domingo, 22 de março de 2009

"É de mágica que eu dobro a vida em flor"

"Eu sou um livro aberto sem histórias, um sonho incerto sem memórias do meu passado que ficou, eu sou um porto amigo sem navios, um mar, abrigo a muitos rios, eu sou apenas o que sou..."

Sou velho, moça. Da vida tenho já algumas sabenças, tem vez que parecem muitas, tem vez que são tico de quase nada, que por muito que já tenha visto, ainda acho de me espantar por coisa ou outra, aí vejo que por mais de achar que um pouco de tudo já me passou ante as vistas, ainda tem mistério no mundo que me falta dar por olhado e sabido. Pois que de mistérios mundo é fonte que não cessa de jorrar, pois não é? Pois sim. E a senhora, moça, me vendo assim de fato simplório, que de fato o sou, talvez se prenda mais às minhas ignorâncias. Porque pessoa é assim mesmo, que no geral apraz julgar mais com os olhos que com os ouvidos - esses fazem melhor juiz, nem sempre cem por cento de juízo justo, mas de ouvir o que a boca fala se acha mais compreensão acerca de um sujeito só de lhe apreciar o que o corpo amostra. Corpo é matéria de muito feitiço, moça, mulher-dama que lhe conte do tanto de poder sobre as vontades viris que consegue por saber fazer uso de suas carnes. Muito feitiço. Mas isso não é assunto que eu vá tratar consigo, que lhe tenho respeito, por mais de poder já lhe ser pai ou avô pelo andar dos anos. Posso lhe falar com dignidade e decência de outros temas que minhas rugas me autorizam. Da cegueira e da loucura do amor, que enxerga só o que sua doidice insana lhe pinta; da tristeza molhada que afoga em lágrima, como dor de morte; ou da tristeza seca que racha o peito, como dor de arrependimento; da alegria boba e bonita, como esbarrar o olho num arco-íris ou pegar na surpresa uma dessas estrelas que avoam no céu de noite e se jogam no vasto onde se somem; disso tudo posso lhe falar e dar fé por lhes ter vivido. No mais, se lhe disser, digo mentindo se quiser tocar o que minha sabença não alcança. No mais, então, moça, só mesmo a senhora vivendo por si, que a vida de cada um é o mestre maior que há de existir e não há livro mais ensinador. Viver é aula de cedo à noite, mas há quem pule janela e faça mais gosto de ficar brincando afora escondido do professor, pois não é? Pois sim. Pois lhe digo, moça, apoiado em meus calos, que mais vale ficar quieto e atento em seu lugar, que vida não se acaba nunca de aprender como se vive, tem lá suas contas que mesmo juntando dedo de pé com dedo de mão não se acha jeito de aprender a alcançar a soma exata. Vida parece encenação que se ensaia sempre e não se apronta nunca, por não chegar jamais a sua forma definitiva, pois que, tirante morte e amputação, pouco lhe há de definitivo, que se assente e pronto. Viver nunca se sabe bem qual formato deve ter para apresentar sem fazer vergonha, cada dia nos parece que deve ser de um certo jeito o ato, onde no outro dia um fato já nos aponta erro. Vida é bicho sempre desassossegado, que mesmo em sono se agita em sonho. Pelo menos é o que me parece, pois não é? Pois sim.

"...Eu sou um moço velho que já viveu muito, que já sofreu tudo e já morreu cedo. Eu sou um velho moço que não viveu cedo, que não sofreu muito, mas não morreu tudo."

2 comentários:

Antonoly disse...

Nossa, belíssimo texto
apreciei muito.
Beijos!

Floor de Liz disse...

adorei o texto
engraçado que tava convrsando com uma amiga a poucos minutos antes de ler sobre isso,sobre o tanto q eu sei,e ao msmo tempo o pouco q sei...
hihihi