sábado, 6 de junho de 2009

Se isso parece simples, é simples como uma montanha é simples.

Ele não foi sempre mudo, costumava falar, falar e falar, não conseguia manter a boca fechada, mas o silêncio se apoderou dele como um câncer, e ele foi perdendo as palavras aos poucos, a primeira que perdeu foi o nome dela, ele tentava, tentava mais uma vez, não conseguia, mas ela estava presa dentro dele, “Que estranho”, pensou, “Que frustrante, que patético, que triste”, pegou uma caneta no seu bolso e escreveu “Anna” num guardanapo, quando não tinha caneta escrevia “Anna” no ar, da direita para a esquerda e ao contrário para que pudessem ver, quando estava ao telefone ele discava os números, 2, 6, 6, 2, para que a pessoa pudesse ouvir o que ele era incapaz de dizer. Foi perdendo todas as palavras aos poucos, uma por uma. Começou a levar consigo cadernos em branco que ia preenchendo com tudo o que não podia dizer, foi assim que começou, se queria dois pãezinhos do padeiro ele escrevia “Quero dois pãezinhos” na primeira página em branco e mostrava a ele, e se precisava da ajuda de alguém ele escrevia “Socorro”, e se algo lhe dava vontade de rir ele escrevia “Ha ha ha!” e em vez de cantar no chuveiro ele anotava a letra das suas canções favoritas, a tinta deixava a água azul ou vermelha ou verde, e a música escorria pelas suas pernas, no final de cada dia ele trazia o caderno para a cama consigo e lia as páginas da sua vida, cada frase pertencia a uma follha:

Quero dois pãezinhos.

E alguma coisa doce não cairia mal.

Desculpe, não tenho menos que isso.

Comece a espalhar a notícia...

O de sempre, por favor.

Obrigado, mas estou quase explodindo.

Não tenho certeza, mas é tarde.

Socorro.

Ha ha ha!


Tinha tanta coisa para contar a ela, o problema não era que seu tempo estivesse acabando, era o seu espaço que estava acabando, seus cadernos estavam ficando cheios, nenhuma quantidade de páginas seria suficiente, pela manhã deu uma última olhada no apartamento e havia coisas escritas por toda parte, cobrindo as paredes e os espelhos, enrolou os tapetes para poder escrever no chão, escreveu nas janelas e ao redor das garrafas de vinho que os dois ganharam mas nunca beberam, vestia apenas mangas curtas, mesmo quando estava frio, porque seus braços também eram livros. Mas havia coisas demais a expressar. “Me desculpe. É isso que venho tentando lhe dizer, me desculpe por tudo. Me desculpe por minha incapacidade de deixar para traz o que não importa, por minha incapacidade de me agarrar ao que importa. Me desculpe por jamais alimentar o seu rosto ou contar histórias para você dormir.” Ele escreveu no chão, ela leu.

Nesse dia ela o acompanhou até a porta como sempre fazia. “Pode ser que eu não retorne antes de você dormir”, ele falou, colocando a sua mão aberta no ombro dela e depois acomodando a face dela em sua palma. Ela disse "Mas não consigo adormecer sem você." Ele segurou as mãos dela junto à cabeça dele e acenou dizendo que ela conseguiria, sim, e caminharam até a porta. Ela disse "Me prometa que vai tomar cuidado", puxando o capuz do casaco dele e pondo em sua cabeça, "Me prometa que vai tomar super-extracuidado. Sei que você olha para os dois lados antes de atravessar, mas quero que olhe para os dois lados uma segunda vez, porque eu mandei." Ele fez que sim com a cabeça. Ela perguntou "Você está usando protetor?" Com as mãos, ele disse "Está frio na rua. Você está resfriada". Ela perguntou: "Mas você está usando?" Ele se surpreendeu tocando-a com a mão direita. Ele podia viver uma mentira, mas era incapaz de permitir uma mentira pequena como aquela. Ela disse "Espere aí", correu para dentro do apartamento e voltou com um frasco de protetor solar. Espremeu um pouco em suas mãos, esfregou uma mão na outra e espalhou na nuca dele, em suas mãos, entre os dedos, no seu nariz, testa, faces e queixo, em tudo que estava exposto... Ele pensou que no fim das contas ele era a argila e ela a escultora, que é uma pena que se seja necessário viver, mas é uma tragédia que possamos viver apenas uma vida, porque se ele tivesse duas vidas teria passado uma ao lado dela. Teria ficado com ela no apartamento, arrancado a planta da porta, segurado ela na cama e dito "Quero dois pãezinhos", cantado "Comece a espalhar a notícia", rido "Ha ha ha", chorado "Socorro!". Teria vivido essa vida entre os vivos. Desceram juntos pelo elevador e caminharam até a soleira, ela parou e ele seguiu. Ele sabia que estava prestes a destruir o que ela tinha sido capaz de reconstruir, mas ele tinha somente uma vida. Escutou-a atrás dele. De propósito ou sem querer, se virou e falou "Não chore", botando os dedos dela em seu rosto e empurrando lágrimas imaginárias rosto acima, de volta para os seus olhos. "Eu sei", ela disse, limpando as lágrimas verdadeiras em sua face. Ele segurou as mãos dela e fez de conta que estavam atrás de uma parede invisível, ou atrás do quadro imaginário, as palmas dos dois exploravam a superfície, e então, sob risco dela falar demais ele segurou uma das mãos dela sobre os seus olhos e a outra sobre os olhos dela, "Você é bom demais pra mim", ela disse, ele botou as mãos dela em sua cabeça e acenou que sim, ela riu, ele adorava quando ela ria, embora a verdade era que não a amava.

