quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

"A gente tem um céu dentro do peito e chama de coração."


Vamos comer angú[s]tia?

É fato que nós passamos por muitos momentos complicados na nossa vida e esse ano eu bati o recorde... Deus, lá de cima, deve ter dito por lá “Vou te testar, menina. Quero saber até onde você consegue ir”...

Mas nessas horas eu só procurava dizer a mim mesma que o mundo no qual eu almejava deveria existir em algum lugar do planeta. Nem que fosse apenas dentro de mim... Mesmo que ele não existisse em canto nenhum, se eu, pelo menos, pudesse construí-lo dentro de mim, como um castelo das coisas mais bonitas em que eu acredito, o mundo seria sim leve e doce, o mundo seria cheio de amor, e eu nunca mais ficaria tão mal. E, nesse mundo, ninguém precisaria trocar amor por coisa alguma, porque ele brotaria sozinho entre os dedos das mãos e se alimentaria do respirar, do contemplar o mar, do fechar os olhos diante da ventania e abrir os braços antes da chuva. Nesse mundo as pessoas nunca se abandonariam. Elas nunca iriam embora porque não fomos um bom menino ou porque ficamos com os braços tão fraquinhos que não conseguimos mais abraçar e estar perto. Mesmo quando o outro vai embora, a gente não vai. A gente fica e faz um jardim, qualquer coisa que ocupe o nosso tempo, um banco de almofadas cor-de-céu, e pede aos passarinhos para não sujarem ali, porque aquele é o banco do nosso amor, do nosso grande amigo. Para que ele saiba que, em qualquer tempo, em qualquer lugar, daqui há sei lá quantos anos, ele pode simplesmente voltar, sem mais motivos, para olhar o céu de mãos dadas. No meu mundo eu sou gigante, mas gigante de alma, gigante de todas as coisas bonitas que ele possui, e é exatamente por isso que eu consigo olhar pedra e ver pó e que eu consigo ressurgir a cada dia respirando um ar melhor, respirando um ar que me dá uma força inatingível de seguir e uma esperança de que o mundo como ele é possa ter um pouquinho que seja do meu mundo. Do meu mundo com seu céu empoeirado de estrelas, no qual eu passo o dedo, curiosa, observo algumas grudadas na sua ponta, olho para cima, assopro, e é tanta estrela que cai que eu mal consigo enxergar de tanta esperança.

Que toda angústia seja dissipada, estrangulada, porque nada que é ruim deve viver mais do que um segundo.


Nem parece que já faz um ano que eu estava desejando isso aqui a vocês, mas Feliz ano novo, do coração do meu coração, com tudo de bom que ele pode nos trazer, e que 2011 seja literalmente um novo ano, de recomeço. E que continuemos juntos por aqui, claro. Beijo, meus amores.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Ainda bem...

"Não é que o mundo seja só ruim e triste. É que as pequenas notícias não saem nos grandes jornais. Quando uma pena flutua no ar por oito segundos ou a menina abraça o seu grande amigo, nenhum jornalista escreve a respeito. Só os poetas o fazem."
[Rita Apoena]


Ainda bem...
Ainda bem que existem os poetas para aliviar as nossas dores quando até os médicos já nos desenganaram;
Ainda bem que choro também pode ser de alegria;
Ainda bem que um papel pode virar um brinquedo e que com apenas um giz pode se ter uma diversão;
Ainda bem que briga pode aparecer pra trazer sorriso;
Ainda bem que o cinza não será sempre cinza e que a magreza não será sempre fome;
Ainda bem que há os que pedem, mas há também os que dão;
Ainda bem que há mais flores que espinhos e mais luz que escuridão;
Ainda bem que o tempo cura;
Ainda bem que as lágrimas evaporam e depois viram nuvens;
Ainda bem que pedra pode ser poesia;
Que maus tratos podem virar teatro.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Todas as partes que me completa.

Às vezes acredito que tudo em mim que verdadeiramente acontece, acontece dentro do meu estômago. Tem dia que ele inverna, tem dia que ele transpira. Acho que sou a única pessoa que sente as coisas pelo estômago e não pelo coração. Às vezes acredito que dentro do meu estômago está escondida a minha vergonha, o meu medo da morte, a minha vaidade de brinquedo, meus sonhos de papelão, os meus planos, o meu desistir, as minhas causas perdidas e tudo o que ainda não escrevi. Hoje estou vivendo um dia de tumulto… Não lá fora, mas aqui dentro. Não sei o que quero e nem o que me desespera... ou espera. Não estou conseguindo decifrar os suores do meu estômago. Às vezes parece que tudo dói, às vezes parece que está tudo bem, e, às vezes, só parece... e desaparece. Hoje eu desapareci de mim e estou me procurando por aí. Se alguém, por vias opostas, se deparar comigo encolhida num canto qualquer, me dê noticias de mim! Me pegue no colo, me afague e depois me mostre o caminho de volta... de volta à superfície... de volta pra casa... Me traga de volta pra dentro de mim, porque eu faço uma falta danada aqui dentro, e eu não sei viver sem todas as partes de mim juntas, mesmo que despedaçadas. Às vezes eu acredito que tudo em mim que verdadeiramente acontece, acontece dentro do meu estômago, mas às vezes eu acredito que o estômago serve somente como um segundo mensageiro, o coração mesmo é quem comanda e quem dá o veredicto final. E vai ver é isso mesmo, vai ver é isso, se não o meu lado esquerdo do peito não daria tanta pontada de vez em quando.

'Acredito que há uma força nesse mundo que vive dentro de cada pessoa, algo primitivo e selvagem que desperta quando precisamos de um esforço extra para sobreviver, como flores selvagens que desabrocham depois de que um incêndio deixou a floresta negra. Muitas pessoas têm medo disso e as mantém bem escondidas dentro de si. Mas sempre haverá pessoas que tem coragem de amar o que não está domado dentro de nós. Em certa época as pessoas se mudam para descobrir o seu destino, parece que elas se movem para todos os lados, impacientes e indecisas, mas acho que elas estão procurando as mesmas coisas, um lugar onde possam ser otimistas em relação ao futuro, um lugar que os ajudem a serem o que realmente querem ser, onde possam sentir que essa vida faz sentido.'

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

“Quando amar significa deixar partir”

'E dor é algo que não se pode medir. Você pode medir a temperatura, a pressão, a taxa de oxigenação do sangue, mas a dor é subjetiva.'

