domingo, 30 de agosto de 2009

Ela diz que é preciso acreditar.

Às vezes ela acha que sabe das coisas que ele nunca disse e se distrai em teorias breves e coloridas. Ele preenche espaços vazios com discursos caretas, diálogos de uma só cor, tensão apaixonada. Ela não sabe muito sobre espaços vazios. Ele sorri. Ela observa. Ele sabe dançar. Ela o abraça em movimentos leves. Ele antecipa os dias. Ela adia compromissos. Ele fez meia dúzia de escolhas erradas. Ela tenta resolver os erros que não são dela. Ele acha que sentir saudades é cafona. Ela acha que o amor é verbo mesmo quando substantivo. Ele acha que o amor é predicado. Às vezes ela acha que sabe das coisas...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Um dia de silêncio, vó.

"...Pedaço de mim, metade afastada de mim..."

Nove meses, vó. Em nove meses a gente faz outra vida, mas não resolve a morte.

Sabe, vó, às vezes me acho parecida com os elefantes. Eles preferem se isolar quando estão tristes, deve ser para não incomodar, para não contagiar os outros da manada. Nas horas tristes, vó, eu não digo nada. Ponho um silêncio bem alto no Mp4 e começo a escrever bem baixinho. (Chorar até que eu posso, desde que não me embace a vista.) Só não paro: tristeza é pra escrever. Tomo posse dessa dor que é toda minha. Até que passe e venha outra mais bonita.

"...Pedaço de mim, metade adorada de mim..."

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Cinza e sol.

"Já sonhei nossa roda gigante, esconde-esconde em você, já avisei todo ser da noite que eu vou cuidar de você, vou contar histórias dos dias depois de amanhã, vou guardar tuas cores, tua primeira blusa de lã. Menino, vou te guardar comigo..."

Pode ser leve e ter sol aquele raio que faz o arco-íris na garoa. Pode ser breve e ser só aquele beijo que faz a tua vida ser boa. Pode ser louco, e talvez, quando a razão se distrai e vaga por aí à toa, pode ser pouco essa vez, mas suficiente para que eu seja a pessoa que pinta o seu cinza de sol, que acende a luz do farol, que embebe o teu coração para que ele chova no abraço da minha mão.

"...Teu sorriso eu vou deixar na estante para eu ter um dia melhor, tua água eu vou buscar na fonte, teu passo eu já sei de cor. Sei nosso primeiro abraço, sei nossa primeira dor, sei tua manhã mais bonita, nossa casinha de cobertor. Menino, vou te casar comigo... Vou te guardar comigo..."

Pode ser brasa ou carvão, pode ser sim que vira não, pode ser casa ou galpão, ou ser até dormir no chão. Pode ser gelo ou zelo, desvelo, paixão. O que importa é que sempre pode ser, e poder ser é que me dá inspiração para pintar seu cinza de sol, acender luz, ser seu farol, embebedar seu coração para que ele dance solto na palma da minha mão.

"...Sou teu gesto lindo, sou teus pés, sou quem olha você dormindo. Ô menino, guardo você comigo. Menino, guardo você comigo..."

Pode ser nuvem e passar, pode ser brisa e voar, pode ser terra e brotar. E poder ser é minha asa, e meu corpo é tua casa, o meu tom é tua cor, arco-íris quando chove a tua dor, que pinta o seu cinza de sol, acende a luz, é teu farol, que embebe o teu coração para que ele chova no abraço da minha mão.

"...Nosso canto será o mais bonito, Mi Fá Sol Lápis de cor, nossa pausa será o nosso grito que a natureza mostrou. A gente é tão pequeno, gigante no coração, quando a noite traz sereno a gente dorme num só colchão. Menino, vou te sonhar comigo. Menino, vou te sonhar comigo..."

sábado, 22 de agosto de 2009

- E se você ficasse dessa vez?


Quantas vezes mais terei que retocar a maquiagem até você chegar? Às vezes eu olho embaixo da cama, atrás da cômoda, dentro da geladeira, nas gavetas da sala, quem sabe eu te encontro, no lugar certo, só pra ser mais feliz, bem assim por acaso...

Quantas vezes mais as estrelas cadentes vão me virar a cara negando um pedido? Às vezes eu rezo, acendo uma vela, faço uma prece, jogo minha fé pela janela, depois me arrependo, vou lá, pego de volta, toda encharcada, estendo no varal, vento que seca, tempo que passa, e você, nada...

Quantas vezes mais vou duvidar da sua existência? Será que estás o tempo todo aqui, como um fantasma, a me acompanhar, sem que eu perceba, na minha cegueira, tua presença invisível, espalhada pela sala, espírito sarcástico, acenando pra mim, e eu, nada...

Quantas vezes mais você vai gritar mesmo sabendo que eu não posso te ouvir? Canta uma música, faz gestos, faz mímica, tenta qualquer coisa, eu preciso te ver, não desiste de mim, fica um pouco mais, puxa uma cadeira, senta, olha umas fotos, pega uma bebida...

