terça-feira, 27 de julho de 2010

As sensações mais bonitas, cantam dentro.


300 miligramas do pó branco compactado pela manhã, mais
200 miligramas do pó branco compactado a tarde.
E se a polícia me pega, senhor doutor?
Quantos anos de cadeia pega um viciado em neve?

sábado, 24 de julho de 2010

"Só me resta a vida inteira..."

A gente nasce todo dia, todo dia mesmo. Mas há um dia, aquele, que foi feito para a gente (Ou, nós tivemos a teimosia de ter aquele dia como o nosso). 24 de julho foi o meu. E não é um dia como outro qualquer, eu não vejo assim. Ele é o nosso dia. Dia de se procurar pensar mais em si. E nem interessa qual é o motivo da minha vinda ao mundo. Um? Dois motivos? Que diferença faz? O motivo maior é viver. E, nesse caso, eu vivo. Vivo e nasço todos os dias. Hoje eu não quero remoer o que me atormenta há 11 anos a cada 24 de julho. Quero ter uma lembrança bonita daquela pessoa sempre acolhedora, sim, mas que agora essa lembrança fique guardada de um jeito que não me machuque, de um jeito que só me faça abrir um sorriso bonito quando vier no coração do quanto que foram bons todos aqueles momentos, do quanto que foi sublime enquanto tudo aquilo existiu. Quero aproveitar o meu 24 de julho. Ele é meu. De tantos outros que nasceram hoje, mas é meu!

Talvez a fuga esteja nas menores coisas, e talvez de tão pequenas sejam enormes... E talvez de tão enormes, sejam pequenas o suficiente para limparem a alma, lavarem os sentimentos, e purificarem os pensamentos, até aqueles dos cantinhos.

"Não quero a vida imperativa, quero a não definida, a infinita - se possível."

terça-feira, 20 de julho de 2010

Um dia, uma flor.

Estórias que um dia já foram belas flores, mas hoje se encontram com suas pétalas caídas, não devem ser lembradas pelo "tempo das pétalas caídas", mas pelos campos floridos, pelo perfume no ar, pela compreensão que só os girassóis sabem dar, pela atenção que só as rosas podem oferecer e, principalmente, pelos dentes a mostra que nem um bouquet de lírios consegue arrancar com tanta sinceridade.

Um instante ruim pode ser apenas um passado pesado, logo vem o instante feliz.


*Dedicado a alguém que sabe dos girassóis, dos dias e das dores.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Perceber.

Essa mulher não vai pedir nada. Ela vai sair de casa, andará pela rua, o rosto ao vento, e de chuva cobrirá esse rosto, para esconder. Vai ajudar um senhor cego a subir para o ônibus, e o fará com um gesto bem simples, mas o senhor cego estará tão sozinho, e choverá tanto, e o gesto será tão simples, que, com esse coração tão desamparado e tão só, que é seu único bem nessa noite e nessa chuva, o homem cego vai dizer à mulher, a essa mulher que chora em silêncio, escondida pela chuva: “Deus te abençoe”. E ele vai dizer sem nunca saber dessas lágrimas, porque o senhor cego não tocou o rosto da mulher que chora - e se tivesse tocado ele saberia, e apenas ele, cego, entre todos os outros, seria o único a saber, com as mãos, como separar, da água doce que desce do céu, o mar de sal que escorre dessa mulher. “Deus te abençoe”, ela repetirá para si, muda. E essa mulher, por tanto tempo ainda, ou talvez apenas nessa noite, essa mulher usará isso como um amuleto, como faz quando vê um pássaro cantando, ouve uma música num apartamento, uma música antiga, ou uma música que alguém já não lembra, ou quando vê o céu de repente tão lindo, ou com a bênção de um cego. Essa mulher se agarrará a esses amuletos. Ela vai descer na parada errada, porque está tão escuro aqui, e vai andar na chuva e no vento, e vai chegar a uma pracinha e a pracinha estará cheia. E haverá música nessa pracinha. Apesar da chuva e da escuridão e do vento, haverá pessoas e música. E o coração da mulher que chora ficará minúsculo, mas tão pequeno, e ela pensará em como é simples a alegria dessas pessoas, e como é frágil. E de repente um desconhecido vai começar a conversar com a mulher, e ela será obrigada a se transformar ao mesmo tempo em três: a mulher que ouve a música, a que responde às perguntas e a mulher com o coração apertado; e todas as três serão repentinamente apenas essa mulher que chora, e chora invisível. Nessa mulher o coração bate na pele, querendo sair à superfície, e o riso é livre e forte e faz tremer todo o corpo e o chão, e é riso feito de céu e de desespero, e de um vento dentro, porque é sempre mais forte e violento o riso que ninguém sabe, mas que é um riso que crava as garras na dor feito bicho em sua presa, essa dor que é um cavalo selvagem que a mulher tem que segurar pela rédea, sem ninguém ver. Algumas vezes, a mulher terá vontade de soltar a rédea, mas serão poucas, e então vai se isolar em um banheiro público, as duas mãos na boca, uma sobre a outra, para segurar a dor que vem do lado de dentro, apenas o sal caindo em seu rosto, em silêncio. Na maior parte do tempo, porém, ela vai simplesmente rir o seu riso forte e livre e ninguém irá ver, e nem poderia, e será sempre sem comunicação, porque a mulher que chora sabe que toda tristeza, ah, é uma língua estrangeira. Essa mulher que escreve tantas vezes na terceira pessoa, e escreve coisas que as pessoas acham bonito, e por vezes acham até sem entender. E, contudo, ela usa palavras tão simples: chuva, vento, música, riso. Por isso, nessa noite, com palavras simples, ela irá responder às perguntas do desconhecido, e vai se juntar às perguntas, e depois à música, e depois às pessoas na praça, para desaparecer. Como o choro desaparecendo em toda água doce que vem caindo do céu, essa mulher vai conseguir se juntar a todas essas coisas e desaparecer. E ninguém verá, no ônibus, quando ela apertar forte uma mão na outra, por baixo da bolsa, morder o lábio e virar o rosto para a janela - onde haverá, talvez, atrás de uma manta de água e de sal, sem ninguém nem ver, e escondido, o céu um pouco.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Do que lateja no peito.


