segunda-feira, 5 de julho de 2010

Reticências.

Porque, há tempos, eu erro a mão, erro a dosagem, esqueço a receita do equilíbrio. Há tempos eu me confundo. Porque metade de mim não tem receio, não tem medo e ergue os braços na descida dos trilhos da montanha-russa, mantém os olhos abertos. Mas a outra só enfrenta a queda com as mãos na trava, segurando forte, apertando os dois olhos fechados desde o início. Porque metade de mim prefere ficar na beira da praia - no rasinho. Mas a outra não encontra problemas em pular várias ondas e ultrapassar os pequenos balões e cordas e as bandeiras agitadas pelo vento que avisam sobre o perigo, sobre a possibilidade de afogamento.

Porque, há tempos, eu erro a receita do equilíbrio. Utilizo a parte que não deveria na hora em que não poderia. Confundo-me com as metades que discutem dentro de mim. Porque parte de mim acelera na pista, no instante da curva fechada - pé direito até o fim. Mas a outra freia rapidamente ao ver a primeira placa - seta torta, pedindo atenção. Metade não suporta a burrice, a pequenez, a brutalidade. Mas a outra, sempre em silêncio, tolera a futilidade, engole a ignorância, convive com a mediocridade.

Há tempos eu erro a mão. Erro a dosagem. Confundo-me com o que devo usar. Porque metade de mim briga, explode, aponta o dedo na cara. Mas a outra se esquiva, quieta, debaixo da cama, no quarto fechado, no escuro completo. Eu tenho uma metade que grita e outra que sussurra. Uma parte que acredita em finais felizes, em beijo antes dos créditos; e outra que acha que só se ama errado. Eu tenho uma metade que mente, ilude, magoa; e outra que só conhece a verdade. Uma parte que precisa de calor, afago, pés com pés; e outra que sobrevive sozinha. Metade auto-suficiente.

Mas, há tempos, eu erro a mão, erro a dosagem, esqueço a receita do equilíbrio. Perco-me. Há dias em que utilizo a metade que não poderia. Dias em que me arrependo de ter utilizado a que não gostaria. Porque as metades discutem dentro de mim. Há umas mais fortes, outras ferozes. Há partes quase indomáveis. Metades que me fazem sofrer nessa luta diária. Luta de não deixar que uma mate a outra.

*Baseado em texto de Eduardo Baszczyn.

7 comentários:

kbritovb disse...

achei muito legal
equilibrar é legal mas agente sempre acaba pendendo pra algum lado

Macaco Pipi disse...

equilibrio sempre!

Nayh disse...

é verdade.
so nao pode perder completamente o equilibrio, coisa que é bem dificil&complicado.
so ano podemos desistir de tentar !!

adorei blog*.
Beijos!

Samuel Douglas disse...

Muito interessanet

♥♥NaNnA BeZeRrA♥♥ disse...

Que delícia te ler, menina YASHA!
Palavras redondas numa frase perfeita! Reticências são a soma de tudo que somos. Encontrar equilíbrio na vida é para santidades. Nós somos seres em desenvolvimento, aprendendo sobre como lidar com a capacidade e os impulsos que nos tiram do trilho da vida.
Até então, tudo normal.
Mas voce consegue dar cor ao seu texto. Me vi descendo na montanha russa (q detesto, diga-se de passagem!) com os olhos bem fechados, as mãos segurando forte e o grito ecoando nos sete cantos do universo.
Voce escreve super bem. Adorei também a sua apresentação. Muito linda!
Obrigada por seu comentário tão carinhoso lá no meu blog. Realmente nossas ideias se confundem entre si.
Vou te seguir para te observar mais de perto e poder te ler sempre!

Beijão♥

Gabriela disse...

Achei o texto bem equilibrado, contudo. hehe Mas essa sua confusão e desequilíbrio são normais. Isso é ser mulher. Isso é ser humano!

Que bom que voltou, Yasha! Bem-vinda novamente.

Esse texto me lembrou um outro que é a minha cara, do qual eu só lembro o final, que diz: "..porque metade de mim é amor. E a outra metade também" :)

Tem post novo lá no blog. Beijão!

Caféína disse...

Equilíbrio? Balela!!