Quantas vezes mais terei que me destruir para te encontrar? Eu ando pela casa, troco os móveis de lugar, mudo a cor do cabelo, jogo as fotos pela janela, depois me arrependo, vou lá, pego todas de volta, estendo no varal, amareladas, tempo que mancha, vento que passa, e você, quase posso te ver, em cada uma delas: perto de mim fazendo careta, sorrindo atrás de uma árvore, correndo por entre nuvens num dia de sol...

Quantas vezes mais terei que lembrar a mim mesma onde foi que eu guardei a minha felicidade? Às vezes eu assobio enquanto penduro a fé no varal, me olho no espelho enquanto você se esconde do tempo num porta-retrato, cativo o prazer dessa constante busca, fecho os olhos aos acenos e continuo procurando, nos lugares errados, só pra ser mais infeliz, bem assim por acaso...

“Até ontem tudo estava aqui, casa, sol, felicidade e nós, mas aconteceu e eu nem percebi quando tudo se perdeu de mim. Quadros, móveis, a televisão, nossas fotos, seu amor por mim, devem estar aqui n'outra dimensão, as coisas somem sem explicação...”

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O fim que nos persegue desde o começo.

Está ali todos os dias. Infinito. O adormecer irresistível que nos mata temporariamente, o despertar que é a insistência da vida, o coração que bate sem ser mandado, o ar que sabe como sustentar o corpo... Ignorantes que somos de como o que é vivo nos domina cada célula, e cada célula morre sem aviso ou permissão, o tempo todo. Habitamos um corpo que nunca é o mesmo. Não temos mais o corpo com que abandonamos o ventre, não temos mais o corpo que foi ao primeiro dia de aula. Cabelos, unhas e pêlos crescem e são cortados continuamente. Líquidos entram e saem. Perdas e ganhos à flor da pele, que murcha e refloresce constantemente...

O que é o eu que permanece?

A árvore não deixa de ser a morte da semente, assim como a borboleta é o fim da lagarta. Mas nós nem sempre voamos, nem sempre brotamos. O que somos diante do que já não é? O que podemos ser quando algo deixa de ser?

Dor e alívio.

A vida insiste.
A morte insiste.
Você resiste.
Porque é infinito o fim, mas há sempre uma nova história começando depois da última página.

sábado, 15 de agosto de 2009

Acho que sábado é a rosa da semana.

E aí você chegou com tantos carinhos que deixou aqueles dias mais aconchegantes. Eu já disse que adoro quem sorri com naturalidade? Pois é... Quando o rosto se ilumina de forma sincera, tudo fica transparente, límpido. Não que eu esconda a melancolia. Os momentos de tristeza devem ser vividos até que estanquem, saciados. Tenho profundo respeito pelas minhas lágrimas, mas, como diz Caetano, minha risada é ainda mais reverenciada.

Hoje não quero lembrar da insistente falta de compreensão da minha mãe, do humor atravessado de algumas pessoas, nem da cabeça que ainda teima em doer. Quero dizer sim ao riso farto, à capacidade de ser solar, apesar das nuvens escuras que circundam nosso céu.

Agosto já está na metade e é um mês revelador. Acreditem.

sábado, 8 de agosto de 2009

Passos e impasses.

Se a sombra assombra, ascende e acende o sol no seu céu, chama a chama que mora agora nas entranhas dos teus vulcões, a brasa que abrasará o frio rio que te percorre. Não corre! A dor adora o medo. Não corre! As sombras são (.) só assombração.

Essa semana foi de decisões. Minha mãe sempre me classificou como quem não sabe do que quer, “nunca soube”, (relacionado a profissionalismo), isso deixava minhas botas um pouco pesadas. Nessa semana me livrei dos meus medos do amanhã e decidi enfrentar. Enfrentar a inscrição do vestibular para Farmácia na UFRN, embora ninguém tenha me apoiado aqui em casa, me pedindo para mudar, para tentar uma coisa mais fácil, dizendo que era um curso muito difícil, muito longo, muito caro, e muito difícil de novo. Mas eu fui lá e cliquei em "Concluir inscrição".

E enfrentar mais uma coisa, não menos importante, pelo contrário, a que ponho agora em primeiro lugar no meu trajeto, a inscrição do vestibular para Medicina Veterinária na UFCG, um sonho que tinha desde criança, mas que nunca consegui ao menos arriscar, sempre tive receio por ser um curso difícil de entrar, muitas vezes cometi a burrada de dizer que não tinha disposição para estudar e passar em um curso assim, além que ser numa universidade conhecida pelo alto nível que tem. Também por precisar sair de casa para isso, mudar de cidade, morar só, perder a mordomia de casa; mesmo acreditando que uma hora ou outra temos que cortar nosso cordão umbilical e seguir pelo caminho dos nossos sonhos. Riram de mim aqui quando disse que ia fazer. Com ar de deboche, sabe? Disseram para eu acordar. “Serião”. Só ouvia os comentários na sala, na cozinha, em todos os lugares, ainda ouço. Há de se pensar que é mentira, mas não. Minhas botas mais uma vez ficaram pesadas, bem pesadas. Mas eu não disse nada, fingi nem ter ouvido, coloquei fones nessa hora, fones invisíveis que deram conta do recado e me fizeram respirar fundo, bem fundo, e contar até dez.

