quarta-feira, 22 de abril de 2009

"...Asa da palavra, asa parada agora..."

Tantas vezes tão cheia de palavras que é difícil imaginarem que elas me faltem tantas outras vezes. Faz dias que venho tentando escrever, mas tem algo me pausando, ou me deixando em excesso, talvez. Às vezes não sai uma palavra sequer; outras vezes são tantas que me confundem, mas não me completam. Tem sido assim nos últimos dias, palavras insaciáveis, quanto mais escrevo, mais com aspereza quero, e no final, não me satisfaço, apago, rasgo. Talvez sejam meus dias que estão meio conturbados, talvez não tenha nada a ver com isso. Mas acontece que isso se torna difícil, incomoda, quando se trata de alguém que escrevia todos os dias e que se satisfazia com aquilo, que achava tudo aquilo digno, que se dizia forte, intensa e capaz a cada nova frase. Vou deixar a poeira baixar.

As frases dormem. Na casa vazia, só as reticências se mantêm de pé, guardando o silêncio. Hora de sensos aguçados, de mais tato, mais cheiros, de preencher o espaço com imagens e sons. Durante o sono das palavras, encho-me de conteúdos outros, em formas diversas de pensar.

É quando se vê a coisa livre de nomes. O coração, do que é, bate fora do cerco das denominações. É uma virgindade do olhar, que tenta ver como seria antes de terem explicado. Palavra dá forma, mas também deforma. Nem sempre dá conta do vasto que há em certas coisas. Por isso, para poder dizer, antes me calo.

Aguardo para que a frase se transforme em paz. Uma paz breve, leve como um lençol fino que cobre sem pesar ou abafar (e vai ser removido pela manhã). Uma paz breve como o enlace de um abraço que não sufoca (e vai se desenlaçar). Uma paz breve como um olhar doce (que vai se desviar).

Ando em tempos de ver e ouvir e nessas horas coisas mudas ganham voz. Assim vou me enchendo, até a hora de transbordar de novo.

De alegrias breves é feita a felicidade possível, alegrias breves costuradas umas às outras por fios delicados, a linha do tempo, que às vezes é amarra e outras vezes bordado.


"...Casa da palavra, onde o silêncio mora..."

3 comentários:

Rafael Cury disse...

Qualquer comentário meu não fará jus a este texto tão sensível e raro. Lindo como sempre, Yasha. Beijo.

Mel disse...

Faz algum tempo que venho acompanhando seu blog, e de todos os textos que já li por aqui, acho que esse foi o que mais me tocou, é de uma sencibilidade sem tamanho.
Parabéns!

Só para deixar registrado mesmo não comentando sempre, eu adoro seus textos, sabes como poucos fazer mágica com as palavras.

Vanessa M. disse...

Imagine se você tivesse com inspiração pra escrever. Tão lindo isso aqui.

E deixa, deixa entrar, deixar chegar. Não força, suas palavras precisam de tranquilidade pra sairem...
beijo, querida!