quarta-feira, 29 de julho de 2009

"Chorei três horas, depois dormi dois dias."


Para um coração que ficou frio: Cuidados. Isso mesmo, carinhos quentes, chá de erva cidreira. O desvelo de uma manta (cobrindo mãos e braços nevados), a intenção do bem guiando o olhar. A lenha crepitando na cabeça, trazendo os cheiros fortes de uma história que acabou: lavanda, angélica, gerânio. E assim vou vivendo, entre belezas reveladas pelas páginas de tantos livros, imagens de tantos filmes. Sons inusitados que sugerem outros temas nas músicas que fazem viajar, aqui mesmo, sentada na grama verde de tantos carinhos.

E aquela velha colcha de retalhos, necessária em suas estradas, que aquece o meu coração, é a testemunha viva de que o amor não acabou em mim.

sábado, 25 de julho de 2009

Se eu gritar de saudade, você me ouve?

Tive uma noite tão incrível ontem. Amigos cantando e tocando ali na minha frente, todo um ciclo de sentimentos... Estava tudo perfeito. Eu fui tão feliz, tão feliz. Dancei, conversei, sorri. Eu estava tão leve, tão plena... E hoje estou assim, tão ácida... Eu acho que é ressaca de felicidade. Eu não posso viver momentos, assim, de tanta euforia, que logo depois me dá uma tristeza funda e sem razão.

Hoje acordei sentindo sua falta. Deve ter sido sonho. Minhas noites andam longas, sono intermitente... Aquela falta de ar que, vez-em-quando, faz parte de mim. Saudade que rói por dentro, feito sede. Coração partido, como letra de bolero. Mas estranhamente, vem com a virada do tempo, uma calma.

Preciso de alguém que me proteja, que me traga uma rosa, que me chame de "meu bem", que leia a minha alma e me faça sossegar.

Vinte anos envolvida em cenas criadas por mim, sem direção. Pano de fundo de uma história maior que eu. Hoje lembro de tuas mãos firmes tocando as minhas, de leve. Recordo o violão, os planos de futuro, o receio de não dar conta de tantas fantasias...

Vamos em frente. "O primeiro amor passou, o segundo amor passou, o terceiro amor passou... mas o coração continua..."


Desejo de que os dias sem sentido passem rápido.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Happy birthday for me!

“...Eu conheço o medo de ir embora, embora não pareça, a dor vai passar. Lembra se puder, se não der, esqueça. De algum jeito vai passar. O sol já nasceu na estrada nova, e mesmo que eu impeça, ele vai brilhar. Lembra se puder, se não der esqueça. De algum jeito vai passar...”

Hoje é meu aniversário, e também, faz exatamente dez anos desde a morte do meu avô.

Eu era muito nova, tinha apenas dez anos, mas isso não impediu que eu sentisse tudo como ‘gente grande’. Lembro de cada detalhe daquele dia, minha festa já pronta que não teve... Me lembro de cada passo. Mas não quero lembrar dos momentos de dor. Prefiro recordar que ele se foi a partir dos meus braços. Se desligou desse mundo olhando pra mim, falando palavras desconexas, mas de alguma forma já livres do sofrimento. Isso me causa um impacto, mas é sereno ao mesmo tempo. Ele foi rápido demais, mas o período no hospital nos deixou importantes legados: generosidade, compaixão, cuidado com o outro. A coragem dele na guerra, nos pôs em vigília por dias e dias. E desse modo entendi melhor o sentido dessa aventura toda em torno do próprio eixo... Tenho perdido gente muito próxima, e vejo que a presença dos que ficam vai ficando cada vez mais importante e necessária.

Passei dez anos sem sair no meu aniversário. Nove, na verdade. Ano passado isso aconteceu, mas de forma rápida. Todos os anos eu ficava remoendo o passado, lembrando daquele dia de todas as formas. Esse ano eu vou fazer diferente.

É como uma renda, e uma rede de delicadezas é teia que suporta pesos inimagináveis. A disponibilidade para o abraço é porta. Gentileza é chave. Abro e atravesso.

“...Eu conheço o medo de ir embora, o futuro agarra a sua mão. Será que é o trem que passou, ou passou quem fica na estação? Eu conheço o medo de ir embora, e nada me interessa se pode guardar. Lembra se puder, se não der esqueça. De algum jeito vai passar.”

