domingo, 30 de janeiro de 2011

"...Eu tive tanto amor um dia..."

Um dia o Caio Fernando Abreu falou assim: “De vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme. Só olhando você, sem dizer nada, só olhando e pensando: Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando...”

E então eu leio isso repetidas vezes e a minha única reação é implorar aos céus, com todas as minhas forças, que você vá encolhendo. É. Encolhendo, diminuindo aos poucos, se tornando menor a cada dia, atenuando, abrandando, abreviando, reduzindo, decrescendo, suavizando, minorando, até que seja possível eu te ter entre o polegar e o indicador e te arrancar da minha vida com um simples sopro. Porque você me dói muito, de vez em quando.

E me digam: Tem coisa mais autodestrutiva do que insistir?

sábado, 29 de janeiro de 2011

Última poesia.

Vou enganar a morte
Fazer da dor meu forte
Porque Clarice disse:
"A dor é a vida exacerbada"

Vou enganar a morte
Escrevendo uma poesia com o título última
E assim viver eternamente.


Dois anos e dois meses, vó.
E o coração ainda aperta.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Um lugar chamado lar.

One day I know
We'll find a place of hope
Just hold on to me


Para Fernando.

Foi com você que aprendi a subir em árvore, correr na chuva, admirar a lua, sorrir quando tudo parecia que ia desabar. A gente ficava na calçada conversando sobre as pessoas e seus problemas e em como elas conseguem ter tantos deles. E a gente lembrava-se do Pokémon e do Dragon Ball Z e começava a cantar as músicas dos desenhos. Você dizia com tanta certeza que queria ser advogado e eu com vergonha de não ter certeza dizia “quero ser professora”. Foi com você que desenvolvi o conceito de individualidade, e descobri que o mundo era grande, e desci correndo a ladeira enorme de Ponta Negra, na chuva, fugindo dos buracos, de mãos dadas, cantando Engenheiros do Hawaii. Porque eu tinha medo de descer sozinha. E você só ia comigo se eu cantasse sua música. Quando eu me senti mal, naquele sábado à noite, foi você quem ficou do meu lado até que eu adormecesse.

Quem mais me daria o seu casaco, no frio, porque eu não tinha levado nenhum? Tenho certeza que nem se lembra disso, mas ficou tão marcado, você com seus olhosmaislindosdomundo e voz mais doce, falando para quem quisesse ouvir que me amava. A gente fez a brincadeira do copo e tivemos certeza que conseguimos contato com um espírito; a gente jogou verdade ou conseqüência e acabamos descobrindo coisas que, por serem tão pequenas, ainda não sabíamos um do outro - e essas coisas passaram a ser importantes juntamente às outras essenciais. Nós fomos à praia, olhamos fixo para a lua, e só você percebeu que eu chorei. Guardou segredo. Por isso te amo.

Como você me conhece! Aquelas minhas primeiras lágrimas de perda foram pra você, mudando de cidade sem me dizer se nos veríamos de novo, eu parada na rua com o olhar fixo enquanto você ia embora, teu olhar de medo paralisado na janela do carro. Quando eu não tinha com quem falar e o medo de viver me tomou as veias, foi você que me contou o filme da Sessão da Tarde fingindo que não sabia que eu estava mal.

Você segurou minha mão quando o desejo saiu do controle e precisei de alguém que fosse freio. Lembro de você dizendo “Você é maior que tudo isso”. Tenho certeza que seus pais me chamariam de filha e sua irmã me ofereceria bolo. Com você compartilhei dúvidas e desesperos, chorei porque perdi a minha avó, comemorei a morte da saudade quando te reencontrei na rodoviária.

A gente sugou oxigênios de outras cidades, a gente descobriu a vida de tantas maneiras, a gente foi se transformando no que somos sem nem saber o que somos. A primeira pessoa que soube que eu acordei pra vida foi você. Por carta. Depois, ao vivo, a gente falou a noite inteira, até ver o sol nascendo, fomos dormir exaustos e sem ar e felizes. Era você que me apoiava e que me dava beliscões quando eu precisava acreditar. E foi pra você que eu disse no meu primeiro porre “quero ser igual a você quando crescer”. Você transformou tudo no ano zero da minha linha do tempo. Antes de você, depois de você.

Ah, quanta falta sempre te sinto! Pois era com você que eu falava inglês toda vez que bebia; era com você que eu transformava a amargura em letras de música; era você que me acompanhava, com o violão, nas músicas que eu iniciava cantando; foi você que me encorajou para eu seguir o curso que eu queria, embora distante de casa. Era você que dizia “isso não vai nos levar a lugar nenhum”. Era você que dizia “se não arriscar, nunca vai saber”. Era você que acreditava em mim mesmo que eu dissesse que aquela bolsa vermelha era azul. Lembra? Era você que dizia “e o livro, quando é que sai o livro?”. Foi você quem me disse, diante de toda a distância que existe entre nós, que eu ainda era a sua melhor amiga e que ninguém iria tirar esse lugar de mim. Foi com você que completei trechos de músicas em madrugadas de MSN. Foi com você que andei de mãos dadas pelas ruas, desafiando o mundo. Nós, orgulhosos um do outro. Foi com você que passei minhas melhores tardes no Parque das Dunas. Foi para você que disse frases que nunca me esqueço. Foi você que chegou criança e se mostrou tão grande, sempre conseguindo um jeito de me ajudar. Você dizendo que minha mãe é igual a sua e eu dizendo que elas falam a mesma coisa de nós.