"Ele tem medo de escuro". Eu achei que tinha dito, mas a minha voz não saía. Era só um pensamento, um pensamento solitário. Talvez a única frase com nexo que eu tinha conseguido formular naquele dia. Tentei falar de novo: "Ele tem medo de escuro". Talvez se gritasse, se berrasse, conseguiria. "Ele tem medo de escuro!" e, finalmente, ouvi a minha voz. Mas só um fiapo, um sussurro, uma oração. Repeti mais uma vez, duas, três. Talvez eu ainda não tivesse conseguido falar, talvez fosse ficar muda definitivamente, porque apesar de meus avisos, de minhas súplicas repetidas, eles continuaram, sem pestanejar. Trancafiaram-no lá dentro e agora eu estava ali. Impotente, covarde. Não era nem uma cova rasa. Era escuro e sombrio. E me lembrei quando ele, deitado em meus braços, me explicou: "Toda minha vertigem é fruto do meu medo do escuro, do meu medo da morte. Eu não quero morrer, não quero que ninguém que eu ame morra. É por isso que, quando choro desesperadamente em seu colo, pedindo, implorando para que eu não morra, como se você fosse o próprio deus, é porque naquele instante eu realmente acredito que você é ele. Um deus bondoso, que me protege, me guia e a quem eu amo acima de todas as coisas." E eu, que nunca fui deus, nem me aproximei disso, não consegui salvá-lo. E sabe vô, talvez só agora eu esteja sentindo realmente o amor dilatado e dilacerado aqui dentro.

Só queria tê-lo dito que a morte pode não ser tão ruim assim para quem está indo e que não precisava ter tanto medo, eu estava ali... Quando ouvia a minha voz e a lágrima do seu olho escorria, quando todos falavam contigo e só à minha voz o senhor atendia, eu sei que o amor estava no topo, esvaindo pelos poros. Saiba que peço todos os dias para que o senhor esteja em um bom lugar, e que este lugar seja bem iluminado.

+ 25/11/2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

"Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar no sonho que se tem..."

Dê uma olhada em você no espelho.
Quem você vê te olhando?
É a pessoa que você quer ser?
Ou é alguém que você queria ser?
A pessoa que você deveria ser, mas acabou não sendo?
É alguém dizendo a você que você não pode ou não quer?
Porque você pode.
Acredite que o amor está por aí.
Acredite que sonhos se realizam todos os dias.
Porque eles se realizam.
Às vezes, a felicidade não vem do dinheiro, da fama ou do poder.
Às vezes, a felicidade vem dos bons amigos e da família
Vem da tranqüila nobreza de se guiar uma boa vida
Acredite que os sonhos se realizam todos os dias.
Porque eles se realizam.
Então dê uma olhada nesse espelho e lembre-se de ser feliz,
Porque você merece ser.
Acredite nisso.
E acredite que os sonhos se realizam todos os dias.
Porque eles se realizam.
[One Tree Hill]

Estendo-me aqui sobre o chão e jorro água. Água com que lavo as mãos, minhas mãos sujas de ontem, de antes de ontem, de uma vida inteira de manejo de estrelas de ponta aguda e caprichos. As unhas feitas em vermelho, sempre em vermelho sangue, em vermelho bordô. E aqui sobre o chão, esta água que vai e se tinge devagar com extremo cuidado é como se eu pintasse o rosto antes daquela festa onde eu sei que vou beber demais e falar demais e todo e qualquer excesso, que foi como sempre vivi. Fogo. E então sobre este chão, água, eu sou uma mulher dando à luz praticamente sem dor, nascendo de mim, nova, o corpo passado a limpo abrindo os olhos pela primeira vez, água, viva, pura, nova. Desta vez não me cumprimentam nem me acolhem, eu venho ao mundo sozinha, por livre e espontânea vontade, e que tudo me aconteça e que seja de novo e igual, não me importo, não me importo uma lasca de unha, que me amem, que me traiam, que mintam e me abandonem, que fujam e a memória de mim que enterrem e por cima joguem cal, que digam grosserias e me pintem como outra, que eu sofra, que eu traia, minta e esqueça. Se existe algo que eu sempre irei conseguir é verter água, é nascer limpa e sozinha e buscando. Estender as mãos a quem me dá as mãos.

Michelangelo disse uma vez que o melhor jeito de julgar os elementos essenciais de uma estátua é jogá-la de um morro, e as peças que não forem importantes vão se quebrar. Às vezes a vida é assim, ela nos joga morro abaixo, mas quando atingimos o fim e só restam as coisas mais importantes é quando nossa visão clareia. É quando nos agarramos ao que conhecemos, enquanto a esperança se mexe dentro de nós.


[Sim, é bem verdade que poucos estão sabendo da minha situação atual, porque, na verdade, eu não tive muito tempo nos últimos dias/meses de vir aqui contar a vocês, mas eu voltei para a Paraíba e para a Medicina Veterinária, e o fato de eu estar sem internet explica a minha ausência por aqui. Confusa? Não. Voltei para o que eu quis desde o início. É sonho, e com sonho não se brinca. E sabe o que foi bom nesse vai e vem todo? Agora eu sei que vai ser até o fim. Percebi a tempo que o futuro era meu e que sou eu que vou ter que encará-lo lá na frente. É fato que ninguém iria trabalhar por mim no que eu não gostasse, então, depois de muito sufoco que poucos aqui sabem que eu precisei enfrentar, eu voltei. Com a cara e a coragem, sim! (Mas e daí?). E quer saber? Estou muuuuuito bem, obrigada. :). E olha! Obrigada aos que continuaram e continuam visitando o Labirinto, apesar da minha ausência, e saibam que isso aqui não vai ficar entregue as moscas, sempre que eu tiver um tempinho livre eu virei aqui dar o ar da graça. Ah! E acredite que os sonhos se realizam todos os dias, porque eles se realizam.]

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Outro dia, outra cor.

Deve ter sido uma pequena pausa ou paralisação no meu setor de criatividade. Os funcionários resolveram deixar os papéis e as canetas na mesa e já não se importam se isso tudo vai se acumular. Ficaram apenas fartos de ter que sempre exteriorizar tudo, de ter que sempre produzir e produzir e produzir em cima de assuntos mascados e remascados. E em cima da alegria nada conseguem tirar, não por não ser plena ou indigna de produções, mas por ser tão sincera a ponto de ter a necessidade clara de apenas ser vivida. Se não venho produzindo, não culpem os meus funcionários do setor sentimental, eles nada podem fazer se quando me estampo um sorriso na cara resolvo deixar de colocar a lágrima no papel, mesmo que ainda exista, por motivos menores e diversos.

