sábado, 13 de junho de 2009

Do excesso, da falta e dos gostos.

Às vezes o que me falta é o gesto. Um gesto qualquer para encher um momento. Um gesto ou uma palavra. Posso cantar, mas não vai adiantar nada. A voz é minha, as palavras são de canções que já conheço, e me aborrecem. Um gesto. Só o de abrir um livro e ler, ou o de mover a maçaneta da porta e fechá-la. Me senti mal esses dias. Me senti cheia, excessiva, querendo vomitar o entulho que me incomodava. Era excesso. Excesso de palavras; de saudade; de tudo que eu sempre guardei; de tudo que eu não disse, e de tudo que eu disse; de tudo o que eu falei e que não tenho mais como falar agora, passou; de tudo que eu acabo cedendo; de toda essa casca. Excesso. Mas senti que me faltava alguma coisa também. Falta, falta alguma coisa que não sei o que é. Será que todo excesso tem um pouco de falta em si?

Está fazendo frio à noite. O inverno está chegando. Estranho, o inverno sempre me deixa um pouco mais profunda. Me volto para dentro de mim mesma, tenho a impressão exata de que, naquele momento, me pareci com uma das árvores da praça ali, próxima: imóvel, seca, mas guardando alguma coisa por dentro. Quem sabe se essa tristeza que senti, tão parecida com esse frio envergonhado de não ser frio — quem sabe, se não é apenas o derrubar das folhas? As árvores também as perdem, uma por uma, e o chão em volta fica todo dourado, até ficarem completamente nuas. Depois, em setembro, as folhas começam a voltar. Mais novas, mais verdes. Gosto das árvores. Gosto de folhas. Gosto de tudo o que ameaça morrer e de repente se levanta, mais vivo ainda, surpreendendo a todos.

Gosto de ver as pessoas se reencontrando, talvez seja uma bobagem minha, mas o que posso dizer (?) Gosto de ver uma pessoa correndo ao encontro de outra, gosto dos abraços e do choro, gosto da impaciência, das histórias que a boca não é rápida o suficiente para contar, dos ouvidos que não são grandes o suficiente, dos olhos incapazes de captar toda a mudança...

Está fazendo frio à noite. Já estive fria por dentro também, mas isso já passou. O frio não combina comigo.

4 comentários:

Canto do Lufa disse...

nossa que desabafo!

Pobre esponja disse...

Gosto das pessoas que se expõe (sou poeta, apesar de o blog que divulgo ser de humor).
Tem de ter coragem para sair do comum e se expor, mas só assim existimos na plenitude, ainda que role uma dor.

bjs
Pobre esponja

.Intense. disse...

todo excesso tem MUITA falta, Yasha. e eu tb gosto mto de ver encontros e reencontros, mas já não sei se acredito neles.

[eu sei que eu devia dizer algo diferente hoje, mas é oq eu tou pensando...]

Danila :) disse...

"Gosto de tudo o que ameaça morrer e de repente se levanta, mais vivo ainda, surpreendendo a todos."

É como estar no fundo do poço e dar a volta por cima, aprender que enquanto Deus nos permitir o milagre da vida nunca devemos querer morrer e sim viver e aproveiar intensamente o tempo que nos foi presentiado!

;*