sexta-feira, 18 de março de 2011

"Só estou tentando deixar as coisas um pouco mais bonitas...”

Eu já estive no fim de uma nuvem em dias de calor escaldante, e chovia forte sobre quem estava ao meu lado, mas sobre mim só a neblina. E já me faltou o último número para que o meu bilhete de loteria fosse o premiado, e a minha boca sentiu o gosto acre de ser quase vencedor. Eu corri para parada de ônibus e quando chegava, ofegante e suando, o ônibus partia. Meu avô se foi minutos antes da minha festa de dez anos, que não aconteceu, mas me recordo dele ainda deitado ao meu lado, pedindo que na sua falta celebrassem meu décimo ano como se fosse um acontecimento histórico. Guardo lembranças que quase deixei cair, por falta de atenção, mas recuperei em um só bote por não ter nada além disso. Perdi shows de artistas preferidos. Perdi amigos e me senti o pior de todos os seres humanos e tive que buscar em mim meu melhor amigo. Já tive mais de cem contatos na agenda e nenhum que eu pudesse ligar às quatro da manhã e chamar para me acalmar o choro. Já tive que recomeçar do zero tantas vezes e nem sempre tinha alguém para me dizer que eu podia mais uma vez e que dessa vez daria certo. Apostei meu esforço em jardins que floresciam junto, depois de eu ter que partir para outro lugar. Já parti quando o que tinha que fazer era ficar. Já fiquei quando o que tinha que fazer era partir. Já respondi quando eu tinha que calar. E já calei quando o que eu tinha que fazer era me expor. Já me senti impotente por não poder converter doença em saúde. Já perdi chamadas importantes, já recebi telefonemas que preferiria não ter recebido, já fui a última a saber, já cheguei tarde à última sessão do cinema do último dia de exibição daquele filme que eu estava louca para assistir. Não ouvi o despertador alarmar e perdi o melhor da festa. Tantos desencontros e eu sem entender o que eu fazia aqui. Até que você chegou para que eu entendesse que destino é isso mesmo... Há coisas que são para nós, há coisas que são vaidades… E há coisas que precisam seguir sem que sejamos os donos da verdade. Há perdas que nos fazem crescer, há outras que nos farão sorrir, e outras que precisamos mesmo perder para que o universo possa se equilibrar. Há uma sucessão de felicidade para quem decide ver com os olhos que se deve ver. Sem querer tudo para si, sem ser um gigante infalível, sem ser o insosso “Deus-humano”. Há felicidade depois da tristeza. Há choro, mas também há riso. Há dias sem esperanças, mas há dias de sonhos e sonhos e sonhos. Há dias de pouco-quase-nada, há dias de mesa cheia sem ter ninguém para dividir. Mas a gente vai seguindo, porque ouvimos em algum lugar da estrada que é isso que precisamos fazer. E vamos acreditando... E eu quero acreditar que é necessário seguir apesar de. E apesar de é preciso viver.

4 comentários:

devaneadora disse...

... tantas faltas, nostalgias, lembranças, sentimentos, desesperanças e esperanças enfim, tantas vírgulas, tantos pontos várias reticências para se continuar a simplesmente viver. A vida é assim, montanha russa desembestada, muita vezes emperrada mas é a vida que faz diferença por podermos desfrutar dela intensamente. Me vi em muitos parágrafos do teu texto e percebi que a mesma força que teve para reunir todos os fatos, eu tive para levantar e seguir novamente. Viver requer certos tropeços e abdicações, mas o principal de tudo é sabermos que precisamos seguir enfrente independente do mau tempo.

Gostei do texto!

.Intense. disse...

Comentando só pra dizer que li. E achei bonito demais. E não sei o que dizer.


=~

Alan Salgueiro disse...

Ah, menina Ana Yasa, é tão bom estar por aqui de novo lendo coisas tão bonitas, uma mini biografia, diria, belas divagações!

Dayane Soares disse...

Yasha minha querida. Que texto foi esse? Veio como luva, o tal destino talvez?!
Será que é porque estive afastada daqui e tinha me esquecido o quanto é bom te ler, que estou abobada com essas palavras?! rs

LINDISSIMO.