Me perdoem as faltas.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Na ignorância do mundo, sonhei em ser pássaro livre.

Como se a chuva viesse com as nuvens baixas. Como se a chuva trouxesse o mar em fúria. Como se a chuva deixasse nosso ser nublado. Como naqueles dias de invernos em que as nuvens são escuras, negras, quase não se imagina o sol por detrás do frio. Como se a chuva viesse nesses dias com o vento que a faz voar como passarinho pelo céu, e nós aqui, agasalhados até aos ossos, os guarda-chuvas não funcionam, dobram, quebram, e nada se pode fazer senão deixar que o inverno passe, pensar que sim, que o inverno ainda há de passar e que essas nuvens baixas e ventosas são passageiras.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Licença Poética.

Nos últimos meses eu não fiz nenhum caminho que me levasse até você. Não como as pessoas costumam procurar a presença de quem já não está mais aqui. Não como te acompanhei quando ainda era criança, em busca dos parentes que não conheci. Às vezes penso que poderia ser igual a todo mundo: te levar rosas. Mas não seriam as mesmas rosas que colhia no caminho da sua casa, para te fazer uma surpresa já esperada. Eu também poderia colocar seu nome na listinha de orações de domingo daquela igreja lá do centro, aonde todos vão. Mas assim como você, não costumo ir àquela igreja. Nos últimos meses o meu caminho poderia ter sido igual ao de todo mundo, mas eu te procurei apenas nos lugares que sabia que poderia estar. Guardei algumas horas para ouvir as músicas que você não deixava terminar e acabei descobrindo várias outras que você com certeza iria gostar. Ponto de luz é uma delas. Queria muito tê-la encontrado antes, só pra poder te mostrar. Também te encontrei em histórias repetidas, porém inéditas pra quem não te conheceu. Os últimos meses hesitam entre o perto e o longe. Você não sabe mais de mim. E eu tento escrever sua história por garantia. Dou a ela os mesmos eufemismos singelos que sempre presenciei.

Você me fez ler Drummond hoje. As pessoas costumam rezar em dias assim. Eu procurei algo que fosse mais próximo de mim e de você. Rezei os primeiros versos de “Mundo Grande”, onde diz assim: “Não, meu coração não é maior que o mundo. É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores. Por isso gosto tanto de me contar. Por isso me dispo. Por isso me grito (...) preciso de todos”. Peço uma licença poética pra te dizer isso. Outras pessoas irão nos ler e saberão que mesmo depois de quase dois anos, o meu percurso não parece querer te levar rosas. Apenas te ouço em canções repetidas e te entrego outras que certamente te faria sorrir.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Você.

Você não vale um poema, um verso, a rima incompleta, uma letra para a melodia que se repete no silêncio. Não vale. Você não vale a madrugada desperdiçada, o amanhecer no sofá, a febre, o vômito, o grito, uma fotografia rasgada, um caderno queimado, os cabides quebrados. Não vale. Você não vale o corte riscando o pulso, um punhado de remédios, os CDs tristes, um solo de violão, a mão por horas sobre o telefone, a espera, um carro no poste, um soco na parede, o vaso jogado no chão, você não vale. Não vale um espelho trincado, o copo atirado, o lamento atravessando a cidade, o palavrão. Não. Você não vale o tempo esquecido, a teimosia da busca. Mas eu lhe procuro. Ainda. Eu escrevo versos, faço poemas. Eu amanheço na febre, acelero contra a parede, ouço discos arranhados, engulo comprimidos em punhados. Eu vomito. Você não sabe, não imagina. Mas eu não aprendi. Eu ainda faço tudo por alguém que não vale nada.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

"Com as perdas, só há um jeito: perdê-las."

Escuta! Ela ainda canta. Não é o vento. É o coração soprando os males. É que agora ela anda leve, tropeça pra sentir o chão mais próximo e ter a convicção de que dali, não passa. Por que entre uma mágoa e outra é sempre bom guardar um pouco de si atrás do sim e dos sonhos a dois, para manter-se viva. A famosa arte de esquecer nem sempre sobrevive no rir das próprias dores, às vezes, aproxima-se da hipocrisia. Sobrevive no ressurgir dos desejos, no acolher dos detalhes, no aguardar e no silenciar das horas.

Ela não perdeu o embalo. Começa o dia com o coração mais empenado do que nunca, mas reinventado. Vive enquanto faz versos de milagres. Hoje, alguns murmúrios dormem lá fora. Os mais bonitos, cantam dentro.


*Amanhã estou viajando para Patos-PB, e volto na sexta, dia 06. Ficarei sem internet por lá, portanto, até mais e beijo grande para vocês. E uma coisa eu posso dizer: Se essa viagem não me fizer muito bem, me fará muito mal. Mas estarei torcendo pelo bem. :)

terça-feira, 27 de julho de 2010

As sensações mais bonitas, cantam dentro.


300 miligramas do pó branco compactado pela manhã, mais
200 miligramas do pó branco compactado a tarde.
E se a polícia me pega, senhor doutor?
Quantos anos de cadeia pega um viciado em neve?

sábado, 24 de julho de 2010

"Só me resta a vida inteira..."

A gente nasce todo dia, todo dia mesmo. Mas há um dia, aquele, que foi feito para a gente (Ou, nós tivemos a teimosia de ter aquele dia como o nosso). 24 de julho foi o meu. E não é um dia como outro qualquer, eu não vejo assim. Ele é o nosso dia. Dia de se procurar pensar mais em si. E nem interessa qual é o motivo da minha vinda ao mundo. Um? Dois motivos? Que diferença faz? O motivo maior é viver. E, nesse caso, eu vivo. Vivo e nasço todos os dias. Hoje eu não quero remoer o que me atormenta há 11 anos a cada 24 de julho. Quero ter uma lembrança bonita daquela pessoa sempre acolhedora, sim, mas que agora essa lembrança fique guardada de um jeito que não me machuque, de um jeito que só me faça abrir um sorriso bonito quando vier no coração do quanto que foram bons todos aqueles momentos, do quanto que foi sublime enquanto tudo aquilo existiu. Quero aproveitar o meu 24 de julho. Ele é meu. De tantos outros que nasceram hoje, mas é meu!

Talvez a fuga esteja nas menores coisas, e talvez de tão pequenas sejam enormes... E talvez de tão enormes, sejam pequenas o suficiente para limparem a alma, lavarem os sentimentos, e purificarem os pensamentos, até aqueles dos cantinhos.

"Não quero a vida imperativa, quero a não definida, a infinita - se possível."

terça-feira, 20 de julho de 2010

Um dia, uma flor.

