quarta-feira, 3 de junho de 2009

Os limites são feitos de elástico.

Cena 1

Quando vi, ele já estava lá, na beira do mar. Sozinho, se benzendo antes de entrar na água. Sem pernas, apoiado verticalmente sobre seu tronco (não sei se posso usar a expressão “de pé” para alguém que não os tinha), depois de uma breve contemplação do mar, caminhou sobre as mãos, se aproximou mais da água e mergulhou. Depois de algumas braçadas, logo estava boiando com aparência muito relaxada. Imaginei a sensação de liberdade que a água devia lhe dar. Leve, movimentos sem o atrito áspero que suas mãos deviam suportar diariamente para carregar seu meio corpo pela secura do mundo. Um amigo, com pernas, entrou um pouco depois. Conversaram, sorriram, o amigo saiu, sem oferecer ajuda, que também não foi solicitada em nenhum momento. O homem sem pernas saiu do mar sozinho, como entrou. Sozinho caminhou com as mãos pela areia de volta ao seu lugar. A mim pareceu uma pessoa bastante inteira.

Cena 2

Diante do monumento que homenageia alguma guerra estúpida, como são todas as guerras, os dois irmãos faziam pose para a foto. A estátua do soldado atingido se contorcendo de dor ao meio, de um lado o irmãozinho bem pequeno, com cara de quem está apenas obedecendo a ordens sem entender nada, e do outro lado o irmão maior, sorridente (com um sorriso sacana, para ser mais exata), com uma das mãos em forma de revólver apontando para o irmão caçula. A vítima inocente, o homem agonizante e o assassino sádico. Era essa a cena. A mãe, rindo muito, fotografou, parecendo se divertir, como se fosse realmente normal um menino fingir que tem uma arma e que mata o irmão, e que o adulto segurando o fuzil em sofrimento era medíocre, comum. Talvez eu seja muito sensível. Talvez a vida esteja de fato cheia de banalidades a que dou importância demais. Mas a mim pareceu que faltava algo àquelas pessoas.

2 comentários:

Rafael Cury disse...

Certa vez vi um cego numa exposição. Alguém explicava para ele cores, texturas, tamanhos das telas. Ele sabia ver com o "olhar de dentro". É aquele que nos faz enxergar além do que realmente existe. Afinal, descobri que cego mesmo é quem não tem esse tipo de visão. Lindo texto, Yasha, como sempre. Beijo grande.

Danila :) disse...

Muito bonito, faz pensar muito sobre pessoas as quais se acham inteiras e até maiores e algumas que se jugam inferiores ou que outros jugam!
;*