domingo, 20 de setembro de 2009

Dos mares que nos cercam.

E novamente você me vem e me conta do mar aberto das costas de sua terra, do vento gélido que sopra nos invernos, sem nenhuma baía, sem nenhuma gaivota sobrevoando o cinza das águas. Invade-me assim e me leva para histórias ou caminhadas sem fim. Nesses dias o sol não se manifesta entre as nuvens, e lhe imagino então parado sozinho sobre a areia, o vento que bate em seu rosto, as mãos com os dedos roxos - engelhados de frio -, enfiados até o fundo dos bolsos, o vento e novamente o vento que bate em seu rosto, esse mesmo que me olha, raramente. Seu olho bate em mim e logo se afasta, como se em minha íris houvesse cinza ao invés uma borboleta diurna ou um arco-íris, como se em minhas pupilas houvesse uma faca, uma pedra, um gume. Seu rosto mais nu do que sempre, à beira-mar, com esse vento batendo e misturando seus cabelos e pensamentos, e eu sem saber o que se mistura agora quando seu olho outra vez desliza para fora e distante do meu.

Mas é exatamente quando a pedra ou faca no fundo do meu olho afasta o seu que lhe olho detalhado, e você nunca saberá quanto e como já conheço cada milímetro da sua pele, esses vergões cada vez mais fundos rodeando as sobrancelhas grossas que se erguem subitamente para depois se dissolverem em pêlos cada vez mais ralos. E tão disfarçada lhe espio que nunca me percebes assim, lhe invadindo como se através de fiapo, de cada poro, pudesse chegar a esse mais de dentro que me escondes leve, relutante, através de histórias como essa, do mar, dos exílios, das cicatrizes, e em tudo que me contas pensando, suponho, que é seu jeito de dar-se a mim.

Percebo que se escondes ainda mais, como se caso você me contasse de si negasse a possibilidade de eu lhe descobrir atrás e além de tudo que me dizes. É por isso que me escondo dessas suas histórias que me prendem cada vez mais no que não é você, tento fugir para longe e a cada noite, como uma criança receosa de pecados, punições de sonhos vingadores com espadas flamejantes, prometo a mim mesma nunca mais ouvir, nunca mais ter a você tão mentirosamente próximo.

Às vezes digo coisas azedas e de alguma forma quero lhe fazer compreender que não é assim, que eu tenho um medo cada vez maior do que venho sentindo em todos esses meses - e não se soluciona -, mas volto e volto sempre, então me invades outra vez com o mesmo jogo e, embora eu suponha que conheça as regras, me deixo tomar inteira por seus estranhos discursos, a juntar-se com seus medos que não decifro, a aceitá-los como um cão faminto aceita um osso descarnado, essas migalhas que você vai me jogando entre as palavras e os pratos vazios. Torno sempre a voltar, talvez castigada pelo seu olhar que não se debruça sobre nenhum outro assim como o meu, ou temendo a faca, a pedra, o gume das suas histórias longas, das suas memórias tristes, cheias de corredores escuros. Tornarei sempre a voltar porque preciso desse osso, dos farelos que têm me alimentado ao longo deste tempo, e choro sempre quando os dias terminam porque sei que não nos procuraremos pelas noites, quando o meu perigo aumenta, quando meus olhos compenetram na sua lembrança de cada vez que me procuras e me tomas. Contudo me enveneno mais quando não vens, e ninguém então sabe de mim, parada feito velha num resto de setembro, escurecida pela sua ausência. E me anoiteço ainda mais quando estás presente e outra vez me atacas e me arrancas de mim, me desviando por esses caminhos conhecidos, onde atrás de cada palavra tento desesperada encontrar um sentido, um código, uma senha qualquer que me permita esperar por uma vereda onde não desvies tão rapidamente os olhos, onde sua mão não deslize tão passageira pelo meu braço.

Eu bem sei de como tenho tentado me alimentar dessa casca que chamamos de pequenas esperanças, enquanto murcho feito animal alimentado apenas com água, uma água rala e pouca, não essa densa, espessa e agitada do mar que você me falou.

Só quero que a noite nos arranque inesperadamente e definitiva dessa mentira gentil onde não sei se decididos ou por acaso afundamos pouco a pouco, bêbados como moscas sobre o açúcar, melados de nossa própria cínica doçura acovardada, contaminados por nossa falsa transparência, encharcados de palavras e literatura, e depois nos jogue completamente nus, sem nenhuma história, sem nenhuma palavra, nessa mesma beira de mar das costas da sua terra, e de novo então você me vem, me chega, e me invade, e me toma, e me pede, e me perde, e se derrama sobre mim com seus olhos sempre fugitivos, e abres a boca para libertar novas histórias, e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteira nas coisas que me contas, e assim calada, lhe mastigo dentro de mim, até que o não-feito acumulado durante todo esse tempo cresça feito célula cancerígena para, quem sabe, explodir em feridas visíveis indisfarçáveis, flores de um louco vermelho na superfície da pele.

E enquanto você me fala, e me prende, e me envolve, e me fascina com sua voz sempre baixa, de estranho acento estrangeiro, penso sempre que o mar não é esse denso escuro que me contas - sem palmeiras, nem ilhas, nem baías, nem gaivotas-, mas outro mais claro e verde, num lugar qualquer onde é sempre verão e as emoções limpas como as areias que pisamos, não sabe desse meu mar porque nada digo, e temo que seja outra vez aquela coisa piedosa, esfomeada, as pequenas esperanças, mas quando desvio meu olho do seu, dentro de mim guardo sempre seu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão entrelaçados que seria impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso. E vagarosamente falas, e vagarosamente calo, e vagarosamente quebro, e vagarosamente falho, e vagarosamente caio cada vez mais fundo, e já não consigo voltar à superfície, porque a mão que você me estende ao invés de me elevar me afunda mais e mais enquanto dizes, e contas, e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses, e me cegasses, e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim, nem agora, nem aqui.

2 comentários:

Klinger disse...

caramba..

caramba....


me deixou com ausência de palavras..

Danila :) disse...

Gostei muito, muito mesmo, tem aquela coisa né de que normalmente aquilo que a gente gosta é porque nos identificamos de alguma forma e é pura verdade me vi em muitas partes. Sentimentos que nos prendem ou nós nos prendemos a eles de tal forma que não sabemos mais quem está dentro de quem, quem e o que... algo que nunca termina mesmo quando termina. Achei esse um dos seus melhores textos, to sempre aqui... beijos.