segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Na ignorância do mundo, sonhei em ser pássaro livre.

Como se a chuva viesse com as nuvens baixas. Como se a chuva trouxesse o mar em fúria. Como se a chuva deixasse nosso ser nublado. Como naqueles dias de invernos em que as nuvens são escuras, negras, quase não se imagina o sol por detrás do frio. Como se a chuva viesse nesses dias com o vento que a faz voar como passarinho pelo céu, e nós aqui, agasalhados até aos ossos, os guarda-chuvas não funcionam, dobram, quebram, e nada se pode fazer senão deixar que o inverno passe, pensar que sim, que o inverno ainda há de passar e que essas nuvens baixas e ventosas são passageiras.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Licença Poética.

Nos últimos meses eu não fiz nenhum caminho que me levasse até você. Não como as pessoas costumam procurar a presença de quem já não está mais aqui. Não como te acompanhei quando ainda era criança, em busca dos parentes que não conheci. Às vezes penso que poderia ser igual a todo mundo: te levar rosas. Mas não seriam as mesmas rosas que colhia no caminho da sua casa, para te fazer uma surpresa já esperada. Eu também poderia colocar seu nome na listinha de orações de domingo daquela igreja lá do centro, aonde todos vão. Mas assim como você, não costumo ir àquela igreja. Nos últimos meses o meu caminho poderia ter sido igual ao de todo mundo, mas eu te procurei apenas nos lugares que sabia que poderia estar. Guardei algumas horas para ouvir as músicas que você não deixava terminar e acabei descobrindo várias outras que você com certeza iria gostar. Ponto de luz é uma delas. Queria muito tê-la encontrado antes, só pra poder te mostrar. Também te encontrei em histórias repetidas, porém inéditas pra quem não te conheceu. Os últimos meses hesitam entre o perto e o longe. Você não sabe mais de mim. E eu tento escrever sua história por garantia. Dou a ela os mesmos eufemismos singelos que sempre presenciei.

Você me fez ler Drummond hoje. As pessoas costumam rezar em dias assim. Eu procurei algo que fosse mais próximo de mim e de você. Rezei os primeiros versos de “Mundo Grande”, onde diz assim: “Não, meu coração não é maior que o mundo. É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores. Por isso gosto tanto de me contar. Por isso me dispo. Por isso me grito (...) preciso de todos”. Peço uma licença poética pra te dizer isso. Outras pessoas irão nos ler e saberão que mesmo depois de quase dois anos, o meu percurso não parece querer te levar rosas. Apenas te ouço em canções repetidas e te entrego outras que certamente te faria sorrir.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Você.

Você não vale um poema, um verso, a rima incompleta, uma letra para a melodia que se repete no silêncio. Não vale. Você não vale a madrugada desperdiçada, o amanhecer no sofá, a febre, o vômito, o grito, uma fotografia rasgada, um caderno queimado, os cabides quebrados. Não vale. Você não vale o corte riscando o pulso, um punhado de remédios, os CDs tristes, um solo de violão, a mão por horas sobre o telefone, a espera, um carro no poste, um soco na parede, o vaso jogado no chão, você não vale. Não vale um espelho trincado, o copo atirado, o lamento atravessando a cidade, o palavrão. Não. Você não vale o tempo esquecido, a teimosia da busca. Mas eu lhe procuro. Ainda. Eu escrevo versos, faço poemas. Eu amanheço na febre, acelero contra a parede, ouço discos arranhados, engulo comprimidos em punhados. Eu vomito. Você não sabe, não imagina. Mas eu não aprendi. Eu ainda faço tudo por alguém que não vale nada.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

"Com as perdas, só há um jeito: perdê-las."

Escuta! Ela ainda canta. Não é o vento. É o coração soprando os males. É que agora ela anda leve, tropeça pra sentir o chão mais próximo e ter a convicção de que dali, não passa. Por que entre uma mágoa e outra é sempre bom guardar um pouco de si atrás do sim e dos sonhos a dois, para manter-se viva. A famosa arte de esquecer nem sempre sobrevive no rir das próprias dores, às vezes, aproxima-se da hipocrisia. Sobrevive no ressurgir dos desejos, no acolher dos detalhes, no aguardar e no silenciar das horas.

Ela não perdeu o embalo. Começa o dia com o coração mais empenado do que nunca, mas reinventado. Vive enquanto faz versos de milagres. Hoje, alguns murmúrios dormem lá fora. Os mais bonitos, cantam dentro.


*Amanhã estou viajando para Patos-PB, e volto na sexta, dia 06. Ficarei sem internet por lá, portanto, até mais e beijo grande para vocês. E uma coisa eu posso dizer: Se essa viagem não me fizer muito bem, me fará muito mal. Mas estarei torcendo pelo bem. :)