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Entre o riso e o choro só existe o nariz...

Que fazer, senão chorar, sorrir, depois chorar de novo e por aí vai?

Tênis pesados, com meias bem grossas. Meu pé mergulha numa poça funda de água suja. Fica completamente encharcado. Eu estou no palco, com tênis brutos e molhados, e não acompanho a coreografia direito. Exposta ao público. Ando assim. Uma tentativa de delicadeza, de pertencer com harmonia ao conjunto, mas os passos pesam, deixam um rastro sujo, o desconforto dos pés frios, o medo de errar o salto, a impossibilidade da beleza no mover-se. Ele perguntou se foi esse o sonho, mas não, era assim o meu estar acordada. Aquela melancolia persistente, de tentar passos leves carregando peso e inadequação, a falta de calor em alguma parte e a sensação de ter em si algo impuro. Não era uma dor grande. Era como estar úmida e haver uma fresta de vento frio nas costas. Como estar descansada e bela com um sapato impróprio, tentando manter a elegância caminhando sobre bolhas e unhas encravadas e calos e cãibras. Por que você não tira esse tênis?, ele disse. Nós, eu disse. Quem os atou?, ele disse. Nós, eu disse. Não o culpe, ele disse. Eu calcei sapatos de outro. Sabia que não eram meu número, que não serviam para dançar, que vinham de caminhadas em pântanos. Eu tentei piruetas na lama. Perdi as sapatilhas. A dança perdeu a graça. Agora havia o peso em cada passo, o rastro, a saudade de andar descalça, os pés cansados. Ainda tentava seguir a música sutil, mas sabia que algo em mim estava denso em demasia. Ainda tentava o salto, mas via a sombra da queda crescer. Por que você insiste?, ele disse. Nós, eu suspirei.

Uma revelação sempre abre portas, para quaisquer caminhos que estejam diante de nós, para qualquer estrada que queiramos seguir. E o que é vida, senão este salto para grandes dias? Pra voar ou nadar, só tirando os sapatos. Pro melhor chegar, tem que haver espaço.

sábado, 18 de julho de 2009

"...mas o coração continua..."

Ontem eu passei mal. Uma falta de ar que, vez-em-quando, faz parte de mim. Hipoglicemia. Foi forte ontem, muito forte. Eu tremia muito, parecia mais um ataque epiléptico. Tive medo, muito medo. Mas (apesar de) você veio até mim, me segurou, e todas as vezes que eu tremia com mais intensidade você me abraçava mais forte e fazia parar. Ficou comigo até eu conseguir dormir, até mais de quatro horas da madrugada. Deixou-me protegida, foi meu casulo, minhas palavras que faltavam, meu guia, e não tirou, um só minuto, os olhos de cima de mim.

É que eu peguei a contramão sem perceber, sabe? E aí os dias ficam confusos, nublados, doídos. Mas foram bons esses dias, assim desse jeito, sem muito jeito mesmo. Foi como te falei um dia, lembra? Falei que tinha rasgado a roupa enquanto atravessava a pé o vasto campo. Você me disse que o terreno estava minado, que eu corria o risco de... Aí eu disse: não. Enquanto te espero faço um rico bordado. Foi isso mesmo que eu disse? Já nem lembro. A música estava alta demais e resolvi apostar em outras garantias de sobrevida, resolvi não acreditar muito quando você prometeu "eternidade", "pra sempre" ou "nós dois". Aprendi que tudo é tão transitório, tão móvel, tão pouco palpável. Vamos combinar apenas isso? Eu, você, os anéis de saturno e aquela alameda imensa onde passei a acreditar no invisível dos dias. E onde, também, comecei a nos perder de vez.

terça-feira, 14 de julho de 2009

“Lembra que o plano era ficarmos bem...?”

"Tu não precisavas ser assim simpático. Não precisava ter esse jeito de falar. Não precisava ser tão carente. Não precisava saber meu nome, nem se aproximar tanto, nem existir tanto. Tu não precisavas estar ali. Mas tu és, fala, se aproxima, existe, e me olha de um jeito... Tão intenso que não precisava. Tão suficiente que não precisava."

Ouço os passarinhos. Eles continuam cantando, desafiando o som dos carros que passam nas ruas mais próximas. As coisas ainda não têm cor. Mas tua atenção me faz lembrar a cada momento que continuar é preciso...

