segunda-feira, 19 de novembro de 2012

(Sobre)viver.

Vim acender as luzes dos corredores, abrir as gavetas, porque palavras também podem mofar, eu sei. Vim varrer as teias dos cantos e soprar a camada de pó sobre os móveis, para que a casa não pareça abandonada. Vim recolher o excesso de cartas que impedia a abertura da porta. Os envelopes quase desbotados espalhados pela entrada. Jogar o lixo. Vim para deixar um bilhete, pendurado no canto do espelho, escrito em letras tortas e apressadas para os que ainda entram neste labirinto escuro tateando pelas paredes.

Durante anos sustentei um segredo, pessoas que o viveram comigo não fazem mais parte dos meus dias, e depois de tantos anos ele não me incomodava mais, até porque eu o deixava quieto, dormindo, cantava cantigas de ninar e ainda fazia carinho, para que ele não ressurgisse e me atormentasse enfim. Mas de vez em quando vinha alguém e me lembrava que ele existia, embora indiretamente, e então minha paz acabava e passava dias carregando sentimentos ruins, atingindo pessoas que tentavam se aproximar, machucando, e doía, e doeu.

Doeu como corte no dedo e álcool depois. Como caco de vidro no pé e uma longa caminhada. Como espinho, sem querer, na tentação de colher a flor. Doeu como lábio mordido por dentro. Como dedo mindinho batido na quina. Como soco no estômago. Como unha encravada. Puxão de cabelo. Como queda de escada. Arranhão e água de mar. Pancada. Doeu como fratura exposta. Inflamação. Como gelado descendo na dor de garganta. Doeu como tapa de mãe quando se é criança. Como tapa na cara. Dedo na tomada. Parto natural. Doeu muito mais do que você imaginava. E eu não encontrava remédio nenhum que curasse esse tipo de dor.

Certo dia espetaram meu segredo tão forte que inflamou. Decidi: Tinha que contar. Minha condição foi que ninguém me interrompesse, queria vomitar tudo de uma vez só, rápido como quem tenta fugir daquilo há tanto tempo. Ainda bem que era entre amigos, que havia amor em cada canto, e bebida, claro, pra eu me afogar se nada desse certo. Mas deu. Minha paz aumentou, e tirei uns 1488 quilos das costas. Se resolveu meus problemas? Não. Mas me senti como se tivesse dividindo aquele peso com pessoas de minha confiança, e estava.

Meu único problema depois disso foi o que eu já previa e o que me impedia de ter contado antes. O fato de contar me trouxe de volta toda aquela situação, que não quer mais sair de mim, que não quer mais ir embora, que me fez procurar diariamente, alimentar, fazer crescer a cada dia o que já virou pó há tempos. E eu ainda continuo sem encontrar remédio nenhum, apesar de seguir (sobre)vivendo. É como diz uma frase que li por aí um dia "Sério, eu estou bem. Mas qualquer sopro seu me derruba".

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Da melhor das amizades.