Sabe, eu não peço sorte (apesar de acreditar um tanto nela), nem ‘tudo vai dar certo’, porque acredito que nessas horas frases feitas é um saco, mas peço que independente de religiões ou crenças, que vocês peçam pela minha coragem, determinação, auto-estima, para que elas continuem no ápice, como estão. E eu vou fazer por onde minhas botas ficarem leves no final do ano, bem leves, ao contrário da consciência de alguns.

E sabe? Eu nunca gostei do fácil.

O olhar que vê além do óbvio não se acomoda na estrada dura da vida. Corre entre pedras como rio, criando percursos, se desviando por entre as brechas do impossível, sem jamais perder a fluidez. Flutuamos, flores ao vento. Algumas se perdem, outras rebrotam quando acham pouso em solo generoso. Tentamos concretizar o impalpável e tocar o invisível do que é sólido. Traçamos rotas e linhas e com elas fazemos nosso bordado, que tapa os buracos inevitáveis do delicado tecido dos dias.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mas não toquei com as mãos o azul que me tomou.

Eu torno a brilhar, nessa constelação maluca que é a vida. Aqui o meu Sol de Inverno brilha, e aquece o meu coração também.

Mas eis que as estrelas voltam a brilhar, numa tarde, numa manhã, numa noite, quando menos esperamos. Podem ser despertadas pela alegria de um telefonema (“você é maior que isso”), através da leitura de um poema ("seus olhos ao invés de verdes, deveriam ser vermelhos incandescentes"), ou apenas pela contemplação do tempo recuperado, feito dádiva.

Depois de dias e dias de Bridget Jones (sim, com muito sorvete de chocolate, drinks nos horários mais impróprios e choro na frente da TV), volto à rotina de minha “sitcom” meio sem graça, mas minha (e de mais alguns outros). Repleta dos tais erros e acertos de que tanto falo. Se antes havia o receio de me transformar em personagem, agora assumo o risco e escancaro os dados biográficos que quiser.

(É verdade que muita gente chega aqui pela primeira vez e resume tudo pelo texto do dia, (não só aqui, acredito), e isso me faz roer as unhas um pouco. Claro que tenho meus dias sim e meus dias não, e se você chega nos dias não... Bem, eu não posso fazer nada. Só quero dizer que não sou só dias não, pelo contrário, eu evito esses dias, já para isso aqui não parecer um livro de auto-ajuda “Quem mexeu no meu queijo”, que por sinal passo longe deles. Mas bem, isso foi só um comentário para que algumas pessoas possam rever seus conceitos, (quem sabe, um dia), e não julgar tanto por primeira impressão. Existem opiniões e Opiniões. Respeito cada uma, já o fato de concordar é outra história.)

Não me sinto mais atada a julgamentos alheios. Esse espaço volta a ser o que sempre foi: página em branco a ser preenchida com o que der e vier, desde os pontos de apoio que me transformam (sempre presentes) à última dor na consciência, ao último gole, último golpe. Pois é isso: apertem os cintos já que o piloto voltou a assumir o controle da própria situação. Quem sabe, um dia, chego a algum lugar?

Os espinhos? Sim, os espinhos existem. Mas não machucam a flor, não chegam a rasurar desenho tão bonito quanto o que tenho tentado esboçar nesses últimos dias. Acordar com uma voz linda cantarolando músicas antigas, te abraçando e te beijando de longe, de tão longe, chega bem perto, mas muito perto mesmo do coração selvagem dessa vida.

domingo, 2 de agosto de 2009

"...E o teu medo de ter medo de ter medo..."

Andava confusa. Com isso passei a confrontar meus próprios leões, frente a frente, e era capaz de olhá-los nos olhos. Há algum tempo eu não me sentia assim, mas é do tipo de coisa que nunca se esquece. Medo.

Ainda há um pouco da sua insegurança, sua fraqueza, em mim. Ainda há um pouco dos teus medos, suas incertezas. Ainda há um pouco da sua voz e das canções que você não cansava de ouvir. Ainda há um pouco de vida naquilo que você tocou.

Quando se está entre dúvidas e cansaço, quando o que te completa já está longe demais dos teus passos, quando ignorar fatos não comove, eu te busco no fundo do meu pulso cansado.

Ainda há um pouco de mim em você. Ainda há muito de você em mim.