terça-feira, 31 de março de 2009

De quando engoliu a noite.

Foi cedo ainda, ele era menino, guloso do mundo, e triste às vezes porque o mundo não cabia nele. Ele guardava pedaços de tudo então - pedras, conchas, fios, barbantes, terra, retalhos, selos e caixas - e era como se de tudo ficasse um pouco e era um consolo feito de pequenas posses e pertencimentos. De repente o tempo se deformou. Os dias eram longos, intermináveis, insuportáveis. Ele era como um bicho de terra jogado na água ou bicho de ar preso ao chão, ele e o lugar onde estava não se acolhiam. Foi então que lhe veio a vontade de grito e abriu a boca e ela veio: a noite, e era sem lua, e ele a devorou, ainda na manhã de sua vida. Foi de surpresa, mas desejado, sem saber que era aquilo que ele queria. Nunca mais abriu a boca para não deixá-la escapar. Do grito que não saiu penetrou-lhe o silêncio que jamais partiu. Tinham-lhe por soturno, sem saber que em verdade ele era noturno. Com o tempo a lua veio e fez nele seus quartos e ele minguava e crescia com ela em sua noite íntima e particular. Foi tomado por constelações, até que Ela chegou. Era brisa e fresca e passava por ele como carícia leve e era bom e tinha luz. Foi então que lhe veio de novo a vontade de grito e abriu a boca, mas só suspirou, e foi um alívio. Ela veio. Ofereceu-a uma estrela, disse vem, pega, é sua. Ela riu. Ele chorou e viu que a noite lhe escorreu pelos olhos, porque seu riso era o sol. E ele não era mais um menino.

2 comentários:

Rafael Cury disse...

Yasha, cada texto seu me emociona. Que delícia descobrir a escritora que você é: talentosa, sensível e cheia das mais sublimes palavras. Parabéns, menina, de verdade! Beijo grande.

Katarina disse...

Nossa!! Lindo esse texto. Crescer também é lindo, e sentir essa brisa, essa calmaria que aquieta um pouco nossa garganta... desistimos por um instante da vontade de gritar. Adorei, como sempre aliás.
Grande abraço.