Eu te amo. E o meu amor não tem importância alguma para o mundo. Ele não desloca nenhum pássaro, flor, folha, galho, nenhum vento que se preze. É imperceptível, mesmo que os olhos desmintam. É apenas uma paisagem interna. Meu amor é algo que atravesso. Não quero que ele um dia cristalize. Nem que se transforme em tristeza. Nem que inexista a cumplicidade. Ou se torne amargo. Por isso, eu o atravesso. Continuo a atravessá-lo. Eu me atravesso a mim. Como quem desaparece dentro da chuva, ou na claridade incessante. Com vento de tempestade dentro. Arrancando todas as folhas. Com o ruído flamejante que se escuta quando um tigre beija com cuidado um pássaro caído, para não machucá-lo: eu te amo. Eu derrapo por esse lugar perigoso: o meu amor. A todo momento, essa mulher que me atravessa precisa de se lembrar de si, e de mim, e da paisagem inteira, e percorrê-la de volta, sem previsões e sem mapa. Para que seu amor finalmente se explique, e revele a substância de que é feito: a menina que fui, o céu azul, o sol intenso, e tudo que então brilhava, os bichos, os livros, o pé de acerola, goiaba com leite condensado, o branco, o limpo, o simples, e meu coração. Meu coração que não tem importância alguma para o mundo. É só uma pequena parte de todo o amor que você ainda vai receber da vida, das pessoas, talvez de um céu iluminado de tarde, apenas uma pequena parte de todo amor que você vai receber escondido, gratuito, e reservado, ou gritado, e duramente arrancado, da vida. Mas é tudo que tenho, meu coração branco para o mundo, mas em cores, e limpo, e pulsando. É com ele, e dentro, e perceptível para nós, que eu te amo. É tudo que tenho para você, para te fazer feliz com meu coração batendo, e com meu coração te guardar da noite ou dos perigos. É ínfimo e íntimo, imperceptível como um vento nos galhos, ou um acariciar no vazio, mas gigante para quem sabe ver com os olhos de dentro: o meu coração, com o amor batendo.

Por todo o amor que eu encontro em você, eu serei eternamente grata. É você quem me vê além do imperceptível para o mundo. Você é a minha força quando eu estou fraca, minha segurança, o que eu tenho de concreto, você é a minha voz quando eu não consigo falar, você enxerga o melhor que há em mim, me levanta quando eu não posso alcançar, você me dá fé quando acredita junto a mim. Eu jogo minha fé pela janela e você a traz de volta, você diz que nenhuma estrela está fora de alcance, você me apoia e eu fico de pé. Embora as mentiras do mundo, você é a verdade. Se eu tenho o seu amor, eu tenho tudo. (Sem drama, sem clichê, sem coraçõezinhos flutuando). Agora eu não sei o que fazer, eu não sei o que fazer quando você me entristece.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

I should even try.

Talvez ela estivesse mesmo certa quando disse que "sustentar o silêncio é, muitas vezes, mais difícil do que gritar descabelada por qualquer coisa que seja", e talvez o meu íntimo seja mais íntimo do íntimo dela do que ela pensa. É que ser, para mim, é uma coisa meio que vai na contramão de mim mesma e às vezes bate, mas eu não chamo a polícia, assumo o prejuízo que sou de declarar meu ruim e meu bom, sim, com um certo embaraço, que não ser tudo que se pode é caso de chorar no travesseiro de noite e olhar pro chão quando se cruza com quem é até o que não deve ser, mas eu sou assim. E daí vão me adivinhando, e de pedaço em pedaço vão me montando, é, às vezes encaixando na ordem errada, mas eu sei, a culpa é desse meu silêncio que fala mais alto que tudo que eu tento dizer.

I'll be sweeter. I promise. For you do not feel alone. For I do not feel suffocated. I should even try. I'll try.

domingo, 22 de abril de 2012

"Mar e Ana"

Por fora pode até ser taxada a pré-conceitos, de longe, sem palavras ditas, sem sorriso largo no rosto. E se é, ela faz da situação armadura para se proteger. Por fora pode até ser taxada a pré-conceitos, na distância, sem conversa fiada, sem beijo estalado na testa. E se de longe tudo é mesmo pequeno, restrito, preconceituoso, quem se importa? Por fora pode até ser taxada a pré-conceitos, mas quem não se atira não sabe que por dentro ela é um mar. Mar de noites regadas a vinho, de lua. Mar de dias calmos, claros. Mar que alivia, que dá cor aos olhos, que resplandece. Mar que se apossam, poluem, destroem, se afastam, e depois percebem a importância. Cuidam, mas nem sempre salvam. Mar de mergulho fundo, para enxergar a magia que vem de dentro. Mar de pedras. Pedras que só ela vê a beleza lapidada. Mar de um minuto prendendo a respiração, olhos fechados, paciência, para ver se suporta. E sempre suporta. Mar que atrai os olhos e o sorriso das mais diferentes pessoas. Mar que guarda segredos, confissões à meia-noite. Mar que salva nos momentos mais conturbados, que tira as impurezas. Mar que disfarça o choro, que lava as mágoas. Mar de imensidão, de azul, de vida, que se desgasta quando é afetado, mas que sempre se renova, se auto renova. Eu me atiro.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Da saudade que sufoca.

