Tenho uma varanda que tem uma rede. Diante dessa rede o mundo se apresenta em retalhos, recortes de vidas diversas que cada janela me mostra, além do que o céu me traz.
Tem as gaiolas da varanda em frente que de repente sumiram todas. Aí penso para onde terão ido, e porque um dono de pássaros se desfaria de todos de uma vez só, e porque um dia teve prazer em prendê-los afinal. Tem a loura que toda manhã tira o pó da casa e bate a flanela na janela, sempre rigorosamente com os mesmos movimentos, sempre tocando pra mim o Chico dos versos "todo dia ela faz tudo sempre igual". Aí penso nas formas metódicas de viver. Tem o bebê que já anda, filho do casal que, uma madrugada, vi chegar ainda nos trajes da cerimônia e estranhei que ela, noiva de branco, entrasse em casa com o marido e mais sogro e sogra/pai e mãe a tiracolo, justo na noite de núpcias. Aí pensei "vidinha que começa besta, acaba besta" e também como o tempo passa rápido, o menininho que chorava tanto nas madrugadas já tem até cabelos. Tem as pipas que morrem em combate no céu azul, de repente uma cai e vai sendo levada pelo vento, desmaiada, e aí penso como é bom que ainda existam meninos que soltem pipa. Aqui dentro tem aquele meu vaso ex-moribundo que de uns tempos pra cá resolveu dar flor de novo. Ontem ele estava doente e, quando pus o remédio-veneno, fui obrigada, com pesar, a destruir uma teia de aranha que estava lá no meio dele, uma teia pop com núcleo em ziguezague. Pois a aranha, por puro despeito, hoje entardeceu numa teia quatro vezes maior e ficou lá me desafiando, sorrindo aracnideamente. Aí pensei como são rápidas elas e como são grandes certas coisas pequenas. Tem as nuvens que se fazem e desfazem, e penso como tudo é efêmero, e tem as estrelas, que quanto mais se olha, mais se vê, e penso como tudo é questão de foco.
E tem sempre alguém em outra janela que me espreita e certamente pensa: "Olha lá aquela moça, há quanto tempo ali fazendo nada naquela rede", aí penso que esse alguém não sabe das coisas. Mesmo parada posso fazer muito. Aqui mesmo, quieta na minha rede, tenho aulas de mundo, de poesia e de vida.
São nesses momentos quando o NADA é TUDO que paramos para relativizar a frieza das coisas do mundo e a perceber o quão subjetivas são as coisas quando passam pelos nossos "olhos poéticos". É impossível ouvir o vento e não se encantar com a sua música, não se perguntar "Pra onde vai o vento? Pra onde leva essa poeira?"... Como uma vez li em um livro do Saramago: "Se podes ver, repara!"
Ps.: Gente, desculpa o sumiço nos blogs e aqui no Labirinto. Faz uns quatro dias que estou com dificuldade de acessar a página do blogspot, hoje continuou do mesmo jeito até que, por acaso, eu consegui acessar. Prometo que assim que isso voltar ao normal por aqui eu vou recuperar todo esse tempo perdido também, ou todos esses posts perdidos. (haha). Abração. :*
Tem as gaiolas da varanda em frente que de repente sumiram todas. Aí penso para onde terão ido, e porque um dono de pássaros se desfaria de todos de uma vez só, e porque um dia teve prazer em prendê-los afinal. Tem a loura que toda manhã tira o pó da casa e bate a flanela na janela, sempre rigorosamente com os mesmos movimentos, sempre tocando pra mim o Chico dos versos "todo dia ela faz tudo sempre igual". Aí penso nas formas metódicas de viver. Tem o bebê que já anda, filho do casal que, uma madrugada, vi chegar ainda nos trajes da cerimônia e estranhei que ela, noiva de branco, entrasse em casa com o marido e mais sogro e sogra/pai e mãe a tiracolo, justo na noite de núpcias. Aí pensei "vidinha que começa besta, acaba besta" e também como o tempo passa rápido, o menininho que chorava tanto nas madrugadas já tem até cabelos. Tem as pipas que morrem em combate no céu azul, de repente uma cai e vai sendo levada pelo vento, desmaiada, e aí penso como é bom que ainda existam meninos que soltem pipa. Aqui dentro tem aquele meu vaso ex-moribundo que de uns tempos pra cá resolveu dar flor de novo. Ontem ele estava doente e, quando pus o remédio-veneno, fui obrigada, com pesar, a destruir uma teia de aranha que estava lá no meio dele, uma teia pop com núcleo em ziguezague. Pois a aranha, por puro despeito, hoje entardeceu numa teia quatro vezes maior e ficou lá me desafiando, sorrindo aracnideamente. Aí pensei como são rápidas elas e como são grandes certas coisas pequenas. Tem as nuvens que se fazem e desfazem, e penso como tudo é efêmero, e tem as estrelas, que quanto mais se olha, mais se vê, e penso como tudo é questão de foco.
E tem sempre alguém em outra janela que me espreita e certamente pensa: "Olha lá aquela moça, há quanto tempo ali fazendo nada naquela rede", aí penso que esse alguém não sabe das coisas. Mesmo parada posso fazer muito. Aqui mesmo, quieta na minha rede, tenho aulas de mundo, de poesia e de vida.
São nesses momentos quando o NADA é TUDO que paramos para relativizar a frieza das coisas do mundo e a perceber o quão subjetivas são as coisas quando passam pelos nossos "olhos poéticos". É impossível ouvir o vento e não se encantar com a sua música, não se perguntar "Pra onde vai o vento? Pra onde leva essa poeira?"... Como uma vez li em um livro do Saramago: "Se podes ver, repara!"
Ps.: Gente, desculpa o sumiço nos blogs e aqui no Labirinto. Faz uns quatro dias que estou com dificuldade de acessar a página do blogspot, hoje continuou do mesmo jeito até que, por acaso, eu consegui acessar. Prometo que assim que isso voltar ao normal por aqui eu vou recuperar todo esse tempo perdido também, ou todos esses posts perdidos. (haha). Abração. :*