Estórias que um dia já foram belas flores, mas hoje se encontram com suas pétalas caídas, não devem ser lembradas pelo "tempo das pétalas caídas", mas pelos campos floridos, pelo perfume no ar, pela compreensão que só os girassóis sabem dar, pela atenção que só as rosas podem oferecer e, principalmente, pelos dentes a mostra que nem um bouquet de lírios consegue arrancar com tanta sinceridade.

Um instante ruim pode ser apenas um passado pesado, logo vem o instante feliz.


*Dedicado a alguém que sabe dos girassóis, dos dias e das dores.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Perceber.

Essa mulher não vai pedir nada. Ela vai sair de casa, andará pela rua, o rosto ao vento, e de chuva cobrirá esse rosto, para esconder. Vai ajudar um senhor cego a subir para o ônibus, e o fará com um gesto bem simples, mas o senhor cego estará tão sozinho, e choverá tanto, e o gesto será tão simples, que, com esse coração tão desamparado e tão só, que é seu único bem nessa noite e nessa chuva, o homem cego vai dizer à mulher, a essa mulher que chora em silêncio, escondida pela chuva: “Deus te abençoe”. E ele vai dizer sem nunca saber dessas lágrimas, porque o senhor cego não tocou o rosto da mulher que chora - e se tivesse tocado ele saberia, e apenas ele, cego, entre todos os outros, seria o único a saber, com as mãos, como separar, da água doce que desce do céu, o mar de sal que escorre dessa mulher. “Deus te abençoe”, ela repetirá para si, muda. E essa mulher, por tanto tempo ainda, ou talvez apenas nessa noite, essa mulher usará isso como um amuleto, como faz quando vê um pássaro cantando, ouve uma música num apartamento, uma música antiga, ou uma música que alguém já não lembra, ou quando vê o céu de repente tão lindo, ou com a bênção de um cego. Essa mulher se agarrará a esses amuletos. Ela vai descer na parada errada, porque está tão escuro aqui, e vai andar na chuva e no vento, e vai chegar a uma pracinha e a pracinha estará cheia. E haverá música nessa pracinha. Apesar da chuva e da escuridão e do vento, haverá pessoas e música. E o coração da mulher que chora ficará minúsculo, mas tão pequeno, e ela pensará em como é simples a alegria dessas pessoas, e como é frágil. E de repente um desconhecido vai começar a conversar com a mulher, e ela será obrigada a se transformar ao mesmo tempo em três: a mulher que ouve a música, a que responde às perguntas e a mulher com o coração apertado; e todas as três serão repentinamente apenas essa mulher que chora, e chora invisível. Nessa mulher o coração bate na pele, querendo sair à superfície, e o riso é livre e forte e faz tremer todo o corpo e o chão, e é riso feito de céu e de desespero, e de um vento dentro, porque é sempre mais forte e violento o riso que ninguém sabe, mas que é um riso que crava as garras na dor feito bicho em sua presa, essa dor que é um cavalo selvagem que a mulher tem que segurar pela rédea, sem ninguém ver. Algumas vezes, a mulher terá vontade de soltar a rédea, mas serão poucas, e então vai se isolar em um banheiro público, as duas mãos na boca, uma sobre a outra, para segurar a dor que vem do lado de dentro, apenas o sal caindo em seu rosto, em silêncio. Na maior parte do tempo, porém, ela vai simplesmente rir o seu riso forte e livre e ninguém irá ver, e nem poderia, e será sempre sem comunicação, porque a mulher que chora sabe que toda tristeza, ah, é uma língua estrangeira. Essa mulher que escreve tantas vezes na terceira pessoa, e escreve coisas que as pessoas acham bonito, e por vezes acham até sem entender. E, contudo, ela usa palavras tão simples: chuva, vento, música, riso. Por isso, nessa noite, com palavras simples, ela irá responder às perguntas do desconhecido, e vai se juntar às perguntas, e depois à música, e depois às pessoas na praça, para desaparecer. Como o choro desaparecendo em toda água doce que vem caindo do céu, essa mulher vai conseguir se juntar a todas essas coisas e desaparecer. E ninguém verá, no ônibus, quando ela apertar forte uma mão na outra, por baixo da bolsa, morder o lábio e virar o rosto para a janela - onde haverá, talvez, atrás de uma manta de água e de sal, sem ninguém nem ver, e escondido, o céu um pouco.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Do que lateja no peito.


Tentarei dizer então sobre o que lateja no peito. Tentarei explicar, com beleza se possível, o que se passa nesse meu mundo interno. Cuspirei estas palavras tão cheias de cansaço dos limites que me deram, romperei os muros, agora sem esmero algum. Dividirei esse sufoco, darei uma parte a quem quiser carregar, pois já me dói tanto peso. Desabafarei, ou abafarei para fora. Terei coragem. Porque não é bom viver tão só nesse mundo interno. Sabe que descobriram que aquela doença ruim é proveniente de tantos gritos de dor silenciados? O grito se faz massa e me consome até a matéria, não só as emoções.

Me faziam companhia, os dois. Me abasteciam com um afeto de muitos dias. Tínhamos um conhecimento assim, que não carecia de palavras. Bastava olhar, olhar, para saber onde brotava a dor e a alegria em cada um. Éramos como essa paisagem que enfeita a minha parede: calma e cheia de harmonia. E merecíamos cada segundo dessa afinada cumplicidade. Ela se foi e eu não estava aqui para dar um último abraço apertado, estava longe demais para vê-la pela última vez, mas ele permanece - aos trancos e barrancos. Permanece, mas já não fala mais, já não anda mais, já não se alimenta através de sua própria boca nem tem mais a liderança que antes tinha, já não controla mais o seu dinheiro no final do mês e precisa todos os dias de alguém que dê o seu banho, troque a sua fralda, o coloque em uma cadeira de rodas e tente mantê-lo de olhos abertos, tente alegrá-lo, tente fazê-lo falar alguma coisa que seja. Alguém que penteie o seu cabelo e faça exercício nas suas pernas para que não se tornem tão rígidas, que dê o seu alimento e que cuide das escaras que tanto tempo deitado já lhe proporcionou, alguém que troque os seus curativos e mude a sua posição na cama a cada duas horas. Ele permanece vegetal depois que ela se foi, nadando contra a corrente. Me olha fixo toda vez que me vê, massageia o peito como se quisesse me falar alguma coisa, ou tanta coisa, mas nada sai. E eu queria tanto ouvir o que ele tem para me dizer, tanto ouvir o que eu não ouvi dela e me culpo. Foi uma vida inteira que meu avô e minha avó permaneceram juntos. Era de se imaginar tamanha depressão dele, já mais velho, depois de vê-la partir com tanto sofrimento. Em mim ela fica como a lembrança de um safári, ou de uma viagem a alguma terra com placas indecifráveis, ou de um país onde minha moral e imoral, ou de um lugar onde se come com as mãos. Sua ausência é como a saudade de um lugar onde nunca estive. Dói. É querer voltar no tempo. É querer encontrar.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Reticências.

