terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Conexão em rede.

Tenho uma varanda que tem uma rede. Diante dessa rede o mundo se apresenta em retalhos, recortes de vidas diversas que cada janela me mostra, além do que o céu me traz.

Tem as gaiolas da varanda em frente que de repente sumiram todas. Aí penso para onde terão ido, e porque um dono de pássaros se desfaria de todos de uma vez só, e porque um dia teve prazer em prendê-los afinal. Tem a loura que toda manhã tira o pó da casa e bate a flanela na janela, sempre rigorosamente com os mesmos movimentos, sempre tocando pra mim o Chico dos versos "todo dia ela faz tudo sempre igual". Aí penso nas formas metódicas de viver. Tem o bebê que já anda, filho do casal que, uma madrugada, vi chegar ainda nos trajes da cerimônia e estranhei que ela, noiva de branco, entrasse em casa com o marido e mais sogro e sogra/pai e mãe a tiracolo, justo na noite de núpcias. Aí pensei "vidinha que começa besta, acaba besta" e também como o tempo passa rápido, o menininho que chorava tanto nas madrugadas já tem até cabelos. Tem as pipas que morrem em combate no céu azul, de repente uma cai e vai sendo levada pelo vento, desmaiada, e aí penso como é bom que ainda existam meninos que soltem pipa. Aqui dentro tem aquele meu vaso ex-moribundo que de uns tempos pra cá resolveu dar flor de novo. Ontem ele estava doente e, quando pus o remédio-veneno, fui obrigada, com pesar, a destruir uma teia de aranha que estava lá no meio dele, uma teia pop com núcleo em ziguezague. Pois a aranha, por puro despeito, hoje entardeceu numa teia quatro vezes maior e ficou lá me desafiando, sorrindo aracnideamente. Aí pensei como são rápidas elas e como são grandes certas coisas pequenas. Tem as nuvens que se fazem e desfazem, e penso como tudo é efêmero, e tem as estrelas, que quanto mais se olha, mais se vê, e penso como tudo é questão de foco.

E tem sempre alguém em outra janela que me espreita e certamente pensa: "Olha lá aquela moça, há quanto tempo ali fazendo nada naquela rede", aí penso que esse alguém não sabe das coisas. Mesmo parada posso fazer muito. Aqui mesmo, quieta na minha rede, tenho aulas de mundo, de poesia e de vida.

São nesses momentos quando o NADA é TUDO que paramos para relativizar a frieza das coisas do mundo e a perceber o quão subjetivas são as coisas quando passam pelos nossos "olhos poéticos". É impossível ouvir o vento e não se encantar com a sua música, não se perguntar "Pra onde vai o vento? Pra onde leva essa poeira?"... Como uma vez li em um livro do Saramago: "Se podes ver, repara!"


Ps.: Gente, desculpa o sumiço nos blogs e aqui no Labirinto. Faz uns quatro dias que estou com dificuldade de acessar a página do blogspot, hoje continuou do mesmo jeito até que, por acaso, eu consegui acessar. Prometo que assim que isso voltar ao normal por aqui eu vou recuperar todo esse tempo perdido também, ou todos esses posts perdidos. (haha). Abração. :*

domingo, 20 de dezembro de 2009

Explode, ri, coração! [À Felicidade que me invadiu e aos Blogueiros]

"...Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar..."

O azuldacordomar às vezes vira cinza e passa. O cinza vai clareando e vai dando um tom bonito, um tom pérola que muito me agrada. Posso transformar o tom pérola no azul de novo, no azuldacordocéu dessa vez, afinal, a caixa de lápis de cor é minha e as tintas e os pincéis também são meus. As cores se misturam em aquarela e meu sorriso se abre radiante. Acordei com o tom azuldacordocéu hoje, diferentemente do cinza de dias atrás. Sinto que coisas boas estão por vir e não é porque está chegando um novo ano. É ano novo para mim a cada sensação boa que o vento me trás, a cada manhã que eu acordo com um sorriso no rosto e com o pé direito antes do esquerdo. Hoje eu posso até ver um arco-íris surgindo no céu azul, mesmo com um sol escaldante, e ele surge ao redor do sol que brilha feliz quando vê que todos o olham, admirados, como há muito não acontecia. Hoje a felicidade veio até mim e parou. Parou e disse que veio passar uns dias comigo. Bem que me disseram que a felicidade chega de madrugada... Eu soube esperar acordada e a vi chegar, sem atrasos. Ela trouxe a confiança com ela e fez renascer uma luz que se fazia fraca em mim. A luz iluminou meus olhos, que tanto brilham agora, e vai me ajudar a seguir minha trilha. E que venham pedras e obstáculos. Não vou mais engessar o braço antes de subir no muro. Vou deitar no campo imaturo da minha esperança, abraçar o mundo sem medo e respirar feliz mesmo diante do cansaço.

