terça-feira, 18 de janeiro de 2011

.Entre Aspas.

Esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento, essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente.
Caio Fernando Abreu


É forte de enfraquecer. É como se eu passasse a vida toda jogando na loteria sem ganhar e de repente, do nada, encontrasse um bilhete no chão, na rua, num dia qualquer; e então este bilhete podendo ser premiado ou não; e então eu com ele nas mãos; e então eu sem forças ou vontade ou coragem de conferir se é mesmo premiado, porque já apostei tanto e perdi tanto que agora não faz mais diferença. Bem, é mais ou menos assim: como se você fosse um bilhete que agora me dá preguiça de conferir o resultado. Justamente porque já apostei em você várias vezes, inúmeras, incontáveis. E você sempre deu em nada, nem uma quadra, nem uma quina, nada, sempre uma aposta perdida que volta em seguida jurando mais sorte – como naquele dia, naquele telefonema, você querendo que eu mais uma vez caísse na ilusão de que agora vai ser do jeito que quero.

Talvez você não tenha mais nada a ver com o que sinto, mas me bateu o desejo de compartilhar isso com você – talvez porque ache que não fui suficientemente clara, talvez porque queira ser ainda mais clara do que já fui, mas nunca porque quero me vingar. Não, acredite em mim, fui totalmente transparente quando disse que não sentia raiva. Gosto tanto de você e de uma maneira tão deliberada que não consigo sentir raiva. É só cansaço, apenas isso. Como se tentar ficar com você numa boa fosse uma longa maratona que eu simplesmente desisti de correr. Desisti. Este é o termo. Desisti de ligar me declarando para ver você fingindo que achou maravilhoso; desisti de esperar tuas ligações jamais vindas embora bem-vindas se viessem; desisti do tanto querer que eu tinha guardado pra você. Porque eu sorveria tuas lágrimas caso aquelas tristezas que vêm de repente te pegassem de jeito; eu tentaria desesperadamente dissipar tuas dúvidas inventando respostas plausíveis caso não tivesse as reais; eu ficaria do teu lado mesmo que você não tivesse razão, incondicionalmente, puro instinto de sobrevivência defendendo você como se minha própria vida; eu faria tua mãe gostar de mim e me chamar de filha. Mas todo o futuro do pretérito que eu tinha guardado pra você não foi suficiente.

Agora, depois que falamos ao telefone naquele dia, depois de sentar aqui para te escrever isto, depois que enxergo a tela borrada porque meus olhos já nadam num algo que nem mais represo, posso enfim afirmar sem nenhum rancor: dói demais quando os desejos não batem, quando o que quero é só você, só você, sendo mais que comodidade, mais que válvula de escape para as tensões diárias: quero você com teus problemas, tuas angústias, tuas músicas, tuas risadas, teus amigos, até aquele que antipatizo, sim, até aquele, quero sim, e dói demais ver tão nitidamente, tão dia de sol, tão ofuscante, dói demais ver que você não me quer assim totalmente como te quero, que pra você basta me ver num domingo à tarde e depois não mais – adeus por duas semanas, um mês.

Eu sei que passa, que convivo bravamente com esse tumor até que ele se extinga, que quero você agora mas vou deixar de querer em breve se me concentrar nesta tarefa, que teu nome logo mais não me ferirá como se fosse escrito com esporas pontiagudas que me saem rasgando as vias sempre que pronunciado. Fica com Deus, meu anjo. Cuida bem da tua vida. Faz dela algo melhor do que você fez com a minha.

2 comentários:

Klinger disse...

Putz, meu a minha tela borrou agora...

João disse...

Chega uma hora que cansa mesmo. Correr atrás de quem corre em fuga da gente. E piora ainda mais quando isso com uma pessoa confusa, do tipo que te abertura necessária para adentrar, mas na hora que você coloca a chave no buraco, a fechadura está trocada. Mas como assim? E fica nesse faz não faz constante. Como se a gente fosse um bocado de pedra, que não sentisse nada, que rolasse de um lado para o outro como se não riscasse, doesse. A gente começa achando que pode se tornar algo bonito, e vagarosamente, sem que percebamos, vira o contrário. E aquela coisa começa a tomar de conta de tudo, e fazer mal, quando devia fazer bem. A gente tenta converter, mas não é possível um só mudar tudo, né? Melhor deixar de focar nisso, vai ver outra pessoa quer visitar a gente, mas estamos tão obcecados em algo (que nem vale a pena), que deixamos a porta fechada para outros, que possam realmente fazer aquilo que gostaríamos. :D