quarta-feira, 20 de abril de 2011

De uma saudade sem remédio.


Para Verônica Franco.

Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também...

Nosso coração é bicho do mato... Quando cisma de ficar acanhado em um canto, não tem quem o tire de lá. Tem horas que ele contrai e parece que permanece. Fica lá doendo e não tem palavra nem remédio que dê jeito. Tem situações que o faz latejar forte, mas ele sobrevive... Porque coração é assim mesmo: faz e ouve somente aquilo que lhe é conveniente. Ele sobrevive porque destruir não é nada simples quando se trata de um Amor. Um Amor cheio de pedrinhas preciosas e sentimento bonito, de momentos ímpares, de apoio e de vontade de ir em frente, correndo a qualquer lugar, ainda que não se tenha propósito de chegar. Sobrevive pelos olhos que ainda brilham, pelo vento gelado no estômago, pelo peito acelerado ao ver uma foto, pela vontade de gritar pro mundo inteiro e as galáxias mais próximas ouvirem dessa saudade que nós sabemos o quanto aperta. Sobrevive pelas mãos que ainda se buscam para o abraço, pelo sorriso desconfiado no canto da boca que não se consegue conter ao lembrar-se dela, pelas lembranças eternizadas, por querer tanto ela aqui, por ser tão puro. Porque os dias de tempestade não duram pra sempre, e um dia novo sempre surge depois de uma noite difícil. Porque o inverno é um tanto frio, mas anuncia a primavera, e tudo muda depois. Tudo muda. Sobrevive porque até o nosso campo quando seca, e os nossos girassóis quando se abalam, permanecem belos e vigorosos, alegres, firmes como o que carregamos no peito. Sobrevive. É preciso ter fé para que o choro possa se transformar em cores, em arco-íris reluzentes, e daí começar a ver a possibilidade de um futuro melhor. Porque apesar de toda a dificuldade, sempre há uma chama, ainda que pequena, de esperança. Por isso e por um tanto mais, o coração sobrevive. Sobrevive aos abalos e aos obstáculos.

Quando eu era criança e ia viajar de carro com meu pai, sempre tinha medo dos dias de chuva. Eu era pequena, mas já sabia e já conhecia o que podia ser considerado ruim. Eu apertava minhas mãos bem forte como se eu pudesse me proteger... Na maioria das vezes eu dormia, mas eu percebia que não era em vão, pois quando eu acordava, ao olhar pela janela, por entre as árvores que pareciam correr e os pássaros que pareciam voar na mesma sintonia que o carro, lá estava um lindo e resplandecente arco-íris. Para aqueles que já conhecem um pouco de Física e entendem o que está por trás de um arco íris, pode não ter graça, mas para os olhos de uma criança aquilo era mágico. Com o passar dos anos, os arco-íris vão sumindo ou simplesmente deixamos de percebê-los, o sol parece ferir a nossa pele, as estrelas não têm mais tanto brilho ou simplesmente nós as esquecemos, lá no céu. Mas as tempestades? Essas continuam a surgir do nada, e quase nos afogam. Talvez seja uma lição que algo em algum lugar do mundo nos dá, para que possamos dar valor ao que é bom e eterno. Tão eterno quanto à esperança que não deve morrer afogada nessa tempestade. Não podemos parar. Precisamos remar diante da tempestade. Deus não te daria uma tempestade tão forte se ele não soubesse que você era forte o suficiente para remar contra ela. Então rema! Sei que é complicado ouvir isso dito desse jeito, assim como é complicado, para mim, falar isso, por se tratar de uma dor que não tem remédio nem palavras que possa curar, mas se precisar de um bote salva-vidas, grita! Tem muita gente do teu lado, tentando encontrar uma forma de te ajudar, de amenizar - um pouquinho que seja - essa saudade toda que aperta e parece não ter fim. Eu só peço que você nade enquanto houver ar nos pulmões, força nos braços e vontade no coração.

Hoje é o seu aniversário, um dia especial para a senhora, talvez nem tanto pelas circunstâncias que nos cercam, e é por isso que eu estou aqui. Queria poder contribuir de uma forma melhor, mas infelizmente não sei como fazer isso. Então só me resta algumas palavras, que podem ou não fazer sentido, podem ou não fazer diferença, mas que são de coração. Tenho certeza que o nosso tesouro está muito feliz vendo isso tudo, e isso para mim já é muito importante. Desejo, de coração, que o seu caminho tenha menos tempestades e mais sol e luz iluminando os dias. Que tenha menos pedras na estrada e mais céu azul, como o de hoje. Que sempre tenha uma mão que te apóie e um ouvido que te ouça. Nossa estrela está lá no céu sim, e ela é cadente. Tenho toda a certeza do mundo que ela está e estará sempre olhando por nós, e principalmente por você: mãe.

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