segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Um lugar chamado lar.

One day I know
We'll find a place of hope
Just hold on to me


Para Fernando.

Foi com você que aprendi a subir em árvore, correr na chuva, admirar a lua, sorrir quando tudo parecia que ia desabar. A gente ficava na calçada conversando sobre as pessoas e seus problemas e em como elas conseguem ter tantos deles. E a gente lembrava-se do Pokémon e do Dragon Ball Z e começava a cantar as músicas dos desenhos. Você dizia com tanta certeza que queria ser advogado e eu com vergonha de não ter certeza dizia “quero ser professora”. Foi com você que desenvolvi o conceito de individualidade, e descobri que o mundo era grande, e desci correndo a ladeira enorme de Ponta Negra, na chuva, fugindo dos buracos, de mãos dadas, cantando Engenheiros do Hawaii. Porque eu tinha medo de descer sozinha. E você só ia comigo se eu cantasse sua música. Quando eu me senti mal, naquele sábado à noite, foi você quem ficou do meu lado até que eu adormecesse.

Quem mais me daria o seu casaco, no frio, porque eu não tinha levado nenhum? Tenho certeza que nem se lembra disso, mas ficou tão marcado, você com seus olhosmaislindosdomundo e voz mais doce, falando para quem quisesse ouvir que me amava. A gente fez a brincadeira do copo e tivemos certeza que conseguimos contato com um espírito; a gente jogou verdade ou conseqüência e acabamos descobrindo coisas que, por serem tão pequenas, ainda não sabíamos um do outro - e essas coisas passaram a ser importantes juntamente às outras essenciais. Nós fomos à praia, olhamos fixo para a lua, e só você percebeu que eu chorei. Guardou segredo. Por isso te amo.

Como você me conhece! Aquelas minhas primeiras lágrimas de perda foram pra você, mudando de cidade sem me dizer se nos veríamos de novo, eu parada na rua com o olhar fixo enquanto você ia embora, teu olhar de medo paralisado na janela do carro. Quando eu não tinha com quem falar e o medo de viver me tomou as veias, foi você que me contou o filme da Sessão da Tarde fingindo que não sabia que eu estava mal.

Você segurou minha mão quando o desejo saiu do controle e precisei de alguém que fosse freio. Lembro de você dizendo “Você é maior que tudo isso”. Tenho certeza que seus pais me chamariam de filha e sua irmã me ofereceria bolo. Com você compartilhei dúvidas e desesperos, chorei porque perdi a minha avó, comemorei a morte da saudade quando te reencontrei na rodoviária.

A gente sugou oxigênios de outras cidades, a gente descobriu a vida de tantas maneiras, a gente foi se transformando no que somos sem nem saber o que somos. A primeira pessoa que soube que eu acordei pra vida foi você. Por carta. Depois, ao vivo, a gente falou a noite inteira, até ver o sol nascendo, fomos dormir exaustos e sem ar e felizes. Era você que me apoiava e que me dava beliscões quando eu precisava acreditar. E foi pra você que eu disse no meu primeiro porre “quero ser igual a você quando crescer”. Você transformou tudo no ano zero da minha linha do tempo. Antes de você, depois de você.

Ah, quanta falta sempre te sinto! Pois era com você que eu falava inglês toda vez que bebia; era com você que eu transformava a amargura em letras de música; era você que me acompanhava, com o violão, nas músicas que eu iniciava cantando; foi você que me encorajou para eu seguir o curso que eu queria, embora distante de casa. Era você que dizia “isso não vai nos levar a lugar nenhum”. Era você que dizia “se não arriscar, nunca vai saber”. Era você que acreditava em mim mesmo que eu dissesse que aquela bolsa vermelha era azul. Lembra? Era você que dizia “e o livro, quando é que sai o livro?”. Foi você quem me disse, diante de toda a distância que existe entre nós, que eu ainda era a sua melhor amiga e que ninguém iria tirar esse lugar de mim. Foi com você que completei trechos de músicas em madrugadas de MSN. Foi com você que andei de mãos dadas pelas ruas, desafiando o mundo. Nós, orgulhosos um do outro. Foi com você que passei minhas melhores tardes no Parque das Dunas. Foi para você que disse frases que nunca me esqueço. Foi você que chegou criança e se mostrou tão grande, sempre conseguindo um jeito de me ajudar. Você dizendo que minha mãe é igual a sua e eu dizendo que elas falam a mesma coisa de nós.

E como são lindos os seus olhos, amor, que parece que dependem tanto do dia da semana para a sua cor. E como me faz bem conversar contigo até o sol nascer, ou dividir um sorvete do meio da semana, ou conversar pelo MSN na hora do almoço. Foi pra você que perguntei o que tinha de errado para não querer sair naquele dia de sol, foi para você que eu contei os meus segredos, foi de você que eu senti o ciúme mais puro, foi pra você o meu abraço mais sincero, foram pra você as minhas palavras mais bonitas, foi pra você o meu olhar mais encorajador. Foi por você que voltei para ficar mais meia hora na festa mesmo tendo aula tão cedo no dia seguinte. E eu só peço que você fique.

Você foi o meu lar, o meu porto, o meu sol nos dias de chuva... E eu nunca tive nenhuma coragem como a que eu tive deitada no seu ombro.

Amor, por que eu te amo?

Um comentário:

MAILSON FURTADO disse...

Belo post!

Belo blog!

Gostei pra caramba... Parabéns! Voltarei aqui mais vezes!

Convidaria a conhecer meu trabalho (poesia, música, teatro)

Ficaria feliz demais! http://mailsonfurtado.com