sábado, 22 de agosto de 2009

- E se você ficasse dessa vez?


Quantas vezes mais terei que retocar a maquiagem até você chegar? Às vezes eu olho embaixo da cama, atrás da cômoda, dentro da geladeira, nas gavetas da sala, quem sabe eu te encontro, no lugar certo, só pra ser mais feliz, bem assim por acaso...

Quantas vezes mais as estrelas cadentes vão me virar a cara negando um pedido? Às vezes eu rezo, acendo uma vela, faço uma prece, jogo minha fé pela janela, depois me arrependo, vou lá, pego de volta, toda encharcada, estendo no varal, vento que seca, tempo que passa, e você, nada...

Quantas vezes mais vou duvidar da sua existência? Será que estás o tempo todo aqui, como um fantasma, a me acompanhar, sem que eu perceba, na minha cegueira, tua presença invisível, espalhada pela sala, espírito sarcástico, acenando pra mim, e eu, nada...

Quantas vezes mais você vai gritar mesmo sabendo que eu não posso te ouvir? Canta uma música, faz gestos, faz mímica, tenta qualquer coisa, eu preciso te ver, não desiste de mim, fica um pouco mais, puxa uma cadeira, senta, olha umas fotos, pega uma bebida...

Quantas vezes mais terei que me destruir para te encontrar? Eu ando pela casa, troco os móveis de lugar, mudo a cor do cabelo, jogo as fotos pela janela, depois me arrependo, vou lá, pego todas de volta, estendo no varal, amareladas, tempo que mancha, vento que passa, e você, quase posso te ver, em cada uma delas: perto de mim fazendo careta, sorrindo atrás de uma árvore, correndo por entre nuvens num dia de sol...

Quantas vezes mais terei que lembrar a mim mesma onde foi que eu guardei a minha felicidade? Às vezes eu assobio enquanto penduro a fé no varal, me olho no espelho enquanto você se esconde do tempo num porta-retrato, cativo o prazer dessa constante busca, fecho os olhos aos acenos e continuo procurando, nos lugares errados, só pra ser mais infeliz, bem assim por acaso...

“Até ontem tudo estava aqui, casa, sol, felicidade e nós, mas aconteceu e eu nem percebi quando tudo se perdeu de mim. Quadros, móveis, a televisão, nossas fotos, seu amor por mim, devem estar aqui n'outra dimensão, as coisas somem sem explicação...”

5 comentários:

meus instantes e momentos disse...

um belo texto .
A felicidade não está necessariamente em alguem, mas por aí
ao teu alcance.
Basta esquecer os ontens da vida...
Apareça
Maurizio

Thais Motta disse...

Achei teu texto maravilhoso.

Você não poderia ter terminado de outra maneira . Sou apaixonada nessa musica do Leoni , que deixou teu texto ainda mais encantador .

Um beijo e boa semana !

Caféína disse...

Se começarmos a olhar pra outros lado, e até mesmo pro lado de dentro de nós mesmos, descobrimos tanta coisa...

FábioE§¢orpïão disse...

Eu achei esse texto MUITO bonito.

Acho que é uma constante: as coisas que somem, soterradas pelo tempo, congeladas em fotos amareladas, engaioladas em porta-retratos.

Gostei muito, se parece com coisas que escrevi há tempos atrás.

Vou voltar aqui.

www.ocolecionadordehistorias.com.br

luiz scalercio disse...

bellissimo texto .
prbns pelo blog .