Tentarei dizer então sobre o que lateja no peito. Tentarei explicar, com beleza se possível, o que se passa nesse meu mundo interno. Cuspirei estas palavras tão cheias de cansaço dos limites que me deram, romperei os muros, agora sem esmero algum. Dividirei esse sufoco, darei uma parte a quem quiser carregar, pois já me dói tanto peso. Desabafarei, ou abafarei para fora. Terei coragem. Porque não é bom viver tão só nesse mundo interno. Sabe que descobriram que aquela doença ruim é proveniente de tantos gritos de dor silenciados? O grito se faz massa e me consome até a matéria, não só as emoções.

Me faziam companhia, os dois. Me abasteciam com um afeto de muitos dias. Tínhamos um conhecimento assim, que não carecia de palavras. Bastava olhar, olhar, para saber onde brotava a dor e a alegria em cada um. Éramos como essa paisagem que enfeita a minha parede: calma e cheia de harmonia. E merecíamos cada segundo dessa afinada cumplicidade. Ela se foi e eu não estava aqui para dar um último abraço apertado, estava longe demais para vê-la pela última vez, mas ele permanece - aos trancos e barrancos. Permanece, mas já não fala mais, já não anda mais, já não se alimenta através de sua própria boca nem tem mais a liderança que antes tinha, já não controla mais o seu dinheiro no final do mês e precisa todos os dias de alguém que dê o seu banho, troque a sua fralda, o coloque em uma cadeira de rodas e tente mantê-lo de olhos abertos, tente alegrá-lo, tente fazê-lo falar alguma coisa que seja. Alguém que penteie o seu cabelo e faça exercício nas suas pernas para que não se tornem tão rígidas, que dê o seu alimento e que cuide das escaras que tanto tempo deitado já lhe proporcionou, alguém que troque os seus curativos e mude a sua posição na cama a cada duas horas. Ele permanece vegetal depois que ela se foi, nadando contra a corrente. Me olha fixo toda vez que me vê, massageia o peito como se quisesse me falar alguma coisa, ou tanta coisa, mas nada sai. E eu queria tanto ouvir o que ele tem para me dizer, tanto ouvir o que eu não ouvi dela e me culpo. Foi uma vida inteira que meu avô e minha avó permaneceram juntos. Era de se imaginar tamanha depressão dele, já mais velho, depois de vê-la partir com tanto sofrimento. Em mim ela fica como a lembrança de um safári, ou de uma viagem a alguma terra com placas indecifráveis, ou de um país onde minha moral e imoral, ou de um lugar onde se come com as mãos. Sua ausência é como a saudade de um lugar onde nunca estive. Dói. É querer voltar no tempo. É querer encontrar.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Reticências.

Porque, há tempos, eu erro a mão, erro a dosagem, esqueço a receita do equilíbrio. Há tempos eu me confundo. Porque metade de mim não tem receio, não tem medo e ergue os braços na descida dos trilhos da montanha-russa, mantém os olhos abertos. Mas a outra só enfrenta a queda com as mãos na trava, segurando forte, apertando os dois olhos fechados desde o início. Porque metade de mim prefere ficar na beira da praia - no rasinho. Mas a outra não encontra problemas em pular várias ondas e ultrapassar os pequenos balões e cordas e as bandeiras agitadas pelo vento que avisam sobre o perigo, sobre a possibilidade de afogamento.

Porque, há tempos, eu erro a receita do equilíbrio. Utilizo a parte que não deveria na hora em que não poderia. Confundo-me com as metades que discutem dentro de mim. Porque parte de mim acelera na pista, no instante da curva fechada - pé direito até o fim. Mas a outra freia rapidamente ao ver a primeira placa - seta torta, pedindo atenção. Metade não suporta a burrice, a pequenez, a brutalidade. Mas a outra, sempre em silêncio, tolera a futilidade, engole a ignorância, convive com a mediocridade.

Há tempos eu erro a mão. Erro a dosagem. Confundo-me com o que devo usar. Porque metade de mim briga, explode, aponta o dedo na cara. Mas a outra se esquiva, quieta, debaixo da cama, no quarto fechado, no escuro completo. Eu tenho uma metade que grita e outra que sussurra. Uma parte que acredita em finais felizes, em beijo antes dos créditos; e outra que acha que só se ama errado. Eu tenho uma metade que mente, ilude, magoa; e outra que só conhece a verdade. Uma parte que precisa de calor, afago, pés com pés; e outra que sobrevive sozinha. Metade auto-suficiente.

Mas, há tempos, eu erro a mão, erro a dosagem, esqueço a receita do equilíbrio. Perco-me. Há dias em que utilizo a metade que não poderia. Dias em que me arrependo de ter utilizado a que não gostaria. Porque as metades discutem dentro de mim. Há umas mais fortes, outras ferozes. Há partes quase indomáveis. Metades que me fazem sofrer nessa luta diária. Luta de não deixar que uma mate a outra.

*Baseado em texto de Eduardo Baszczyn.