quarta-feira, 22 de julho de 2009

Entre o riso e o choro só existe o nariz...

Que fazer, senão chorar, sorrir, depois chorar de novo e por aí vai?

Tênis pesados, com meias bem grossas. Meu pé mergulha numa poça funda de água suja. Fica completamente encharcado. Eu estou no palco, com tênis brutos e molhados, e não acompanho a coreografia direito. Exposta ao público. Ando assim. Uma tentativa de delicadeza, de pertencer com harmonia ao conjunto, mas os passos pesam, deixam um rastro sujo, o desconforto dos pés frios, o medo de errar o salto, a impossibilidade da beleza no mover-se. Ele perguntou se foi esse o sonho, mas não, era assim o meu estar acordada. Aquela melancolia persistente, de tentar passos leves carregando peso e inadequação, a falta de calor em alguma parte e a sensação de ter em si algo impuro. Não era uma dor grande. Era como estar úmida e haver uma fresta de vento frio nas costas. Como estar descansada e bela com um sapato impróprio, tentando manter a elegância caminhando sobre bolhas e unhas encravadas e calos e cãibras. Por que você não tira esse tênis?, ele disse. Nós, eu disse. Quem os atou?, ele disse. Nós, eu disse. Não o culpe, ele disse. Eu calcei sapatos de outro. Sabia que não eram meu número, que não serviam para dançar, que vinham de caminhadas em pântanos. Eu tentei piruetas na lama. Perdi as sapatilhas. A dança perdeu a graça. Agora havia o peso em cada passo, o rastro, a saudade de andar descalça, os pés cansados. Ainda tentava seguir a música sutil, mas sabia que algo em mim estava denso em demasia. Ainda tentava o salto, mas via a sombra da queda crescer. Por que você insiste?, ele disse. Nós, eu suspirei.

Uma revelação sempre abre portas, para quaisquer caminhos que estejam diante de nós, para qualquer estrada que queiramos seguir. E o que é vida, senão este salto para grandes dias? Pra voar ou nadar, só tirando os sapatos. Pro melhor chegar, tem que haver espaço.

4 comentários:

Fabricio bezerra da guia disse...

Eu sei que vc já se cansou de ouvi isso ,mas :Bom texto,parabens ,vc escreve bem.

Sistema Zombie\ Nildo Junior disse...

Gostei do texto, vou seguir!

Felipe disse...

Bem interessante o texto.
Muito coerente e reflexivo. De fato, para sair e voar é necessário tirar os sapatos que nos seguram no chão.

Sucesso!

http://cerebro-musical.blogspot.com

.Intense. disse...

Fiquei sem palavras. Durante todo o percurso do texto [é quase um caminhar, uma saga...] tudo que pensei, foi 'tudo isso me veste, é meu número'.

E, confesso, fiquei curiosa a saber pela revelação...que há de ser?
Bjo saudoso, yasha
;*