domingo, 28 de junho de 2009

Perdi um pedaço, tem tempo.

“Só você pra dar à minha vida direção. O tom, a cor, me fez voltar a ver a luz, estrela no deserto a me guiar, farol no mar da incerteza...”

Vó,

Já faz sete meses desde aquele dia, mas parece que foi ontem. Minutos antes uma festa, uma amiga aniversariando, outros tantos amigos por lá, pessoas que tinha acabado de conhecer, sorrisos, bebidas e um pensamento distante em você a cada minuto que se passava... Minutos depois um telefone que não parava de tocar, uma sensação ruim, o choro já entalado na garganta, um medo de atender, um disfarce, um escudo, uma certeza de um fim.

Foi tudo muito rápido, eu tinha certeza que você ia sair daquilo, não deu pra se preparar, não deu pra se despedir, nem deu pra pensar, sequer, que não haveria um amanhã. Certas coisas não dão para adiar. A gente não tem todo o tempo que pensa. Sinto tua falta todos os dias. E eu preciso dela, assim como sei que preciso comer todos os dias para me manter de pé. Não tem hora marcada, não é forçada, mas eu sei que preciso senti-la para inspirar bem forte e expirar, fazer o coração bater de novo e assim querer viver. Como uma fuga que, enfim, se torna força.

“...Ah! Que bom seria se eu pudesse te abraçar, beijar, sentir... Te dar o carinho que você merece ter. Eu sei te amar como ninguém mais...”

Estive o tempo todo do seu lado no velório, coloquei uma cadeira, encostei minha cabeça no seu ombro e fiquei lá, alisando seu cabelo, o tempo todo que eu pude. Cada pessoa que passava me transmitia um olhar diferente, mas naquele momento eu só conseguia te ver. Confesso que algumas vezes eu tentei te acordar pra que você parasse aquela brincadeira de mau gosto, mas você continuou lá, dormindo, porque pra mim você estava apenas dormindo. A pior parte foi quando foram fechar o caixão, quando foram levar você de mim, foi a hora que eu tive que acordar pra realidade, papai se jogou por cima de você, chorando e gritando, e eu não consegui ver aquilo e saí correndo de lá. Todos que tinham conseguido se manter sem choro até ali, desabaram. Essa imagem nunca vai sair da minha cabeça.

Talvez venha sofrendo muito mais do que precisava. E as alegrias que vivi nem sempre foram alegres, depois que você se foi. Quando eu era menor papai me comprou um bracelete cheio de pedrinhas, você deve se lembrar. Era grande demais pra mim e ficava escorregando para cima e para baixo no meu braço. Era quase um colar. Mais tarde ele me contou que tinha pedido ao joalheiro para fazer daquele jeito. Era para o tamanho ser um símbolo de seu amor. Mais pedrinhas, mais amor. Mas eu não podia usá-lo com conforto. Não podia usá-lo de maneira alguma. Então aqui está a essência de tudo o que venho tentando dizer. Se pudesse dar a você um bracelete, agora, eu tiraria a medida do seu pulso duas vezes.

“...Ninguém mais, como ninguém jamais te amou, ninguém jamais te amou, te amou...”

No livro “Uma breve história do tempo”, uma das minhas partes favoritas é o início do primeiro capítulo, em que Stephen Hawking conta sobre como a Terra órbita o Sol, e o Sol órbita o sistema solar e toda aquela coisa. Aí uma mulher no fundo da sala ergue a mão e fala “O que você nos disse é besteira. Na verdade, o mundo é um prato achatado apoiado nas costas de uma tartaruga gigante.” Então o cientista pergunta em cima de que a tartaruga estava apoiada. E ela diz “Acontece que são tartarugas até lá embaixo!”.

Muitas vezes queremos guardar as pessoas, proteger demais. Então comecei a pensar que para isso precisamos de bolsos muito maiores. Precisamos de bolsos gigantescos, bolsos grandes o suficiente para nossa família, nossos amigos e até mesmo para as pessoas que nunca conhecemos, mas ainda assim desejamos proteger. Precisamos de bolsos para distritos e cidades, um bolso que pudesse conter o universo. Mas eu sabia que não podia haver bolsos tão gigantescos. No fim, todo mundo perde todo mundo. Nenhuma invenção poderia evitar isso, portanto me senti, naquela noite, como a tartaruga que tinha sobre si todo o resto do universo.

Com amor,
Sua rosa.

“...Ninguém mais, como ninguém jamais te amou, ninguém jamais te amou como eu, como eu.”

5 comentários:

Rafael Cury disse...

E é esse amor que você carrega, cheio de pedrinhas, que faz das suas palavras tão belas, menina. Emocionante como sempre. Beijo.

Vanessa M. disse...

Não pensei duas vezes em deixar lá no blog exibindo essa postagem.
De um amor que podemos tocar.
Beijo grande

Daniel Medeiros disse...

Isso me lembrou meu pai. Seja como for tudo tem uma razão de ser

Danila :) disse...

O que importa é que o amor que existe nesses laços jamais morrerão.
Me emocionei =~

beijo.

Muitas palavras disse...

Perdi a minha avó tambem recente. Pensa que agora ela está no teu mais intimo, "no coração do teu coração"...como dizia Yeats, está no esconderijo mais profundo da tua alma, e te salva todos os dias, te protege, te dá beleza quando o mundo está em desacordo. Confia.
Abraço