Porque, há tempos, eu erro a mão, erro a dosagem, esqueço a receita do equilíbrio. Há tempos eu me confundo. Porque metade de mim não tem receio, não tem medo e ergue os braços na descida dos trilhos da montanha-russa, mantém os olhos abertos. Mas a outra só enfrenta a queda com as mãos na trava, segurando forte, apertando os dois olhos fechados desde o início. Porque metade de mim prefere ficar na beira da praia - no rasinho. Mas a outra não encontra problemas em pular várias ondas e ultrapassar os pequenos balões e cordas e as bandeiras agitadas pelo vento que avisam sobre o perigo, sobre a possibilidade de afogamento.

Porque, há tempos, eu erro a receita do equilíbrio. Utilizo a parte que não deveria na hora em que não poderia. Confundo-me com as metades que discutem dentro de mim. Porque parte de mim acelera na pista, no instante da curva fechada - pé direito até o fim. Mas a outra freia rapidamente ao ver a primeira placa - seta torta, pedindo atenção. Metade não suporta a burrice, a pequenez, a brutalidade. Mas a outra, sempre em silêncio, tolera a futilidade, engole a ignorância, convive com a mediocridade.

Há tempos eu erro a mão. Erro a dosagem. Confundo-me com o que devo usar. Porque metade de mim briga, explode, aponta o dedo na cara. Mas a outra se esquiva, quieta, debaixo da cama, no quarto fechado, no escuro completo. Eu tenho uma metade que grita e outra que sussurra. Uma parte que acredita em finais felizes, em beijo antes dos créditos; e outra que acha que só se ama errado. Eu tenho uma metade que mente, ilude, magoa; e outra que só conhece a verdade. Uma parte que precisa de calor, afago, pés com pés; e outra que sobrevive sozinha. Metade auto-suficiente.

Mas, há tempos, eu erro a mão, erro a dosagem, esqueço a receita do equilíbrio. Perco-me. Há dias em que utilizo a metade que não poderia. Dias em que me arrependo de ter utilizado a que não gostaria. Porque as metades discutem dentro de mim. Há umas mais fortes, outras ferozes. Há partes quase indomáveis. Metades que me fazem sofrer nessa luta diária. Luta de não deixar que uma mate a outra.

*Baseado em texto de Eduardo Baszczyn.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

There is no wealth but life.

Parece que foi ontem que saí temerosa do que me aguardava, das mudanças as quais eu teria que passar, do medo de perder aqueles dos meus dias. Parece que foi ontem que saí, ainda assim, confiante, pedindo aos céus para que não perdesse aqueles amigos, aquela vivência, aquela proximidade... Porque sempre pensamos que não virão melhores, não é? Que não virão amigos melhores, que não virão dias melhores que aqueles da semana passada... Bem que me disseram que quando deixamos que alguém entre em nossa vida, corremos o risco de destruir todos os muros que construímos até então...

Parece que foi ontem que deixei tantas coisas para trás à procura de um sonho que, na verdade, nem sonho se fez. Deixei até as borboletas e os girassóis; deixei os beija-flores que cantavam na minha janela; deixei alguns telefonemas e deixei a comida da mãe e o abraço do pai; deixei a preocupação e ganhei a liberdade; ganhei a chance de conhecer outras pessoas, outros lugares, novas borboletas, novos girassóis e até outros beija-flores cantando na minha nova janela da minha nova casa. Ganhei outro Estado, outra cidade, outras companhias, outro dia-a-dia, e alguém especial que dividiu esse dia-a-dia comigo. Procurei tempo e não encontrei, assim como também procurei forças tantas vezes, procurei paciência, procurei uma luz no fim do túnel que não fosse um caminhão na contramão, procurei um abraço conhecido e uma palavra sincera daquelas que aqueles dos meus dias sempre me diziam, mas não encontrei. Encontrei voz, antes tão ausente; encontrei aprendizado para a vida toda; encontrei experiências nunca pagas; encontrei risos e choros desconhecidos e os fiz conhecidos; encontrei mais maturidade, mais consciência, mais responsabilidade, mais paciência; encontrei proteção e cuidado; encontrei noites de filmes e conversas; encontrei abraços inesperados e palavras que vieram como uma surpresa agradável; encontrei a luz; fui feliz e não me arrependi em nenhum momento, nem nos mais difíceis momentos que houve e vieram como furacão - dispostos a destruir o que encontrassem pela frente. E doeu, foram baques fortes, mas consegui desviar.

Parece que foi ontem aquele turbilhão de pensamentos rápidos envoltos por um mundo parado, a suavidade violenta daquele segundo entre o estar e o não estar mais. Parece que foi ontem que saí temerosa do mundo, me lembrando que nunca gostei muito de correr riscos e tentando colocar na minha cabeça, de uma vez por todas, que as mudanças ainda que difíceis são necessárias.

Parece que foi ontem que saí pedindo aos céus para que não perdesse aqueles amigos, aquela vivência, aquela proximidade... E foi hoje que eu resolvi, por definitivo, voltar. Voltar para a minha terra Natal, literalmente. E volto ainda com as mãos apontadas para o céu, para que alguém lá em cima possa me ouvir pedindo para que não tenha dado tempo disso ter acontecido. Foi hoje que deixei para trás meu suposto sonho, minha suposta liberdade, minha suposta felicidade, em busca de outra estrada.

“Você é tão nova ainda...”, sempre me dizem. Então, cá estou, de volta. Afinal, apesar de tudo, o tempo não corre, voa.

“É isso. Somente isso. O resto é palavra que ainda não sei dizer. É verso que ainda não sei escrever. É medo que ainda não sei confessar.”


