quinta-feira, 15 de julho de 2010

Perceber.

Essa mulher não vai pedir nada. Ela vai sair de casa, andará pela rua, o rosto ao vento, e de chuva cobrirá esse rosto, para esconder. Vai ajudar um senhor cego a subir para o ônibus, e o fará com um gesto bem simples, mas o senhor cego estará tão sozinho, e choverá tanto, e o gesto será tão simples, que, com esse coração tão desamparado e tão só, que é seu único bem nessa noite e nessa chuva, o homem cego vai dizer à mulher, a essa mulher que chora em silêncio, escondida pela chuva: “Deus te abençoe”. E ele vai dizer sem nunca saber dessas lágrimas, porque o senhor cego não tocou o rosto da mulher que chora - e se tivesse tocado ele saberia, e apenas ele, cego, entre todos os outros, seria o único a saber, com as mãos, como separar, da água doce que desce do céu, o mar de sal que escorre dessa mulher. “Deus te abençoe”, ela repetirá para si, muda. E essa mulher, por tanto tempo ainda, ou talvez apenas nessa noite, essa mulher usará isso como um amuleto, como faz quando vê um pássaro cantando, ouve uma música num apartamento, uma música antiga, ou uma música que alguém já não lembra, ou quando vê o céu de repente tão lindo, ou com a bênção de um cego. Essa mulher se agarrará a esses amuletos. Ela vai descer na parada errada, porque está tão escuro aqui, e vai andar na chuva e no vento, e vai chegar a uma pracinha e a pracinha estará cheia. E haverá música nessa pracinha. Apesar da chuva e da escuridão e do vento, haverá pessoas e música. E o coração da mulher que chora ficará minúsculo, mas tão pequeno, e ela pensará em como é simples a alegria dessas pessoas, e como é frágil. E de repente um desconhecido vai começar a conversar com a mulher, e ela será obrigada a se transformar ao mesmo tempo em três: a mulher que ouve a música, a que responde às perguntas e a mulher com o coração apertado; e todas as três serão repentinamente apenas essa mulher que chora, e chora invisível. Nessa mulher o coração bate na pele, querendo sair à superfície, e o riso é livre e forte e faz tremer todo o corpo e o chão, e é riso feito de céu e de desespero, e de um vento dentro, porque é sempre mais forte e violento o riso que ninguém sabe, mas que é um riso que crava as garras na dor feito bicho em sua presa, essa dor que é um cavalo selvagem que a mulher tem que segurar pela rédea, sem ninguém ver. Algumas vezes, a mulher terá vontade de soltar a rédea, mas serão poucas, e então vai se isolar em um banheiro público, as duas mãos na boca, uma sobre a outra, para segurar a dor que vem do lado de dentro, apenas o sal caindo em seu rosto, em silêncio. Na maior parte do tempo, porém, ela vai simplesmente rir o seu riso forte e livre e ninguém irá ver, e nem poderia, e será sempre sem comunicação, porque a mulher que chora sabe que toda tristeza, ah, é uma língua estrangeira. Essa mulher que escreve tantas vezes na terceira pessoa, e escreve coisas que as pessoas acham bonito, e por vezes acham até sem entender. E, contudo, ela usa palavras tão simples: chuva, vento, música, riso. Por isso, nessa noite, com palavras simples, ela irá responder às perguntas do desconhecido, e vai se juntar às perguntas, e depois à música, e depois às pessoas na praça, para desaparecer. Como o choro desaparecendo em toda água doce que vem caindo do céu, essa mulher vai conseguir se juntar a todas essas coisas e desaparecer. E ninguém verá, no ônibus, quando ela apertar forte uma mão na outra, por baixo da bolsa, morder o lábio e virar o rosto para a janela - onde haverá, talvez, atrás de uma manta de água e de sal, sem ninguém nem ver, e escondido, o céu um pouco.

2 comentários:

indivídua disse...

solidão dói. e o nosso mundo é só

Águas Escuras disse...

Adorei o texto. Forte. Direto. Faz brotar os sentimentos de solidãoq ue temos escondido com medo de nos mesmos.
Fiquei preso.