E lembrar de você sorrindo e até chorando dá razão a esse sentido todo que vai se abrindo bem aqui, no meu peito. Acho que é assim, sem muitas tentativas de explicação, sem qualquer teoria espalhafatosa: você existe em mim. E por isso mesmo vou procurar fazer tudo bem feito, sem sombra de sacrifício, sem ruga na testa, sem dramas, apesar disso tudo transparecer. Só porque você existe. Desse jeito...

sábado, 11 de julho de 2009

Só não se perca de mim.

Eu costumava imaginar você como algo concreto, sabe? Como naquele poema do Eugenio Montale, "Deste meu nome a uma árvore? (...) Eu, o teu, dei a um rio (...)", ou algo assim. Pois é. Imaginei dando teu nome a uma estrada, a uma longa estrada.

domingo, 5 de julho de 2009

Coração em compasso de espera.

E juntamente porque há sorte, há a felicidade dos encontros. Espelhos. Ele é todo feito de um olhar doce, de um caminho de moço menino. Penso na sua infância como um abraço de cuidar misturado ao olhar de criança madura. Acho que ele nunca soube fechar os olhos. Ainda que as pestanas pesassem, haveria sempre os outros... Ah! Seus outros olhos... Encarava em sorriso, quase mais janela que o cercado feito de cílios. Ou ainda outro, o olhar sem moldura, uma sede de mundo sem pálpebras, criado quando os fechava quieto buscando estrelinhas no sol a pino. Essa serenidade inventada eu bem que roubava pra mim. Roubava não, emprestava a juros, faria bom uso, tomava seus olhos por usucapião. Gosto de saber desse menino, ouvir cantar doce sua fala, me acalentando em seu cotidiano de mundo-novo-todo-dia. Muda em barco de madeira cheirosa, às vezes em chuva. Sempre seu sorriso, luz permanente de cor quente azulada. De presente, todo dia, lhe daria azuis em muitos tons, mãos dadas e um olhar compenetrado em colorir a cidade.

O seu olhar melhora o meu. Nunca esqueça disso.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Palavra dá forma, mas também deforma.

“Palavra. Tenho que escolher a mais bonita para poder dizer coisas do coração, da letra e de quem lê. Toda palavra escrita, rabiscada, no joelho, guardanapo, chão. Ponto, pula linha, travessão...”

A pergunta e a resposta cabem na Palavra. A certeza e a dúvida também. Mas como conjugá-las no tempo certo? A memória escreve o futuro com cores do passado, e o presente hesita entre tentativas de originalidade e resgates de rascunhos.

“...E a palavra vem, pequena, querendo se esconder no silêncio, querendo se fazer de oração, baixinha como a altura da intenção na insegurança. Vírgula, parênteses, exclamação. Ponto, pula linha, travessão...”

Ouço gravações antigas e tento lembrar quem fui, esperando que a voz que já foi minha diga algo que me explique. Releio-me para entender quem sou. Procuro laços fortes. Desfaço-me de roupas velhas, jogo fora cartas e fotografias. Descasco-me para entender quem sou. Desfaço laços.

“...E a palavra vem. Vem sozinha, que a minha frase invento pra te convencer. Vem sozinha, se o texto é curto, aumento pra te convencer...”

Construo e destruo para ver o que resiste e permanece. Quase tudo cabe na Palavra, mas o que transborda vem em mensagem cifrada, em pistas nas quais tropeço, em peças de quebra-cabeça nas quais adoro esbarrar. Como um brinde surpresa que surge no meio do jogo, pontos extras - salte 60 casas. Gosto de mudar de endereço e me re-decorar. Quando acho que já me sei de cor, apago-me - volte 30 casas. Quase tudo cabe na Palavra, mas a Palavra não cabe em tudo. Vida em música instrumental. Sinfonias e melodias assobiadas pelo vento que passa. Eu também passo - às vezes em silêncio.

“...Palavra. Simples como qualquer palavra que eu já não precise falar, simples como qualquer palavra que de algum modo eu pude mostrar, simples como qualquer palavra. Como qualquer palavra.”

Há o corpo. Há o símbolo. Há o sonho. Recados que deixo para mim mesma e casualmente me são entregues por outras pessoas. Recebo. A alguns respondo. A outros, apenas indago.

Em quantas línguas você se cala?