Ps1: Deixei meu curso de Medicina Veterinária, mas não deixarei nunca meu amor pelos animais e minha procura pela cura de cada um deles. Agora seguirei à procura da cura. Farmácia. Porque “Em cada medicamento que alivia as dores da humanidade está a ciência do farmacêutico”.
Ps2: Sei que estou em falta com vocês aqui “amigos blogueiros, blogueiros amigos”, mas como vocês vêm acompanhando, mesmo que tão pouco, eu tive meus motivos. E agora, aos poucos, prometo tentar recuperar tudo aquilo que perdi nesses meses distante, todas as visitas, todas as respostas que passaram em branco por falta de tempo. Agradeço a presença de vocês que não fizeram disso um motivo para sumir, desaparecer. E declaro que estou de volta, como nos velhos tempos, mas seguindo uma nova página.

domingo, 9 de maio de 2010

"Torna-te quem tu és."


Estou aqui. Mas aqui dentro, em mim, e está bom. Muito. Agora só me alimento e crio corpo - um novo, um outro - e antes de me reparir contemplo essa nova pessoa que gesto. Suponho o que vai herdar de mim, adivinho o que terá de único e próprio, ensaio um acalanto e aceitações dos novos defeitos que virão. Agora sou minha mãe e, entre conselhos e apreensões, não sei quantos anos-luz me separarão de minha nova geração. Quão diferente serei de mim dessa vez?
O feto ainda não virou fato - mas já chuta.

sábado, 17 de abril de 2010

"...Somos feitos de silêncio e som..."

Meus dias estão mais do que corridos, mas ainda teimo em arranjar tempo de olhar pro céu. E o céu acaba nos contando tantas coisas. Hoje mesmo saí antes das oito da manhã de casa. Céu azul, nuvens descuidadas.

Em dias assim vêm à cabeça pensamentos remotos. Vontade de reconquistar planos, juntar palavras de dentro e de fora, buscar simplicidade. Não recear as frases feitas nem os sentimentos desencontrados.

Já se permitiu vontades assim? De voltar no tempo e armazenar dele só as coisas boas? De acelerar o tempo e viver nele tudo o que for realmente significativo? Olhar para o presente e lembrar-se de agradecer tudo: plenitude, tranqüilidade, harmonia.

Ousadia. Foi isso que pensei no dia que decidi deixar toda aquela proteção e vir morar nessa cidade. 27 de fevereiro. Sim, o tempo voa. Desde então já fiz tanta coisa. E isso ninguém me tira. Ter um passado, contar a própria história, tocar nos fatos através de fotografias, cartas, bilhetes, pequenos fragmentos que enchem agendas, caixas, páginas grifadas de livros. E música. Não existe nada que traga mais a memória afetiva que os fundos musicais que fazem parte dos nossos dias, que os fazem, de fato.

Hoje ao sair, antes da oito da manhã, me deparei com um senhor de idade avançada que me disse que nunca viu uma chuva tão grande quanto a que ele sabia que ia cair hoje por aqui. Olhei para o céu e vi tudo tão azul que desconfiei, mas confesso que o cinza tomou de conta do céu de repente, e realmente choveu muito. E agora me dá vontade de me embrulhar nesse dia de chuva, fazer cabaninha com o edredom e ouvir músicas antigas. Ando assim. Como esses trovões e relâmpagos que me apareceram por aqui hoje. Tentando lembrar a última vez que me senti realmente bem. Tentando colar todos os fragmentos e reunir minha história num único enredo: feliz, raro, meu de fato.
"...Tem certas coisas que eu não sei dizer..."

domingo, 4 de abril de 2010

Do mês que voou e doeu em mim.

Este mês estava escrito como o mês do recomeço, o mês da “Amadurecência” do Teatro Mágico... E ele voou como eu já previa. Faltou tempo durante os dias e sobrou correria e sorrisos soltos ao vento. Veio também a dor, através de um telefonema, me visitar num desses dias, e ela ainda permanece até hoje e não me disse quando vai embora, bater a porta, não mais voltar. O telefonema do dia dezesseis me dizia que ela tinha voado para longe de mim, a minha vovó, e que eu não podia ir vê-la porque estava longe demais para isso. A partir daí eu quis cair e me disseram que eu não podia fraquejar. Quase que me deixo levar pelas emoções e, vez em quando, ainda preciso me lembrar de coisas que me fazem seguir em frente para que isso ocorra. Tudo se tornou mais difícil depois daí, longe de casa.

E então todo dia eu acordava e tentava me separar dela. Levantava, guardava os meus sonhos na gaveta da velha cômoda e trocava o pijama. Tentava sem pensar se era certo ou errado. Saía de casa em rotineira condição. Reparava em minha própria sombra no chão e sentia falta da outra que sempre esteve ali ao lado. Como enganar o pensamento de algo que se quer pensar, mas não se deve? Como enforcar o que se sente para não mais sentir? Não sei.

Todo dia eu acordava e tentava me separar dela. Seguia meu caminho e buscava outros prazeres. Preenchia as lacunas de pensamento com chocolate e música. Trocava a colcha da cama, que era dela, para que nada me lembrasse o que eu não deveria lembrar. E diante do espelho me convencia de que tudo isso era essencial. Chega uma hora, na vida, que temos que escolher certas medidas de segurança. É quando percebemos que só nós podemos nos salvar. Então, fica ajustado assim: eu me salvo e você se salva. E a gente se vê qualquer dia. No último instante da história ou, quem sabe, nunca. Só em sonhos. Daqueles que guardamos nas gavetas da velha cômoda.

Todo dia eu acordava e tentava me separar dela. Pagava contas, anotava recados, ia ao cinema, pegava trânsito e parecia seguir em frente. Me separava dela e de tudo o que eu não queria mais viver. Pois o tempo não se curva. Faz tempo. E foi a curva da estrada que tirou ela de mim.

E todo dia eu acordava e me separava dela mais um pouco... Enquanto passavam os dias... Dezoito, dezenove... O tempo sorria do meu esforço diário. E assim, todo dia eu acordava e me separava dela de novo. E preenchia mais gavetas, com mais sonhos improváveis. Porque chega uma hora, na vida, que temos que adotar certas medidas de segurança. E andava pelas ruas somente com a minha sombra e tudo parecia estar no seu lugar. Parecia seguir em frente. E, assim, ia me separando dela, em frações de tempo, todo dia de manhã quando acordava.

O problema é que toda noite eu adormecia e a trazia para perto de mim de novo. E até agora é assim. Ela permanece.


Saudade grande dos blogs, de vocês, e desses corredores aqui. Espero voltar logo a visitá-los. Beijo intenso. :*

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

“Deixou de lado o conforto do conhecido e se atirou no que estava por descobrir.”