E como são lindos os seus olhos, amor, que parece que dependem tanto do dia da semana para a sua cor. E como me faz bem conversar contigo até o sol nascer, ou dividir um sorvete do meio da semana, ou conversar pelo MSN na hora do almoço. Foi pra você que perguntei o que tinha de errado para não querer sair naquele dia de sol, foi para você que eu contei os meus segredos, foi de você que eu senti o ciúme mais puro, foi pra você o meu abraço mais sincero, foram pra você as minhas palavras mais bonitas, foi pra você o meu olhar mais encorajador. Foi por você que voltei para ficar mais meia hora na festa mesmo tendo aula tão cedo no dia seguinte. E eu só peço que você fique.

Você foi o meu lar, o meu porto, o meu sol nos dias de chuva... E eu nunca tive nenhuma coragem como a que eu tive deitada no seu ombro.

Amor, por que eu te amo?

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

.Entre Aspas.

Esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento, essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente.
Caio Fernando Abreu


É forte de enfraquecer. É como se eu passasse a vida toda jogando na loteria sem ganhar e de repente, do nada, encontrasse um bilhete no chão, na rua, num dia qualquer; e então este bilhete podendo ser premiado ou não; e então eu com ele nas mãos; e então eu sem forças ou vontade ou coragem de conferir se é mesmo premiado, porque já apostei tanto e perdi tanto que agora não faz mais diferença. Bem, é mais ou menos assim: como se você fosse um bilhete que agora me dá preguiça de conferir o resultado. Justamente porque já apostei em você várias vezes, inúmeras, incontáveis. E você sempre deu em nada, nem uma quadra, nem uma quina, nada, sempre uma aposta perdida que volta em seguida jurando mais sorte – como naquele dia, naquele telefonema, você querendo que eu mais uma vez caísse na ilusão de que agora vai ser do jeito que quero.

Talvez você não tenha mais nada a ver com o que sinto, mas me bateu o desejo de compartilhar isso com você – talvez porque ache que não fui suficientemente clara, talvez porque queira ser ainda mais clara do que já fui, mas nunca porque quero me vingar. Não, acredite em mim, fui totalmente transparente quando disse que não sentia raiva. Gosto tanto de você e de uma maneira tão deliberada que não consigo sentir raiva. É só cansaço, apenas isso. Como se tentar ficar com você numa boa fosse uma longa maratona que eu simplesmente desisti de correr. Desisti. Este é o termo. Desisti de ligar me declarando para ver você fingindo que achou maravilhoso; desisti de esperar tuas ligações jamais vindas embora bem-vindas se viessem; desisti do tanto querer que eu tinha guardado pra você. Porque eu sorveria tuas lágrimas caso aquelas tristezas que vêm de repente te pegassem de jeito; eu tentaria desesperadamente dissipar tuas dúvidas inventando respostas plausíveis caso não tivesse as reais; eu ficaria do teu lado mesmo que você não tivesse razão, incondicionalmente, puro instinto de sobrevivência defendendo você como se minha própria vida; eu faria tua mãe gostar de mim e me chamar de filha. Mas todo o futuro do pretérito que eu tinha guardado pra você não foi suficiente.

Agora, depois que falamos ao telefone naquele dia, depois de sentar aqui para te escrever isto, depois que enxergo a tela borrada porque meus olhos já nadam num algo que nem mais represo, posso enfim afirmar sem nenhum rancor: dói demais quando os desejos não batem, quando o que quero é só você, só você, sendo mais que comodidade, mais que válvula de escape para as tensões diárias: quero você com teus problemas, tuas angústias, tuas músicas, tuas risadas, teus amigos, até aquele que antipatizo, sim, até aquele, quero sim, e dói demais ver tão nitidamente, tão dia de sol, tão ofuscante, dói demais ver que você não me quer assim totalmente como te quero, que pra você basta me ver num domingo à tarde e depois não mais – adeus por duas semanas, um mês.

Eu sei que passa, que convivo bravamente com esse tumor até que ele se extinga, que quero você agora mas vou deixar de querer em breve se me concentrar nesta tarefa, que teu nome logo mais não me ferirá como se fosse escrito com esporas pontiagudas que me saem rasgando as vias sempre que pronunciado. Fica com Deus, meu anjo. Cuida bem da tua vida. Faz dela algo melhor do que você fez com a minha.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Ele é um ser tão leve, tão leve, tão me leve...

"Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar de remar também..."

Por todas as horas que você esteve ao meu lado, por todas as causas verdadeiras que você me fez enxergar, por toda a felicidade que você trouxe para a minha vida, por todos os meus erros que você transformou em acerto, por todos os sonhos que você tornou real, por todo o amor que eu encontrei em você, eu serei eternamente grata. Foi você quem me ajudou a me erguer, foi você que não mais me deixou cair, foi você quem me viu além de tudo isto. Você foi a minha força quando eu estava fraca, você foi minha voz quando eu não consegui falar, você foi os meus olhos quando eu não consegui ver, você enxergou o melhor que havia em mim, me levantou quando eu não podia alcançar, você me deu fé quando acreditou junto a mim. Você me deu asas e me fez voar, você tocou minha mão e eu toquei o céu, eu joguei minha fé pela janela e você a trouxe de volta pra mim, você disse que nenhuma estrela estava fora de alcance, você me apoiou e eu fique de pé. Embora as mentiras, você era a verdade. Se eu tenho o seu amor, eu tenho tudo. Agora eu não sei o que fazer, eu não sei o que fazer quando você me entristece.

Minha alegria andou pública por algum tempo, e quem me vê e não me conhece, de fato, ainda acha que ela anda por aqui. Faz dias que ela se afastou. Onde se perdeu? Não sei... Está doendo e é dor pesada. Não divido, não demonstro, não expresso. Dor que fingiu ter ido embora e voltou. E é só. Não há mais o que completar... Só é dor, deve passar.