segunda-feira, 22 de junho de 2009

A felicidade é um pássaro de asas curtas e desejos molhados.

Hoje voltei devagar para casa. Era tarde, estava quase frio. Passei por uma praça que eu gosto muito. Está bonita, cheia de folhas amareladas caídas no chão. Sempre me desvio delas, fico com pena de pisá-las. Disse isso um dia a um amigo. Ele me olhou surpreso e disse: “Mas elas já estão mortas, compreende?”...

Hoje pensei seriamente: se me perguntassem o que mais desejo na vida, não saberia responder. Quero tudo. Mas esse “tudo” é tão grande, tão vago, que me sinto estonteada. É preciso ir limitando meu sonho, apagando a linha supérflua, corrigindo as arestas, até restar somente o centro, o âmago, a essência. Mas qual será esse centro?

Às vezes me sinto terrivelmente vazia. Há pouco estive triste, sem saber exatamente por quê. Às vezes odeio este quarto, estas paredes, essas caminhadas de casa para a aula, da aula para casa, esses diálogos vazios... Nessas horas o que eu queria era alguém que me recolhesse como uma menina desorientada numa noite de tempestade, me colocasse numa cama quente e fofa, me desse um chá de laranjeira e me contasse uma história. Uma história longa sobre uma menina triste que achou, uma vez, durante uma noite de tempestade, alguém que cuidasse dela.

Mas gosto, gosto das pessoas. Talvez não saiba me expressar muito bem com elas, mas estou melhorando isso, e gosto de vê-las, de estar do lado, saber suas tristezas, suas esperas, suas vidas. Às vezes também me dá uma bruta raiva delas, de sua tristeza, sua mesquinhez. Depois penso que não tenho o direito de julgar ninguém, que cada um pode, e deve, ser o que é, ninguém tem nada com isso. Em seguida, minha outra parte sussurra em meus ouvidos que aí, justamente aí, está o grande mal das pessoas: o fato de serem como são e ninguém poder fazer nada. Só elas poderiam fazer alguma coisa por si próprias, mas não fazem porque não se vêem, não sabem como são. Ou, se sabem, fecham os olhos e continuam fingindo, a vida inteira fingindo que não sabem.

Às vezes eu gostaria de ir embora para uma cidade qualquer, bem longe daqui, onde eu pudesse testar por mim mesma as minhas asas para descobrir, enfim, se elas são mesmo fortes como imagino. E se não fossem, mesmo que quebrassem ao primeiro vôo, mesmo que após certo tempo eu voltasse arruinada, maltratada, abatida, mesmo assim restaria o consolo de ter descoberto que valho o que sou.

Então eu saberia, pela primeira vez eu poderia saber. Erguer-me aos poucos, como um pó-de-vento, lentamente crescendo, unindo outros seres a mim, e girando, girando sempre, tornar-me tormenta, furacão, vendaval, terremoto. Ou me dissolveria em poeira à primeira brisa que soprasse, quem sabe?

Fico pensando se viver não será sinônimo de perguntar. A gente busca, dá a cara à bolacha, segura o fato com as duas mãos ávidas e pensa: "Encontrei! Encontrei!", mas ele escorrega, e se quebra em mil pedaços, como um vaso de barro coberto apenas por uma leve camada de louça. Daí a gente fica só, outra vez, sem fatos, e tem que começar do nada, correndo loucamente em busca dos outros vasos que vê. Cada um que surge parece o último. Mas todos são de barro, quebram-se antes que possamos reformular as perguntas. E começamos mais uma vez, dia após dia, ano após ano. Um dia a gente chega à frente do espelho e descobre: "Envelheci". Então a busca termina. As perguntas calam no fundo da garganta, e vem a morte. Que talvez seja a grande resposta. A única.

Assim como as folhas, são as pessoas, que envelhecem e morrem.
Mas nem por isso é legal que se pise nelas, compreende?

5 comentários:

Danila :) disse...

É aquela velha historia... quando a gente acha tem tem todas as respostas vem a vida e nos tras novas dúvidas,perguntas...:)

Ni ... disse...

Seu texto disse tanto de mim...

Mel disse...

Incrível sua capacidade de nos fazer refletir... e desse post tantas novas perguntas surgiram, mas quem sabe, algum dia eu encontre as respostas,e ai com certeza surgiram novas perguntas; mas se a vida é mesmo um grande ciclo, não tem como escaparmos disso.
O tempo é sabio e nos traz todas as respostas, devemos saber esperar e compreende-las quando chegam.

Bjs

Hermilaine disse...

Oiieeee,bom dia.Tô visitando teu blog e gostei muito.Posso seguir?Abração pra você.

Vanessa M. disse...

Yasha, não consigo escrever nada além do que você já escreveu. Corre aqui dentro, pulsa cada palavra lida.
detalhe, li mais de duas vezes o texto.

ps:ele tem vida?