Asas para voar. Ela pensou e saiu apressada abrindo caminho entre as gentes. O ninho é lindo e entre rabiscos e livros que vão ajudar a transformar alguns metros quadrados num lar, ela respira. Parede verde? Vermelha? Móvel branco no quarto e o teu retrato? Aquele do quase-sorriso vai caber perto do meu? Sim, quase sempre meu riso é aberto, mas também sou triste, padeço de insônias e dores de dente tal qual Macabéa...

Sim, estou indo morar sozinha em outro Estado para fazer o curso dos meus sonhos, e de nada adiantou ter visto o meu nome na lista de aprovados para outro curso aqui pertinho, o coração falou mais alto. Cidade de Patos no Estado da Paraíba. Monte Castelo, bairro bonito de se viver... (E como diria legião urbana, com sua música que coincide com o nome do bairro "É um não contentar-se de contente, é cuidar que se ganha em se perder...") E tem aquele frio na barriga de ficar novamente sem um tostão, e dessa vez sem emprego, sem rede de proteção... E falta fôlego e sobra emoção e o teu beijo fica suspenso por fios de naylon invisíveis bem acima da minha cabeça... Sem som, sem Internet, sem TV, sem vontade de gritar... Vez-em-quando canto baixinho... Um MPB vem quase sempre à cabeça, assim como um pop açucarado de outros tempos e quintais.

Mudo em dois dias. E a dor de dente me consome e os medos atropelam e aquela fome (de viver?) surge como que avisando a emergência de certas coisas. Alguém que não é gentil, outro alguém que não percebe o passarinho com bilhete no bico anunciando boas novas.

A cozinha, que agora é minha, recebe sol, tem claridade... Quero flores na janela!


Talvez na entrada da casa de vocês tenha essa imagem: Um passarinho com bilhete no bico anunciado boas novas. Minha vinda no Labirinto e nos blogs vai se tornar mais complicada agora, até eu ter um computador, mas por enquanto andarei pelas lan houses da vida, só não deixarei nunca o que eu construí esse tempo com vocês, nem o Labirinto, se perder, por mais que eu me perca dentro dele tantas vezes. Não deixarei. Enquanto isso verei os pássaros de vocês, e vocês irão ver as flores na minha janela. Vou lembrar de cada um de uma forma diferente... Mais intensa ou menos intensa, mas de uma forma bonita com certeza. Até lá, voem bem azul, voem bem nuvem, voem bem brisa. Meu carinho sem tamanho, mas alado. Sentirei muita saudade de vocês e disso aqui, mas nada virará poeira. Beijo intenso de saudade antecipada!


Me encontrem:
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MSN: anayasha@hotmail.com
(84) 8841-0572 / (84) 99585572

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Metades e inteiros.

Às vezes penso que estou desaprendendo a escrever, talvez pelo ritmo cada vez mais escasso com que venho pondo as cartas na mesa, tão diferente do anterior eufórico, mas tem sempre as palavras dos outros pra dar uma salvada. Li por aí sobre amores que terminam antes de acabar, sentimentos não vividos até o fim, e lembrei do Nietzsche, no Zaratustra: "Deixai que as folhas murchem! Que mal há nisso? São os meios termos que estragam todo o inteiro". É, e até Jesus, esbravejou em algum lugar da Bíblia que "por não seres quente nem frio, por seres morno, me dás vontade de vomitar". Mais ou menos é uma coisa que nunca dá certo...

Ser ou não ser, eis que uma vez respondida a questão. A gente tem que se posicionar com integridade, pra evitar efeitos colaterais...


Ps.: Depois eu falo do meu carnaval tão, tão, tão, tão bom, como prometi, e da minha repentina mudança de Estado, da qual vocês ainda nem sabem e que está prestes a acontecer. :*

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O medo do naufrágio.

Calar é bom, por vezes. Compartilhar o silêncio, experimentar a incompreensão, aquietar a agitação, aguardar que regrida a erupção. Barco à deriva. Deito-me toda encolhida no fundo do casco e espero, como um feto que pede por cuidado. Ou o caos, ou a bonança. Minha fé indica sempre à bonança. Aproveito a tormenta para dar vivacidade ao amor, para me aquecer do que há de bom, para aguardar o que está por vir na mesma posição de esperança - apesar das ondas que insistem em derrubar o que vêem pela frente. Calada, conectada, plugada fisicamente ao que há de bom - apesar da aparente distância entre meus estados emocionais. Abraçada às esperanças sob a mesa da sala, enquanto o teto ameaça ruir sobre minha cabeça. Esperava sol e folia para sempre, embora soubesse que o para sempre, sempre terá um fim. A realidade golpeia meus sonhos e desejos, e não é raro o medo do naufrágio nos dominar nessa hora. Mas mesmo diante do medo vou aprendendo a atravessar as conturbações no tempo, a vencer os obstáculos internos - os antigos e os que ainda virão. Assim: abraçada ao meu abrigo frágil, fundidos em carne e em desejo, para o que der e vier. A resposta vem com a manhã. O dia raia no horizonte, a luz penetra pelas frestas da janela, e antes de abrir os olhos confirmo o que de fato importa. Estou deitada junto à minha tranquilidade. Quieta, entrelaçada, agarrada à tábua cada vez mais firme da minha esperança.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

"Voltei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço."

Estou passando para dizer que estarei longe daqui por alguns dias. Amanhã estarei viajando para Barra de Maxaranguape - uma praia aqui do litoral - e só voltarei na quinta-feira dia 11, e no dia 12 eu estarei indo passar o carnaval em Recife (mundialmente conhecido *-*) com direito a Fafá de Belém, Elba Ramalho, Luiz Melodia, Zeca Pagodinho, Lenine, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Nando Cordel, Reginaldo Rossi, Jorge Bem Jor, Zé Ramalho, Cordel do Fogo Encantado, Diogo Nogueira, Dudu Nobre, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Fernanda Takai, Almir Rouche, Nação Zumbi, Benito Di Paula, Nx Zero, China, e muito, muito mais. E o melhor, tudo gratuito. Estarei voltando de lá só no dia 18 ou 19. Nesse tempo todo estarei sem Internet, mas assim que eu voltar conto tudo e trago fotos para mostrar a vocês.

Aí segue um pouco do carnaval do Recife e do famoso Galo da Madrugada.
"O Galo da Madrugada, no Recife, faz o maior Carnaval de rua do mundo. O clube arrasta mais de um milhão de foliões na capital pernambucana."

As palavras muitas vezes ferem. Por isso, não digas absolutamente nada, a ninguém. Não hoje. Senta-te numa parada de um porto qualquer à espera que passe um barco com seu remador e pensa que, melhor do que percorrer uma enciclopédia à procura de espaço para aninhar uma idéia ou duas, é preferível contar as remadas que faltam para chegar ao pé do rio, as formigas que dividem as tuas bolachas e pesar a areia que irremediavelmente se mete nos sapatos.

