quarta-feira, 17 de junho de 2009

Como uma estrela que quer brilhar...

"...Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas; da força da grana que ergue e destrói coisas belas; da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas; eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços; tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva..."

Enfim, ela estava onde tudo era frio e poluição. Onde os sonhos não eram proclamados, nem os medos. E se perguntava com certa constância o que pensavam aqueles seres que não viam as estrelas do céu devido à poluição, mas sabiam das artes da música, dos palcos, das telas, da forma no gesso e das cores das aquarelas. Artes soltas pelas ruas, pelos centros, pelos becos, pelos guetos, ao alcance dos olhos de todos.

Do que eles tinham medo? Será que conseguiam mesmo manter os pensamentos sempre entretidos na produção em série? Ou a melancolia dos rostos nas estações de metrô era o reflexo das idéias que não paravam de martelar em suas cabeças?

Não sabia nada deles, mas o fato era que se sentia tão neuroticamente igual àqueles seres de aparência estranha e disforme que tentavam esconder seus medos em tatuagens, meias, piercings e maquiagem carregada; botas, cabelos alaranjados e suas jaquetas de couro; que lhe dava vontade de bater na porta de um deles e dizer: “Ei, o que é que se passa aí dentro, em? Dentro do seu coração. Me fala, porque eu não posso morrer sem saber, sem entender.” E seria com essa resposta que ela iria compreender o que se passava dentro do seu.

Entre os passos, as alamedas e os automóveis, borbulhavam as idéias imunes ao cotidiano produzido em larga escala, e por mais que ela quisesse era impossível interrompê-las, assim como é inviável atravessar o farol verde. Todavia, os nativos insistem em transformar, construir, projetar, realizar, montar objetos, inventar aparelhos, todos retratos de sua própria aflição. Sentimento escondido em regras de etiqueta, meias-palavras e sorrisos apáticos durante o jantar da família. Afinal, que bichos estranhos são eles?

Ela estava, então, na cidade dos atormentados. Sim, só podia crer que essa necessidade desesperada de trabalhar, produzir e industrializar tudo o que via pela frente, era um exercício para o cérebro, uma forma de esquecer a mortalidade humana, de esquecer o feitiço do tempo. Achava que estava no lugar certo, pois assim como eles, também queria e precisava calar o grito que saía de dentro de si, sufocar a angústia que pairava, que rondava os seus fins de noite, seus dois dedos de uísque no fundo do copo, seus restos de maquiagem no fim da festa, as rugas que ainda não tinha, imagens desconexas de si mesma refletidas no espelho do quarto.

Ela estava ali, na cidade onde sempre sonhou morar e, no entanto, não estava radiante de alegria. Talvez, aos poucos, a própria melancolia da cidade já estivesse lhe consumindo sem que ela nem percebesse. Estava feliz, muito feliz, por estar realizando o sonho de finalmente andar por aquelas ruas frias, respirando aquele ar poluído e vendo aqueles rostos de giz, aquelas pessoas de peles tão brancas e ares tão bucólicos. Ainda não entendia bem o que se passava dentro delas, o porquê de serem tão fechadas dentro de si mesmas. Tão parecidas com o que ela sempre foi, como uma estrela que quer brilhar, mas não se permite por medo do que a sua luz possa atrair para si. Afinal, que bicho estranho era ela?

"...E quem vem de outro sonho feliz de cidade aprende depressa a chamar-te de realidade, porque és o avesso do avesso do avesso do avesso..."
"...São, São Paulo...”

3 comentários:

Inez disse...

O sonho de chegar a cidade grande onde há mais oportunidades depois vem a desilusão não há mais tantas oportunidades asim, há frieza, rostos sem expressão, necessidades escondidas.

FábioE§¢orpïão disse...

Um olhar estrangeiro sobre os "estranhos animais" desta cidade ...

;-)

Rômulo Wehling disse...
Este comentário foi removido pelo autor.