Ela disse "Eu te amo", ele falou o que sentia, foi assim que ele falou: segurou as mãos dela ao lado do corpo dela, apontou seus dedos indicadores um para o outro e devagar, muito devagar, foi aproximando-os, quanto mais próximos estavam mais devagar ele os movia, e então, quando estavam prestes a se tocar, quando estavam separados entre si apenas por uma folha de dicionário, pressionando a palavra "amor" em lados opostos, ele os fez parar, parou de mover os dedos e os manteve naquela posição.

Não sabe o que ela pensou, não sabe o que ela compreendeu, ou o que não se permitiu compreender, virou e foi se afastando dela, não olhou para trás, não olhará.

6 comentários:

.Intense. disse...

não dá pra comentar, Ana Yasha.
é bonito demais, denso demais [como elogio], puro demais. li num pulo, num gole, os olhos devorando a página do Reader, e vindo aqui ler sob seus dedos, suas cores, seu olhar, suas músicas-poesia do lado daí do computador. e no fim, o suspiro, como se meu próprio peito tivesse deixado de bater, como o dela pode ter deixado por um momento.

qto da Ana essa Anna tem? é tudo que eu quero saber.

Raiana Reis disse...

Quero parabenizar desde a frase no layout! Lindos textos, descrições e reflexões embutidas, realmente com belos textos ás vezes ficamos sem palavras. Adorei seu blog e vou sesgui-lo. Quero acompanhar melhor os textos.
Aparece e me faz uma visita também:
www.tocou.blogspot.com - tudo que toca ao coração.
www.raianareis.blogspot.com - poesias

Bia disse...

lindo, lindo, lindo, simplesmente lindo..
nossa que inspiração...
o texto prende a atenção, deixa curiosidade sobre a proxima linha.. quando percebi ja tava no final...

Rafael Cury disse...

Menina, você me surpreende. Beijo.

Vanessa M. disse...

Quando comecei a ler, ao ir descendo, coração bateu mais forte.

Seus textos tão ficando cada vez mais, mais... como pode dizer? cada vez mais humanos, a pessoa lê e sente tudinho. *.*

beijo grande

ddmeyer disse...

SENSACIONALLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!SOU ARTISTA PLÁSTICA E O FIO CONDUTOR DA MINHA OBRA É A PALAVRA.DEPOIS DE TER LIDO O CONTO "A BIBLIOTECA DE BABEL" DE JORGE LUIZ BORGES FIQUEI APIXONADA POR CADA LETRA,VÍRGULA E ESPAÇOS.DESDE ENTÃO UTILIZO-O COMO REFERÊNCIA PARA TODAS AS MINHAS OBRAS.MAS DEVO ADMITIR QUE APOIS LER ESSE CONTO SENSACIONALLLLLLL VOCÊ VAI TER QUE DIVIDIR O PALCO COM O BORGES OK? SUCESSO E CONTINUE ESCREVENDO ATÉ O SEU ÚLTIMO SUSPIRO.BOA SORTE!!!!!!!!!!!!!!
DENISE MEYER
ddmeyer7@hotmail.com