quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Agonia.

Hoje tive uma imensa vontade de me jogar pela janela, não para morrer, mas para voar e mergulhar em mim mesma. Vontade grande, daquelas que chegam e fazem doer a ponta da quarta costela do lado direito. Anti-sonho de Ícaro, ao invés de subir, descer. E resistir.

Pouco tempo depois veio de novo ela, a vontade, só que dessa vez de tomar um banho com água muito quente, fervente, para arrancar minha pele e expor cada fibra dos meus músculos. Vontade de nova roupa, não a de tecido, mas a de gente. Roupa de pele nova, renovada, disposta à cartada decisiva.

A vontade ali veio na forma de um copo de bebida com bastante gelo, no qual eu pudesse mergulhar e fazer como nos desenhos animados. Caber toda, da cabeça aos pés, num minúsculo copo, para afogar o que um dia planejei dar certo e deu, e o que planejei dar errado e também deu. Sem respiração.

Vontade. Tive até vontade de ligar para você e te fazer perguntas sobre o que eu temia ter respostas. A incerteza me deixa mais tranquila porque me enche de esperança de um dia poder ser. Mas tive vontade de ouvir sua voz dizendo "não" e foder de vez com meu dia, vontade de matar em definitivo as possibilidades.

Tive vontade de avançar no tempo e te encontrar daqui a alguns anos, quando talvez fosse o dia em que deveríamos ter nos conhecido, abraçado, ouvido, falado, amado. Antecipamos nosso encontro e olha onde estamos agora... Tive vontade de te re-conhecer e talvez assim ver que eu e você somos mais que nós.

É imenso, intenso, doloroso. Foi vontade de não ser o que um dia fui, nem ser o que um dia serei, mas vontade de ser apenas quem eu sou, e que, juro, eu não sei bem quem é.

E a vontade agora é de me achar e não me perder nunca mais. De não esperar a janela, o esfolamento, o afogamento, a certeza, o futuro...

Hoje deu vontade. Só quero saber até quando ela ainda vai dar.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Caindo em tentação...

E então quando eu chegar à sua casa o elevador vai estar no último andar. Porque o elevador sempre está no último andar quando estou apressada. Vou apertar o botão várias vezes, mesmo com a luzinha já acesa, e sorrir de nervosa pro moço encostado na parede com mochila nas costas, que espera também. Quando a porta abrir, vou tropeçar nas pessoas que querem sair e pedir desculpas, sem graça. Vou olhar pro moço, que continua encostado na parece com mochila nas costas, com cara de "vai-ou-não-vai?". Vou. Antes de chegar ao seu andar o elevador vai parar três ou quatro vezes. Porque o elevador sempre pára três ou quatro vezes antes de chegar onde quero quando estou apressada. Pronto. Vou tocar a campainha e ouvir os seus passos rápidos, enquanto o meu coração bate acelerado, no mesmo ritmo. Você vai perguntar quem é, como se ainda não soubesse, e abrir a porta já bolando de rir da minha cara afobada. Vou sorrir de volta, porque meu ar de "putaquepariu, que demora é essa?" não vai resistir aos seus apelos, porque eu não vou resistir aos seus apelos, porque eu já não resisto...

domingo, 17 de janeiro de 2010

Foco.


Os cachos das ondas. As pétalas vermelhas deitadas sobre o asfalto. A breve faixa de cor entre o dia e a noite. O espreguiçar do gato. O coração encantador dos elefantes. A luz de outono. Um certo jeito de sorrir. A harmonia espontânea das mechas caídas sobre os ombros. Um olho que vê é como uma boca que engole alimento para a alma. Para que não morra o deus de dentro. Deixar-se encantar é fonte inesgotável de aroma. A beleza é a riqueza acessível. Está lá. Aqui. Ao lado. Pronta para ser possuída por qualquer um que se interesse. Simples. Apenas foco. Guirlandas tecidas de flor em flor para que o deus de dentro se alegre (e eu fico suave e serena só de ouvir sua risada).

domingo, 10 de janeiro de 2010

"Tenho em mim todos os sonhos do mundo"

Sobre o chão, as cinzas de mais um dia, o verde, o colorido, a alegria. Quem me dera ter o mundo, mas o mundo cabe embaixo dos meus pés. E essa alegria, essa felicidade, essa paz que me invade em um instante e não passa, não dói, não cansa. Culpa sua, todos os meus sorrisos, culpa sua, todas as minhas melhores músicas, culpa sua, eu ser assim. Pode ser que seja amor, e se não for, valeu.

Lembram das minhas botas pesadas?
Eu disse que faria por onde minhas botas ficarem leves, bem leves, ao contrário da consciência de alguns... Eis que fiz! Elas estão tão leves que eu quase consigo flutuar, tal e qual as flores ao vento. Passei não só em um, mas nos dois vestibulares. E, sem dúvida, digo que foi a minha melhor sensação já vivida, só sentindo para saber. Ainda me resta a dúvida sobre qual curso seguir, mas como eu mesma disse naquele agosto: "Eu nunca gostei do fácil". [Espero fazer a escolha certa].



E novamente digo: O olhar que vê além do óbvio não se acomoda na estrada dura da vida. Corre entre pedras como rio, criando percursos, se desviando por entre as brechas do impossível, sem jamais perder a fluidez. Flutuamos, flores ao vento. Algumas se perdem, outras rebrotam quando acham pouso em solo generoso. Tentamos concretizar o impalpável e tocar o invisível do que é sólido. Traçamos rotas e linhas e com ela fazemos o nosso bordado, que tapa os buracos inevitáveis do delicado tecido dos dias.