Não tenho palavras, mas tenho ruas para tentar subir e chegar a algum lugar.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Receita.

Ame. Comece amando. Então sofra, então caia, então morra, morra em pequenas doses. Então desista. Professe o abandono, torne-se cínico, ria de quem promete. Seu coração está seco. Então siga por aí criando calos, siga cheio de muralhas e cave valas profundas e não permita nem abra concessões. Não mergulhe, não beba, não coma, não ajude a dormir nem a parar de chorar. Chore. Então escorregue. Se quebre. Deixe o peito vazar, deixe o coração expelir as impurezas. E então pinte o rosto e atravesse cada rua cantando e faça de cada dia um presente embrulhado em papel finíssimo da cor do perdão. Então ame. E repita quantas vezes puder.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Agonia.

Hoje tive uma imensa vontade de me jogar pela janela, não para morrer, mas para voar e mergulhar em mim mesma. Vontade grande, daquelas que chegam e fazem doer a ponta da quarta costela do lado direito. Anti-sonho de Ícaro, ao invés de subir, descer. E resistir.

Pouco tempo depois veio de novo ela, a vontade, só que dessa vez de tomar um banho com água muito quente, fervente, para arrancar minha pele e expor cada fibra dos meus músculos. Vontade de nova roupa, não a de tecido, mas a de gente. Roupa de pele nova, renovada, disposta à cartada decisiva.

A vontade ali veio na forma de um copo de bebida com bastante gelo, no qual eu pudesse mergulhar e fazer como nos desenhos animados. Caber toda, da cabeça aos pés, num minúsculo copo, para afogar o que um dia planejei dar certo e deu, e o que planejei dar errado e também deu. Sem respiração.

Vontade. Tive até vontade de ligar para você e te fazer perguntas sobre o que eu temia ter respostas. A incerteza me deixa mais tranquila porque me enche de esperança de um dia poder ser. Mas tive vontade de ouvir sua voz dizendo "não" e foder de vez com meu dia, vontade de matar em definitivo as possibilidades.

Tive vontade de avançar no tempo e te encontrar daqui a alguns anos, quando talvez fosse o dia em que deveríamos ter nos conhecido, abraçado, ouvido, falado, amado. Antecipamos nosso encontro e olha onde estamos agora... Tive vontade de te re-conhecer e talvez assim ver que eu e você somos mais que nós.

É imenso, intenso, doloroso. Foi vontade de não ser o que um dia fui, nem ser o que um dia serei, mas vontade de ser apenas quem eu sou, e que, juro, eu não sei bem quem é.

E a vontade agora é de me achar e não me perder nunca mais. De não esperar a janela, o esfolamento, o afogamento, a certeza, o futuro...

Hoje deu vontade. Só quero saber até quando ela ainda vai dar.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Caindo em tentação...

E então quando eu chegar à sua casa o elevador vai estar no último andar. Porque o elevador sempre está no último andar quando estou apressada. Vou apertar o botão várias vezes, mesmo com a luzinha já acesa, e sorrir de nervosa pro moço encostado na parede com mochila nas costas, que espera também. Quando a porta abrir, vou tropeçar nas pessoas que querem sair e pedir desculpas, sem graça. Vou olhar pro moço, que continua encostado na parece com mochila nas costas, com cara de "vai-ou-não-vai?". Vou. Antes de chegar ao seu andar o elevador vai parar três ou quatro vezes. Porque o elevador sempre pára três ou quatro vezes antes de chegar onde quero quando estou apressada. Pronto. Vou tocar a campainha e ouvir os seus passos rápidos, enquanto o meu coração bate acelerado, no mesmo ritmo. Você vai perguntar quem é, como se ainda não soubesse, e abrir a porta já bolando de rir da minha cara afobada. Vou sorrir de volta, porque meu ar de "putaquepariu, que demora é essa?" não vai resistir aos seus apelos, porque eu não vou resistir aos seus apelos, porque eu já não resisto...

domingo, 17 de janeiro de 2010

Foco.


Os cachos das ondas. As pétalas vermelhas deitadas sobre o asfalto. A breve faixa de cor entre o dia e a noite. O espreguiçar do gato. O coração encantador dos elefantes. A luz de outono. Um certo jeito de sorrir. A harmonia espontânea das mechas caídas sobre os ombros. Um olho que vê é como uma boca que engole alimento para a alma. Para que não morra o deus de dentro. Deixar-se encantar é fonte inesgotável de aroma. A beleza é a riqueza acessível. Está lá. Aqui. Ao lado. Pronta para ser possuída por qualquer um que se interesse. Simples. Apenas foco. Guirlandas tecidas de flor em flor para que o deus de dentro se alegre (e eu fico suave e serena só de ouvir sua risada).

domingo, 10 de janeiro de 2010

"Tenho em mim todos os sonhos do mundo"

Sobre o chão, as cinzas de mais um dia, o verde, o colorido, a alegria. Quem me dera ter o mundo, mas o mundo cabe embaixo dos meus pés. E essa alegria, essa felicidade, essa paz que me invade em um instante e não passa, não dói, não cansa. Culpa sua, todos os meus sorrisos, culpa sua, todas as minhas melhores músicas, culpa sua, eu ser assim. Pode ser que seja amor, e se não for, valeu.

Lembram das minhas botas pesadas?
Eu disse que faria por onde minhas botas ficarem leves, bem leves, ao contrário da consciência de alguns... Eis que fiz! Elas estão tão leves que eu quase consigo flutuar, tal e qual as flores ao vento. Passei não só em um, mas nos dois vestibulares. E, sem dúvida, digo que foi a minha melhor sensação já vivida, só sentindo para saber. Ainda me resta a dúvida sobre qual curso seguir, mas como eu mesma disse naquele agosto: "Eu nunca gostei do fácil". [Espero fazer a escolha certa].



E novamente digo: O olhar que vê além do óbvio não se acomoda na estrada dura da vida. Corre entre pedras como rio, criando percursos, se desviando por entre as brechas do impossível, sem jamais perder a fluidez. Flutuamos, flores ao vento. Algumas se perdem, outras rebrotam quando acham pouso em solo generoso. Tentamos concretizar o impalpável e tocar o invisível do que é sólido. Traçamos rotas e linhas e com ela fazemos o nosso bordado, que tapa os buracos inevitáveis do delicado tecido dos dias.