Sabe o que é Minéia? É que ninguém nunca vai entender quando eu disser como é olhar para uma foto sua e me sentir imune, querer tirar você de lá. É que ninguém nunca vai entender quando eu disser como é lembrar de ti e ficar pensando "Ah, se Vinícius de Moraes te conhecesse, minha flor! Se ele lesse a poesia que eu via em seus olhos... Ah, se todos fossem no mundo iguais a você..." É que ninguém nunca vai entender quando eu disser como é dar um beijo todos os dias numa fotografia e desejar boa noite, antes de dormir. Ninguém nunca vai entender. Por isso que eles dizem "não fica assim", "tudo vai dar certo", "daqui a pouco você nem se lembra disso", quando às vezes só precisamos de um abraço. Eles dizem, minha flor, mas eles não sabem, não sabem que o silêncio de um abraço muitas vezes é bem mais precioso do que certas palavras, não sabem que há um ano eu me lembro de você todos os dias, e mesmo que saibam eles nunca vão entender o filme que passa na minha cabeça e toma conta do meu corpo todos os dias quando isso acontece. É triste saber que falta algo e que não dá pra comprar, substituir, esquecer, implorar... Mas ninguém nunca vai entender.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Um dia de silêncio, Minéia.

Um ano, meu anjo. Um ano sem você aqui. Eu poderia até dizer que já faz muito tempo, se no meu coração eu não sentisse que faz muito mais. Quando não se segue a lei natural das coisas fica difícil de acreditar, difícil de conviver. Todos nós imaginamos que um dia perderemos nossos avós, nossos tios, nossos pais... Mas nossos amigos vão estar conosco a vida toda, "temos tanto ainda por viver". Estipulam que viveremos 80 anos e esquecemos as exceções... Pensamos que vai ser sempre assim, que estaremos velhinhos lá na frente jogando baralho enquanto relembramos nosso tempo de faculdade... E daí um dia você sai de casa, cheia de sonhos na bagagem, com um sorriso que não cabe no rosto de tão grande, com a felicidade estampada em cada parte de si, e nesse dia você não volta. Os amigos não morrem, até que acontece. Um ano, minha flor. Um ano sem você aqui. Em um ano se constrói uma vida, mas não traz a sua de volta.

Ah, por favor, não diz para ninguém: Chorei à noite inteira.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

E se o amor for só uma opção?

Eu consegui ser eu mesma com você, porque desde o início eu sabia que não iria dar em nada. Você me fazia rir a cada duas palavras que dizia, mas eu não achava você bonito. E eu achava você muito menino. E enquanto você se apaixonava (e eu permitia) eu ia indo embora pelos cantos. E agora eu escrevo para pedir desculpas, eu não devia ter feito isso. Eu fui egoísta e já faz tanto tempo. E eu não demorei muito para perceber, sentir ciúmes loucamente, te achar a pessoa mais linda desse mundo de todos os ângulos - inclusive e principalmente por dentro - e correr atrás de você por anos como uma boba que toparia qualquer acordo que você propusesse. Só me esqueci que não tem acordo pro amor. Hoje eu lembro de você, o amor foi só uma opção, temos um laço muito forte, uma amizade linda, mas distante (o que não quer dizer nada), e eu só queria agradecer, porque foi você que me fez ver que mesmo eu sendo eu mesma alguém poderia gostar de mim.


Para ele, que sabe dos dias, da saudade e do amor.