Os olhos não vêem e as mãos permanecem a longa distância, mas nós ainda conseguimos sentir como se estivéssemos perto, lado a lado. Atravessamos as conturbações do tempo e do espaço e mergulhamos na confiança de que temos uns aos outros aqui mais perto, onde apenas um status nos afasta e um piscar de olhos nos aproxima com o coração pulsando mais forte. Não há toque, sorriso visível, nem o mirar dos olhos, mas o que importa quando o coração finge entender o que sente? Eu falo de qualquer bom sentimento que nos lembre que somos no mínimo seres suportáveis e no máximo alguém de tanta importância para alguém que nem conhecemos fisicamente. Eu falo de vocês, de nós, que acreditamos que há pura vida no mundo virtual. E eu não sei explicar que gosto tem isso, mas sei o gosto que fico sem isso. Então, por tudo o que já senti, por todos que já conheci e admirei, por todos que me fizeram chorar com seus textos encantadores cheios de vida e verdade, por todos que não sentem vergonha em falar dos seus dias e que renascem a cada palavra dita, por todos os comentários carinhosos e verdadeiros, para os que me enchem de alegria, aos amigos adquiridos ao longo dos dias em cada post, aos mais próximos e aos mais distantes, aos que me mandam bons ventos a cada dia e aos que me fazem abrir um sorriso a cada notícia das suas manhãs, a cada email, a cada comentário, enfim, eu deixo a vocês essa minha energia que amanheceu florida hoje. E peço para que vocês não deixem morrer o tal bom espírito que ronda esse final de ano, que não esperem a meia-noite do último dia do ano para decidir deixar para amanhã o que deveriam ter feito ontem. Tenho em mim um mundo inteiro e vocês têm a mim em palavras e sentimento verdadeiro, mesmo sem o mirar dos olhos e o sorriso visível. Nem tenho palavras para agradecer pelos abraços à distância desse ano, pelas palavras de conforto, pelas broncas, pelas conversas no MSN, pelo carinho terno, por essa sensação tão boa que vem até mim, fica, e tem vontade de nunca mais ir embora. Essa sensação brilha, e brilha tão forte que meu sorriso parece nem caber no rosto. Acreditem!

“...Eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim, como se fosse o sol desvirginando a madrugada...”

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Mergulho.

As palavras secam, o coração parece que aperta vez em quando, e o único pensamento no momento é não. O desejo se esvai como em goteira, mas nenhuma lágrima escorre. A alma parece que está manchada, ferida, líquida, corrente. Barco à deriva. O dia nasceu lindo, contudo, cheio de sol e luz. (E é daí que surge a verdade: Ele sempre nasce, independente da nossa vivacidade). O ar está limpo e o clima é um consolo para o corpo cansado, até ontem tão encolhido. Há uma chance, talvez mais de uma, quem sabe todas. A esperança está acesa como vela. Não vou me anestesiar, nem me abater, tão pouco vou meter o dedo outra vez na tomada. Aprendi, e a lição não foi esquecida. Acho que até já sei cuidar de mim. Sei enxergar, escolher, cuidar dos meus tesouros. Já entendo que alguns trechos do percurso terei que cumprir sozinha, e apenas sozinha darei oportunidade a novos encontros, novas tentativas, outras cicatrizes. Aceito. Meu sangue volta a se aquecer. Sinto como se estivesse deitada sobre a areia da praia, sonolenta e sentindo aquela brisa que vem, passa, mas deixa um pouquinho dela comigo. O mar me seduz e logo me vem a vontade de me entregar às águas e ao sal, à agitação das ondas e do vento. Entrarei no oceano, mas sem perder o pé, porque quero voltar, lavada e limpa, para continuar a minha caminhada.


Acabaram-se as viagens, acabaram-se as provas (e acabou todo esse sumiço no blog também). Sensação de alívio, apesar dos pesares. Agradecida aos que não deixaram de vir. Beijo de tanta saudade disso tudo. :*

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Tanto mar...

Hoje decidi abraçar a verdade e ordenei que ninguém mais a tiraria daqui. Talvez muita gente não entenda isso, até porque "Só quem já cruzou desertos saberá chorar em frente ao mar". E acredite, eu cruzei esse deserto tantas vezes, chorei tanto em frente aos mares alheios e o meu ficou aqui intacto. Por isso, agora tenho que viver o mar de sentimentos que ficou à minha espera por tanto e tanto tempo.

Dentro de mim o mar não anda revolto como há dias atrás. Hoje ele amanheceu calmo como há dias eu pedi que estivesse. Aqui dentro ainda está frio e eu sei que o que eu quero está lá nas profundezas para algumas pessoas, mas mesmo sendo difícil chegar até lá, eu vou nadar à procura, e sempre que eu pensar em fraquejar eu vou lembrar de todos os brilhos mais reforçados nos olhos que me passam luz para eu seguir. Quando eu mergulho e me recordo desses olhos eu gosto do que vejo. E sabe? Já quase posso tocar o meu sonho. Sei que agora ele está pertinho e não vai ser depois de ter enfrentado tanto mar que eu vou parar e olhar para trás. Olho para frente e até posso sentir a coragem reluzente batendo à porta.

O azul que vejo quando busco por meu sonho é muito mais forte que o meu. Eu estico a mão e tento alcançar um pouco desse azul. Creio que foram as dificuldades que essa busca já me causou, muitas vezes me faltando forças e o ar, que a faz ter um tom mais forte. Mesmo com medo, eu mergulho. Não me vejo sozinha, encontro outras pessoas na mesma busca. Às vezes me encontro à beira do cansaço, mas logo busco meu cais e lá reponho todo o meu ser, todo o querer é relembrado, faço questão. Com algumas ondas me jogando para trás, eu nado contra a correnteza, contra a tempestade que vem à tona toda noite quando me deito.

Enquanto eu estiver a favor do tempo que me foi dado, eu ainda sentirei a luz dos olhos que me guiam e ainda esticarei a mão mais perto, mesmo que lá fundo, na escuridão. Levarei comigo a luz que tenho guardado para a linha de chegada, e os mares desses olhos que me guiam continuarão acalmando aqui dentro de mim, junto ao meu.


"...Tanto mar para chegar..."