha. a poesia que o diga: vc é feita de uma matéria desconhecida qualquer, pra conseguir sentir e transmitir tanta beleza nas palavras. delicia de ler!

;*


ps.: uau, q lay é esse hein? fiu fiu.